detalhes da vida

O cotidiano em prosa e fotografia.

Celso Bressan

Eis a questão: Um fotógrafo prosador ou um prosador fotógrafo? Detalhes da Vida ilustradas com minhas próprias fotos ou minhas fotos com legendas da Vida?

O Banco do Parque

Neste conto do ramo fantástico, sentado num banco do parque, Paulo assiste a vida passar de forma célere sem se dar conta no que está acontecendo.


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Nos finais da tarde, Paulo sentava-se cansado no banco do parque. As lutas do dia, os conflitos com os colegas de trabalho que não o entendiam, a esposa que desaparecera levando os dois filhos queridos, os problemas financeiros, o acidente de carro... Como poderia comprar outro se mal podia manter o velho?

Aquele parque era um alívio para ele porque o horário já mostrava a diminuição do burburinho dos carros e das pessoas. Ele gostava muito de crianças, mas havia certas horas que era melhor não ouvir a algazarra que faziam. Ali, meditava a respeito dos seus problemas, como se fossem uma roda-viva a ir e voltar, sempre os mesmos, nenhuma solução à vista. Já vira as folhas tenras que floresciam na Primavera, que migraram para folhas vivas no calor do Verão, que esmaeceram e amarelaram e depois caíram no Inverno. Muitos ciclos como este se passaram e, com eles, os problemas que se repetiam.

Quase sempre, via sentar-se, em outro banco, um senhor talvez nos seus setenta anos vestido com elegância mas sem ostentação. Às vezes, trazia um livro para ler; noutras, distribuía sementes às pombas ou a algum pássaro que ainda não havia se recolhido para a noite; ou, ainda, ficava apenas sentado observando o lento movimento das horas até escurecer, quando então ia embora.

Nenhum dos dois fazia qualquer menção de se aproximar e conversar. Para Paulo, sua vida difícil não precisaria ser compartilhada com ninguém; quem sabe, o outro também não teria lá sua própria dose de problemas? Todos nós a temos; a diferença está na maneira de encará-la e este homem parecia estar muito à vontade com a sua.

Pembroke_2593.jpg Observando a vida passar no melhor lugar do mundo: a primeira fila!

Com o passar do tempo e a curiosidade atiçando, Paulo resolveu falar com ele. O homem o recebeu com tal amabilidade e espontaneidade que, quando Paulo deu-se por si, estava conversando animadamente e até esquecido dos problemas. Foi quase difícil despedirem-se já noite escura.

Os diálogos com o homem tornaram-se constantes e Paulo ficava embevecido ao ouvi-lo falar de tudo um pouco, com a mente sempre aberta, muita segurança e familiaridade do que falava, como se já tivesse vivido todos eles. Quando Paulo falava dos seus muitos problemas, o homem o ouvia em silêncio mesmo que já tivesse sido a décima vez que o assunto se repetisse, ocasionalmente acrescentando algumas palavras de encorajamento depois de tudo ouvir.

Um dia, o homem propôs que caminhassem enquanto conversassem. Quando se deram por conta, estavam defronte a um ferro-velho com coisas quase inimagináveis formando pilhas mais ou menos ordenadas. Num canto, protegido por frágil cerca, Paulo notou seu carro, todo retorcido e já enferrujado pelo tempo.

- Puxa! Escapei por pouco de uma tragédia maior! Vejo, agora, quão grave foi meu acidente! Acho, sem exagero, que sou um bom motorista porque poderia ter morrido!

- De fato! - respondeu o homem.

Nos dias que se seguiram, o homem não apareceu e Paulo ficou a matutar sobre seus problemas, agora somados com a imagem do carro destroçado e enferrujado. Para ele, parecia que o acidente havia sido ontem mas, evidentemente, o estado do carro indicava que havia se passado muito tempo, quem sabe anos. Anos? Isto explicava a mudança das estações nas folhas do parque, mas não explicava porque sua esposa havia sumido sem dar notícias. Tudo isto era muito intrigante e apenas deixava-o confuso. Mil e uma idéias passavam-lhe pela cabeça aumentando sua confusão mental mas precisava continuar forte para tentar resolver os problemas que pareciam não ter fim.

Quando um dia o homem voltou, pediu desculpas por estar muito atarefado e tê-lo deixado sozinho nos finais de tarde. As conversas retomaram, mas o tom das mesmas era, agora, as surpresas que a vida nos coloca à frente e como precisamos estar sempre alertas e com a mente serena para as mudanças da vida, seja quais forem. Parecia que o homem estava querendo lhe dizer algo mas teria receio ou estaria usando de muita diplomacia para tanto. Era como se ele o estivesse preparando para algo que viria a acontecer ou que viria a entender.

Gradualmente, notou que já não pensava mais tanto nos problemas e que estes já não mais lhe pareciam importantes. Era como se estivesse se libertando de amarras que lhe pesavam o caminhar da vida porque já se sentia mais leve e as cores do parque já lhe eram cada vez mais vivas.

Num dos seus passeios agora regulares, depararam-se com um cemitério. Paulo olhou de longe as lápides e, com tranqüilidade, disse para o homem:

- Meu nome está aí em algum lugar, não está?

- Sim, está - disse o homem. E foi carinhosamente ali colocado pela sua esposa e seus filhos. Não quer ver onde?

- Não, acho que não - disse Paulo após pensar um pouco. Não sei exatamente porque, mas sempre preferi o parque e suas mudanças das estações. E, enquanto eu lá estive, você também esteve. Você é o meu anjo da guarda, não é?

- Chame-me da maneira que achar melhor, mas eu prefiro dizer que estou aqui para olhar por você.

O homem fez uma pausa, olhou com serenidade para Paulo e, apontando para o caminho à frente, disse:

- Já é hora de irmos pois muitas e proveitosas jornadas nos esperam.

E concluiu, sorrindo amigavelmente:

- Além do mais, existem muitos outros que ainda precisam se sentar naquele banco do parque!...


Celso Bressan

Eis a questão: Um fotógrafo prosador ou um prosador fotógrafo? Detalhes da Vida ilustradas com minhas próprias fotos ou minhas fotos com legendas da Vida?.
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