detalhes da vida

O cotidiano em prosa e fotografia.

Celso Bressan

Eis a questão: Um fotógrafo prosador ou um prosador fotógrafo? Detalhes da Vida ilustradas com minhas próprias fotos ou minhas fotos com legendas da Vida?

Voynich

Ingredientes simples para um mistério ainda por resolver: um velho prestes a morrer, um livro e uma abadia à beira-mar.


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Seu corpo, já velho, não possuía mais a energia necessária para continuar respirando e bombeando os fluidos vitais. Todos os membros ativos da Família, presentes no amplo salão, sabiam disto e estavam ali para o desenlace. Ninguém choraria copiosamente, ninguém contaria piadas acerca da sua vida, ou ainda, ninguém esperaria que lanches grátis fossem servidos. Eles ali estavam ali trazendo suas vibrações para ajudá-lo na transição de uma maneira suave. As suas expressões, graves mas serenas, traziam uma brisa reconfortante tanto necessária nestas ocasiões.

No Planeta, nos dias que antecediam a uma morte, um membro da Família deveria ir ao Departamento da Vida e, usando sua vibração pessoal como identificação, registraria o acontecimento breve e escolheria o Procedimento de Desmaterialização. Quase por unanimidade, o Raio Cósmico seria a preferência. Um espetáculo maravilhoso e único, o caixão funerário seria "embebido" com as vibrações da Família e então jogado numa rota de colisão com a Segunda Lua, inóspita e desabitada por sua atmosfera tóxica, por um avião de carreira de alta altitude. A glória deste procedimento seria ver o longo traço de luz com as cores da Família atingir a lua, um evento para ser lembrado para sempre por aqueles que tinham a felicidade de vê-lo. Entretanto, isto custaria uma pesada penalidade, que seria a despromoção de um degrau por cada membro da Família na Lista de Nascimentos, o qual significaria que a Família ficaria impedida de ter um novo herdeiro por muitos anos.

Tudo preparado, com a Família a seu lado, o velho homem expirou. Ele foi cuidadosamente arrumado no caixão e, seguindo uma antiga tradição, era permitido colocar um objeto de uso pessoal junto ao corpo e a escolha foi seu diário. Por último, todos os membros da Família juntaram suas mãos para imprimir suas marcas no caixão e selá-lo.

O próximo ciclo da Segunda Lua mostraria o Raio Cósmico da Família.

Exceto que isto não aconteceu...

Contrariamente a todas expectativas, o céu estava encoberto e, exatamente no momento em que o caixão estava sendo ejetado pelo avião, um dos minúsculos jatos que impulsionariam o caixão na direção correta engasgou-se por uma fração de tempo suficiente para desviar o caixão em alguns poucos graus do seu curso calculado, para dentro do vasto espaço para uma viagem sem fim.

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Nos seus raros momentos de descontração, os monges de uma abadia perto do mar estavam caminhando na praia quando eles encontraram um objeto oval extremamente polido rolando para lá e para cá ao sabor das ondas. Eles jamais haviam visto tal coisa antes mas tinham certeza de que o abade saberia o que fazer com ele.

O objeto foi colocado sobre a mesa na salão de jantar e, todos os monges em silêncio, observavam o abade. Ele rodeou o objeto, tocando levemente toda sua superfície. Num certo ponto, ele parou, sentiu aquela parte repetidas vezes, fechou os olhos e sentiu novamente. Ele então chamou o monge cego, dirigindo suas mãos também para aquela parte. Ambos operaram ali, movendo suas mãos vagarosamente até que se ouviu um ruído de ar saindo rapidamente e o objeto se abriu em dois. Os monges recuaram com um sussurro de surpresa. Dentro, eles viram uma forma humanóide com uma pele ressequida, quase um macaco sem pelos. A forma estava contorcida e envolta por uma toalha branca. Um livro caiu no chão.

O abade inspecionou a forma com cuidado e, depois, pegou o livro. As páginas escuras, mostrando um texto quase ilegível, eram feitas de um material brilhante, liso e sedoso que ele não conhecia. Ele tocou uma das páginas com os olhos fechados e, depois, entregou o livro para o monge cego.

- O irmão seria capaz de lê-lo? O monge cego passou sua mão repetidamente sobre uma página e respondeu:

- Sim, mas levará tempo porque tem um texto e figuras que jamais vi e não entendo.

- Faça o melhor que puder, irmão - disse o abade. Você poderá lê-lo e transmitir o que entender para seus irmãos transcreverem.

O abade rearranjou o humanóide, juntou as duas partes abertas e o objeto oval voltou a se selar como se não tivesse sido aberto antes.

- Irmãos, vimos hoje coisas que jamais vimos antes porque são estranhas e não as entendemos. Talvez, após a tradução do livro, entendamos melhor o que temos diante de nós, talvez não. Esta poderá levar anos para se completar e alguns de nós talvez não estejam mais aqui para ver o trabalho feito. Portanto, peço a vocês que mantenham a boca fechada, seus olhos fechados e e seus ouvidos insensíveis a tudo o que está se passando entre nós hoje. Esta criatura parece não ser humana, embora capaz de escrever. Ainda assim, não é um dos nossos e não pode ser enterrada com nós somos. Mas, podemos dar-lhe um pouco de dignidade e colocá-la com cuidado atrás das escadas na nossa cave, pelo menos enquanto este monastério existir.

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A tradução levou 9 anos para se completar com o monge cego morrendo de exaustão pouco depois. O livro original foi guardado no mesmo lugar do objeto oval e a cópia foi colocada entre outros livros pouco lidos da biblioteca.

Muitos anos se passaram vendo o monastério lentamente ruir até que finalmente ele foi abandonado. Algumas das suas posses foram doadas para os povoados ao redor enquanto seus livros viajaram pelos séculos por vários países, trocando de mãos ao longo do caminho.

Em 1912, um colecionador de livros raros chamado Wilfrid Voynich comprou uma coleção que incluía um volume escrito numa linguagem misteriosa envolvendo desenhos ainda mais estranhos. Este livro, chamado desde então de O Manuscrito de Voynich, foi e ainda está sendo objeto de estudo por muitos acadêmicos e cientistas os quais não conseguiram decifrar e entender seu conteúdo.

A verdadeira origem do manuscrito está ainda cercada por muitas dúvidas e sua tradução somente acontecerá quando uma folha escura e lisa for encontrada entre as dobras do tecido branco em um objeto oval bem escondido nas ruínas de uma abadia perto do oceano.

Para mais informações sobre o Manuscrito Voynich, consulte sua página oficial.


Celso Bressan

Eis a questão: Um fotógrafo prosador ou um prosador fotógrafo? Detalhes da Vida ilustradas com minhas próprias fotos ou minhas fotos com legendas da Vida?.
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