despertando consciências

Uma jornada à nós mesmos

Camila Carrera

Amante de artes visuais, escrita, leitura e de tudo que me instiga a questionar a dita realidade.

Em que espelho ficou perdida a minha face?

Caminhamos por um trajeto longo até chegar aonde estamos, e durante esse caminhar deixamos pedaços de nós pela estrada devido ao que nos aconteceu. Logo, vamos perdendo nossas essências e ficamos vazios, sem cor e brilho natural, pois evaporamos aos poucos até nos tornar um nada ofuscante que grita no anseio de poder viver inteiramente à vida. Em que espelho ficou perdida a minha face? Essa pergunta despertada por um poema de Cecília Meireles nos traz o abismo de nossas vidas e a porta para a liberdade de nossas mentes. Criem-se!


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Estava vagando rumo a entrega do meu destino e a minha face se perdeu em meio ao vão. A verdade que estava presa a mim e ao meus olhos foi esquecida e aos poucos fui perdendo a cor, fui perdendo o sentido. E assim, me desmanchando fiquei invisível diante do mundo e a quem sou. Já não me via da mesma maneira, não enxergava o meu entusiasmo, não reconhecia meu próprio sorriso e desconhecia os sonhos e expectativas que viviam em mim. Fui me deixando morrer pela vida, ela me matou e me deixou vivendo. Esqueci do meu eu, de quem fui e de quem sou.

Os sonhos me disseram adeus por causa da desistência que bateu a minha porta, mas afinal, o que me restou? Um eco desesperado lutando para achar uma saída que respondesse as minhas dúvidas. Nada havia sobrado, pois de sonhos eu era feita. Aparentemente tinha me tornando uma alma penada perambulando pela existência num céu obscuro. Não estava contente e não sentia mais a realização, precisava urgentemente recuperar o brilho que ainda existia e que havia se perdido em meu interior. Olhei fundo nos meus olhos diante do espelho e a minha essência não estava mais lá, as dificuldades, fracassos, erros e a dor em especial, apagaram-na. Estava vazia e preta e branca.

A vida me soprou e fez com que eu caísse de um penhasco, me larguei no meio do andar pois não resisti aos obstáculos, mas ao mesmo tempo senti fome de disposição e melhoria, então foi aí que decidi lutar pela busca da minha face, precisava da minha cor de volta. Resolvi percorrer o sombrio da noite em busca do Sol, fui em busca da serenidade e vitalidade, penetrei no meu ser e conheci o que sou, e quem sabe, lembrarei e voltarei a ser o que era, aquele alguém rico em sonhos e em esperança que se mantinha na tentativa de conquistar o almejado que lhe fazia vibrar.

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Das minhas mãos, olhos e pele vejo as marcas que a vida deixou e que permiti que ela deixasse. Não podia me render as armadilhas criadas pela minha mente traiçoeira. Tinha que domar o medo e o vendaval que habitava a mim, pois sou maior do que a ilusão, sou real. Precisava sair da ilha para observá-la, como disse Saramago. O amargo da minha boca foi conhecendo outros paladares, outras visões e perspectivas, assim pude sentir levemente o doce da minha boca e da minha vida novamente. O meu rosto magro, passou a ficar mais corado e carnudo; a noite que era tão temida e que abrigava um sombrio desconhecido, rugia o grito dos fantasmas moradores da minha consciência que se calou. Passei a ter sonhos melhores, a sentir paz e a pensar vento por instantes. Enfrentei o silêncio do calar, me abracei na solidão e entendi o que era solitude.

Pretendia voltar a flutuar em meus pensamentos, queria voltar a me imaginar com um futuro sendo aquela mistura de um alguém que sou e que posso ser. Sintia necessidade de me expressar e de ter minha voz enfatizando o que me fazia vibrar. Queria poder rever o colorido da minha face.

A lembrança do suave que se escondeu num mar de terremotos foi se clareando, tornando-se uma sensação prazerosa de possibilidades. Mas para não correr o risco de oscilar, viajei pelo caminho que ficou para trás e descobri em qual espelho ficou perdida a minha face, que talvez tenha se perdido no reflexo do meu ser. Vasculhei na minha memória cada momento e situação mal resolvida que passou despercebida e que não foi enfrentada por mim. Usei de minhas forças oriundas da imensidão do que sou para encontrar as minhas respostas que poderiam ter se escondido na falta de interpretação e turbulência mental, afinal é preciso abraçar a dor para acariciá-la. Dessa forma pude entender o que é, e ao adquirir discernimento a respeito do que me rodeava, passei a lidar com o que surgiu de uma forma benéfica, racional e questionadora, aproveitando os aprendizados com sabedoria e não me vitimizando. Quando atingi a aceitação do que me foi reservado ou tido por consequência passei a me ver verdadeiramente, enxergando então a minha alma de uma forma mais vibrante, inteira e resolvida, afinal passei a me encarar para modificar meu destino, evitando a contaminação do futuro, já que cuidar do presente passou a ser prioridade. Interiorizei que nada é fácil, e nem difícil, e sim como deve ser.

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O arder dos meus olhos revelou o soluço do choro que foi rompido pelos terremotos que tanto me tiraram do chão, mas buscando pela flor que desabrochava em meu ser encontrei a resposta para as minhas maiores perguntas: a perda do controle. Entendi que não há resposta para tudo, aceitei. E assim, senti o meu cheiro natural, conheci e cumprimentei a paz que fervilhava em mim e que tanto me aguardava em silêncio nas noites, no calor dos dias e na brisa das tardes.

Uma vez me disseram que a vida é feita de passagens, mas que cada uma delas é única, e minha consciência me aconselhou a não deixá-la passar depressa sendo devagar. Hoje encontrei a minha face, ela estava dentro de mim em um passado distante e apagado que se tornou um presente iluminado. Hoje sou o mar, sou o cheiro das flores e me banho de histórias e superações. Estou me escrevendo, estou esculpindo minha nova face.


Camila Carrera

Amante de artes visuais, escrita, leitura e de tudo que me instiga a questionar a dita realidade..
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