desumanizar

a literatura sem essência

JEF

Jef releu muito, salvo que para reler é preciso ler. Portador de transtornos mentais, atualmente segue seu tratamento com regularidade.

A última fronteira metafísica da literatura

Cabe ao leitor perguntar-se: por que ler? que resta na leitura que ainda me faz ler?


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Um verso "belo" e "sublime" pode existir? O "belo" ou o "sublime" como categorias para investigação da alma são hoje objetos possíveis de contemplação? Talvez a pergunta possa ser refeita: num país onde se lê pouco, a leitura é baseada na busca do "belo" e do "sublime"?

Esta primeira pergunta pode ser contraposta com outra: o que é "belo" e o que é "sublime"? e quem delimita os espaços ocupados pelo "belo" e pelo "sublime"? O que é "belo" e "sublime" num país onde a maioria da população recebe entre 1/2 e 3 salários mínimos? o que é "belo" e "sublime" onde quase metade da população com mais de 25 anos não tem mais do que 8 anos de escolarização precária?

E o que estes dados têm, afinal, com o "belo" o "sublime"?

Para se chegar a estas duas categorias depende-se de outra coisa: é necessário contemplá-las. O "belo" e o "sublime" são efêmeros. O que os sustenta é, a princípio, o tempo a que eles nos dispomos a contemplar. Depois é preciso que tais categorias sejam encampadas pelo nosso corpo quando estamos diante de algo que nos agrada. O "belo" e o "sublime" são, portanto, orientados pelo prazer. Toda essa carga de afeto que passa pelo corpo diante de um verso é tudo a que chamamos de "belo" e "sublime".

A última fronteira metafísica da literatura são os afetos que, de forma errônea, tomamos como essência e como transcendentes quando nos deparamos com um texto. Outro movimento ocorre. Este prazer é nosso e jogamos com ele. Jogamos com ele sobre o texto, sobre a leitura. As palavras que tomamos como símbolos primários na associação corriqueira de significados adquirem valor apenas quando damos a elas tais valores e damos ao mundo os valores com os quais queremos jogar um jogo de sedução, de entrega e de prazer. Neste sentido nomear é preencher algo de prazer.

Algumas problematizações:

1 - Estes afetos não existem AB INITIO. Nós os inferimos. Para os inferir é preciso antes contemplá-los. Ora, foi Hannah Arendt quem deu o veredito, de modo geral, dizendo que a contemplação está excluída da condição humana na contemporaneidade. Como então sustentar o prazer na dissolução do tempo e espaço que exige um pensamento desatento, em rede e múltiplo?

2 - As categorias que julgamos ser imutáveis (tais como: amor, amizade, belo, sublime, justiça, etc) são vazias fora de uma relação. Não existem em essência nem no leitor, nem no autor, nem na personagem, nem no texto. Existem na relação que as funções autor, leitor, personagem ,texto assumem quando um verso qualquer apresenta-se.

3 - A noção de transcendência abandonou a literatura. Não são mais os valores que sustentam a leitura. Mas sim os afetos. Mas pode-se questionar: como orientamos nossa leitura se não por um fio sensível e frágil de transcendência que perpassa o mundo?

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Neste ponto a contribuição de Freud à discussão vem a tona. À pergunta: depois da transcendência o que há? Freud responde: existe aquele outro espaço fora do eu. Este outro espaço fora do eu se comunica com outros espaços também fora de qualquer eu possível.

Quando Freud diz que é a infra-estrutura do corpo que sustenta a super-estrutura da psique, nos diz que é uma produção humana que sustenta o nível simbólico mais simples. Este nível simbólico é aquele que usamos na leitura. Qual é essa leitura? a que busca os prazeres do texto. O texto "belo" e "sublime" nós não o contemplamos, nós os sentimos.

Duas perguntas:

1 - A razão tem lugar numa leitura?

2 - Como situar Jorge Luis Borges (que desqualifica toda minha argumentação) no universo da literatura?

Estas são questões, no entanto, que merecem outro tratamento.


JEF

Jef releu muito, salvo que para reler é preciso ler. Portador de transtornos mentais, atualmente segue seu tratamento com regularidade..
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