desumanizar

a literatura sem essência

JEF

Jef releu muito, salvo que para reler é preciso ler. Portador de transtornos mentais, atualmente segue seu tratamento com regularidade.

Uma nova saída/leitura para a esquerda: a proposta de Galeano

Eduardo Galeano foi um escritor uruguaio que durante todo seu processo de escrita defendeu a tese de que a América latina foi explorada por conquistadores e grandes bancos e empresas internacionais. No entanto, na sua última visita ao Brasil disse não poder mais reler seu maior clássico “As veias abertas da América latina”. Teria renegado sua obra o escritor?


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Antes de morrer Eduardo Galeano disse a respeito de seus livro “As veias abertas da América latina”: "eu não seria capaz de reler esse livro; cairia dormindo. Para mim, essa prosa da esquerda tradicional é extremamente árida, e meu físico já não a tolera". Por que o autor fez tal afirmativa? Teria ele renegado ao fim de seus anos a sua tão coerente conduta política que estava tão cruamente ligada a sua vida?

Politicamente falando: “O que é direita?” “O que é esquerda?”. Não é fácil descobrir hoje onde cada categoria se aplica. Isto porque através dos anos a própria “direita” e a “esquerda” abandonaram seus dogmas. Mas não é por descuido que esses dogmas se esvaneceram no ar. Cada partido político se adaptou como pode a uma nova realidade local, regional, estadual, nacional, continental e mundial.

Mas por que disse Galeano que não poderia reler seu clássico (se por clássico tomamos o livro que é exatamente relido infinitas vezes)?

Sim, o livro já é uma leitura intragável quando se lê na primeira vez. O texto é dado a provocar revolta e, além disso, foi tomado por bíblia por uma esquerda que hoje se encontra adormecida e não revoltada.

Publicado originalmente em 1978 o texto com tese tão transgressora (sim, somos subdesenvolvidos na América Latina por que somos um povo roubado e explorado e assassinado há mais de 500 anos), não provoca mais transgressão entre seus leitores. Provoca, antes, deslumbramento (como é inteligente e iluminado este Galeano).

Galeano não gostou do que os anos fizeram a seu livro, e com os anos passou a abandoná-lo. A isto não custa pensar muito. A trilogia de livros “Memória do fogo”, que começou a ser publicada em 1985 com o livro “Os nascimentos” e terminou em 1988 com “O século do vento”, já é outra história contada. Engana-se quem toma esta trilogia por revolta pura. Ali, Galeano começa a aprimorar outra escuta da história latino-americana. Percebe os afetos todos da história cruenta desta terra desde antes de Europeus a terem “descoberto”.

Se em “As veias abertas da América latina” dois afetos dominam o palco como as duas máscaras do teatro grego (e podemos definir bem estes afetos na sua divisão entre vencidos tristes e vencedores alegres, mas alegremente sados-masoquistas), em “Memória do Fogo” os afetos se multiplicam.

São tristes, alegres, esperançosos, cruéis, justos, infinitos. Não há diferença de afetos entre quem quer que seja, nem entre os conquistadores e os oprimidos que são conquistados. Galeano já descobriu, por essa época, que nada é simples, que tudo é complexo, daí a complexidade das personagens. Cortez, o conquistador do México, tem sonhos e esperanças, mas é também criminoso e assassino cruel. Os índios que lutaram a favor dos espanhóis contra outros povos indígenas são assassinos de seus irmãos, mas também estavam cansados de tanta exploração e humilhação.

Além disso, o autor passa a andar num campo que melhor lhe compete do que a Economia e a História da Economia. Ele passa a se inclinar sobre os sons e as histórias cheias de emoções que lhe são presenteados por uma quase infinita galeria de personagens que o mundo, que é infinito para uma só pessoa poder esgotá-lo, lhe traz.

Toda a literatura de Galeano passa a dizer dos afetos, mas sem se esquecer do crime cometido por quem quer que seja. E qual é o crime a que Galeano se põe a lutar contra? Diminuir a afetação que o mundo permite, ou melhor, que o mundo impõe. Porque para Galeano o mundo não é um presente, o mundo é uma obrigação.

Essa obrigação do mundo é que impõe o caráter pagão da obra de Galeano. Se for uma obrigação o mundo que a mim se apresenta, é uma negação não permitir que o mundo em sua complexidade me afete. Por isso também foi Galeano um pagão americano que lutava contra os dogmas e crenças que se pretendiam universais, pois universais são os homens e as mulheres e as crianças, e sua universalidade é o que permite que tudo no mundo, que também é universal, os inunde de afetos.

Diferente do que disseram seus críticos não foi a utopia, nem a militância, ou mesmo acreditar que as bases econômicas da sociedade são constituídas historicamente e que historicamente não tem cansado de roubar e matar a gente pobre da América e do mundo, que cansou Galeano e que não permitiu que voltasse a revisitar “As veias Abertas da América latina”. O que cansou Galeano e que não permite que seus olhos voltem a ler seu livro mais célebre é participar de uma afetação unilateral que apenas culpa o criminoso, sem exigir-lhe que o ódio se transforme em amor transgressivo.

E todos os livros posteriores de Galeano, depois da publicação de “As veias abertas da América latina”, foram a tentativa de transformar ódio cruento em amor.

Todos aqueles que ingenuamente leram as palavras Galeano e que muito genericamente se chamaram de “a esquerda” não entenderam bem a proposta do autor mais ao sul da America latina. Não é uma tentativa de exclusão de um invasor sem nome e sem rosto que embasa a literatura de Galeano, é antes a capacidade de mobilizar as forças de cada um para superar o processo de exploração através da afetação de pessoa para pessoa. Quer saber mais que afetação é esta e como ela é possível? Leia “As veias abertas da América latina” e leia também todos os outros livros de Galeano


JEF

Jef releu muito, salvo que para reler é preciso ler. Portador de transtornos mentais, atualmente segue seu tratamento com regularidade..
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