devaneios poéticos e outras artes

Deixe-se embriagar pela dose diária de lirismo e desvarios literários.

Ana Karla Farias

O padrão feminino que a grande mídia impõe à mulher

A grande mídia trabalha com representações e no caso das mulheres, ela vem realizando um verdadeiro desserviço no tocante à preservação da dignidade da mulher enquanto pessoa humana, enquanto sujeito de direitos, livre e emancipado. Afora, a veiculação da revista semanal Istoé, que por meio de termos notoriamente alicerçados no sexismo, reforçou o estereótipo de que a mulher protagonista de sua vida, que ocupa cargos políticos, de direção e atua no espaço público, é descontrolada, histérica e louca; em pouco intervalo de tempo, foi a vez da revista Veja estampar em suas páginas, o modelo de mulher ideal que os meios de comunicação descomprometidos com a isenção e regras deontológicas do jornalismo, querem difundir.


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A grande mídia trabalha com representações e no caso das mulheres, ela vem realizando um verdadeiro desserviço no tocante à preservação da dignidade da mulher enquanto pessoa humana, enquanto sujeito de direitos, livre e emancipado. Afora, a veiculação da revista semanal Istoé, que por meio de termos notoriamente alicerçados no sexismo, reforçou o estereótipo de que a mulher protagonista de sua vida, que ocupa cargos políticos, de direção e atua no espaço público, é descontrolada, histérica e louca; em pouco intervalo de tempo, foi a vez da revista Veja estampar em suas páginas, o modelo de mulher ideal que os meios de comunicação descomprometidos com a isenção e regras deontológicas do jornalismo, querem difundir. O veículo publicou uma reportagem sobre Marcela Temer, possível futura primeira-dama do país, que até há pouco, era conhecida sob o rótulo: a esposa de Michel Temer. Com o título-"Bela, recatada e do lar", o jornalismo explicitamente parcial e que perpetua o preconceito de gênero, este tão arraigado e naturalizado em nossa cultura, mais uma vez veio à tona e mereceu ampla repercussão nas redes sociais dos brasileiros.

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Quanto à publicação da Istoé, ao longo da supracitada reportagem, é verificado um vocabulário que, descaradamente, sem qualquer preocupação em deixar nas entrelinhas, incita uma violência simbólica à chefe do Poder Executivo, bem como à natureza feminina. Haja vista que toda vez que um meio de comunicação de massa apropriando-se do seu poder simbólico e manipulador do grande público, receptor das mensagens midiáticas, utiliza-se de textos e imagens para depreciar um sujeito histórico e culturalmente oprimido, ele afeta todos os outros que também compartilham da condição de opressão. O veículo recorreu ao uso de fontes apócrifas para sustentar o argumento de que a presidente da República, nos últimos meses de crise política, teria perdido o equilíbrio emocional e agido com destemperamento: "Segundo relatos, a mandatária está irascível, fora de si e mais agressiva do que nunca." Não se trata, no referido episódio, de achincalhar uma mulher isoladamente, mas de simbolicamente reforçar a subordinação feminina a uma sociedade patriarcal e falocêntrica, que diuturnamente exalta seu ódio e intolerância à condição da mulher, em diferentes instâncias. O machismo corporifica-se na esfera política brasileira quando se ataca a força política da mulher, que exerce cargos de poder, outrora, reservados somente a homens e impensáveis para população feminina; o machismo manifesta-se na violência doméstica contra mulher, física e psicológica; nas relações de trabalho em que mesmo ocupando as mesmas funções que o homem, a mulher ainda aufere uma remuneração inferior; no âmbito doméstico, quando o encargo de cuidar da casa e da família ainda é tratado como responsabilidade exclusiva da mulher, mesmo que ela exerça um trabalho externo; o machismo está presente e mostra sua face sórdida, toda vez que a uma única mulher que seja, é negado o direito de que ela se reconheça enquanto sujeito.

Os veículos de comunicação tradicionais, por meio da veiculação de temáticas e de discursos que atrelam o modelo de mulher ideal ao tripé: mãe – esposa-dona de casa, cristaliza e reproduz um estereótipo de mulher sempre voltado para a domesticidade, a subjetividade, a maternidade.

Ao homem destina-se o espaço público, o mundo externo das ruas, do trabalho, da racionalidade, à mulher reserva-se o mundo do recato, circunscrito ao lar, à família, à maternidade, à beleza e sedução. Incentiva-se um movimento para dentro, via de regra. Não se condena o fato de que a mulher opte pelo perfil de cuidadora, voltada para servir o outro, cuidar da casa e da família. O feminismo não apresenta qualquer objeção quanto a isso, mas desde que seja uma escolha voluntária da mulher e não um papel social que lhe foi imposto goela abaixo. O que é inaceitável é que uma sociedade machista e veículos de comunicação não preocupados em cumprir sua finalidade social de bem informar o cidadão, digam às mulheres, quem e o que elas devem e podem ser, como se tivessem de seguir um destino predeterminado para suas próprias vidas. A mulher é livre para ser quem e ocupar o espaço que ela bem entender.

Veículo de jornalismo informativo ou revista dita feminina?

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A publicação da Veja muito assemelhou-se e faz o leitor e leitoras remeterem-se às notícias veiculadas pela dita imprensa feminina no século XIX, quando emergiu no Brasil. Como se sabe, as revistas femininas são reflexos de um cenário sócio-cultural arraigado no patriarcalismo, estrutura baseada na hierarquização do homem sobre a mulher.

O primeiro periódico feminino de que se tem notícia foi intitulado Lady's Mercury, surgido na Inglaterra em 1693. O veículo trazia em suas páginas, os assuntos tradicionais vinculados ao mundo doméstico como casa, moda, culinária e o então recente consultório sentimental. No Brasil, no século XIX, nasceu o primeiro periódico feminino, chamado Espelho Diamantino, abordando temáticas como literatura, moda e culinária.

Entre as temáticas constantes nos periódicos femininos e percebidos na publicação da matéria da Veja acerca de Marcela Temer, figura-se a beleza como um dos assuntos centrais na reprodução de estereótipos tradicionalmente associados à imagem da mulher. A supervalorização da beleza passou a ser foco da grande mídia desde que as mulheres abandonaram a esfera privada e começaram a atuar na esfera pública, tornando-se uma consumidora em potencial dos produtos de beleza ofertados pelo setor publicitário dos grandes veículos de comunicação. Por isso, que se vende a ideia de que a mulher tem a obrigação de ser bela para ser feliz, para ser amada e para se sentir valorizada. É uma ditadura da beleza financiada pelo capitalismo, pelas indústrias dos cosméticos e do emagrecimento que é usada contra as mulheres.

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Apesar do discurso midiático que se constrói a partir de um jogo de influências entre as imagens que os veículos tradicionais pretendem criar do público e do público real, é importante que a mulher se reconheça enquanto sujeito de direitos a quem cabe a autonomia sobre suas decisões, suas vontades e sobre o seu corpo. Pois, de suas vidas, ao menos de suas vidas, que não pertencem a ninguém, elas têm o direito de ser protagonistas.


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