devaneios poéticos e outras artes

Deixe-se embriagar pela dose diária de lirismo e desvarios literários.

Ana Karla Farias

As personagens femininas na poética de Iracema Macedo

Nascida em Natal, capital do estado do Rio Grande do Norte, a poetisa e filósofa Iracema Macedo dá voz em seus escritos, a uma pluralidade de personagens que enxergam o mundo sob um olhar e sensibilidade femininos. Nos seus versos, confundem-se as histórias de Luísas, Dandaras, Lucilas, Eurídices, Marisas, Dianas, dentre muitas outras mulheres que figuram como personagens e dão nomes aos poemas de Iracema.

foto Iracema.jpg 

Outro dia, reencontrei uma amiga casualmente e pusemo-nos, ali mesmo, na rua, a conversar sobre a vida, amores e literatura, que no meu crivo, são temas que compartilham da mesma essência - a arte. Cada um deles são manifestações artísticas peculiares, mas ainda assim, são arte de viver, amar e escrever. Pois bem, depois das divagações e retomando ao assunto, falávamos sobre o quanto alguns escritos tinham o poder de nos desnudar a alma e caber tão dentro de nós. Parecia até que foram tecidos à nossa medida, na forma exata dos nossos corpos, limites e espírito. Foi nesse contexto, que mencionei a poética de uma escritora potiguar, Iracema Macedo.                     

Nascida em Natal, capital do estado do Rio Grande do Norte, a poetisa e filósofa Iracema Macedo dá voz em seus escritos, a uma pluralidade de personagens que enxergam o mundo sob um olhar e sensibilidade femininos. Nos seus versos, confundem-se as histórias de Luísas, Dandaras, Lucilas, Eurídices, Marisas, Dianas, dentre muitas outras mulheres que figuram como personagens e dão nomes aos poemas de Iracema.

Diferente das musas que habitavam o imaginário dos escritores pertencentes à escola literária do Romantismo, as mulheres evidenciadas na poética da escritora potiguar, são de carne e osso, são contemporâneas, são feitas de humanidade. Não são as virgens e puritanas intocadas, as santas do altar, são cândidas sim, mas são reais. Mulheres que ousam, mulheres que se entregam, mulheres que gozam, que tomam iniciativa, mulheres livres para as quais nenhum sentimento humano lhes é desconhecido.  São mulheres tão comuns às leitoras, que mais parecem ter transcendido a fronteira da ficção para a realidade. Quase podemos tocá-las de tanto que tais personagens mexem com nosso íntimo e psique, aproximando-se de nossas identidades.

Pertencentes às diversas classes sociais, padrões físicos e ideologias de vida. Elas vivenciam situações díspares como paixão, dor, morte, loucura, desespero e solidão às quais não estamos imunes quando nos aventuramos a viver. 

Lance de dardos, primeiro trabalho individual da escritora, traz uma reunião de poemas, onde são traduzidas experiências intrínsecas aos dilemas cotidianos, prazeres e dissabores.  São poemas centrados em aspectos corporais, eróticos e amorosos que não se distanciam jamais de seu objeto principal, qual seja, a vida.

 

Biografia

Iracema Maria de Macedo Gonçalves da Silva é poeta e professora de Filosofia. Cursou licenciatura em Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Em 1991, em parceria com os poetas Eli Celso e André Vesne, teve seus primeiros poemas publicados na coletânea Vale Feliz.

Em 1998, publicou poemas na coletânea Ceia das Cinzas, junto a Eli Celso e André Vesne. Em 2000, lançou seu primeiro livro individual, Lance de dardos, que reúne poemas inéditos e poemas publicados anteriormente desde 1991.

Em 2004, publicou o livro intitulado Invenção de Eurídice. Depois, foi a vez de Poemas Inéditos e Outros Escolhidos, datado de 2010. Neste, as figuras femininas continuam a povoar a poética de Iracema. A obra apresenta uma reunião de mulheres que vão desde a mitológica esposa de Orfeu no título até a real e trágica Lota de Macedo Soares (1910-1967), conhecida como arquiteta-paisagista idealizadora do Parque do Flamengo, no Rio, e como companheira da poeta americana Elizabeth Bishop.

Com previsão de lançamento para 2016, a nova obra de Iracema, chama-se Cidade Submersa. O livro reúne poemas escritos entre 2010 e 2015.

Marisa

“apedrejo vidraças, sou da pichação rompo os tratos, os  contratos

destruo calendários, lojas da marisa plantações de alfaces, pepinos, hortas orgânicas falsas

vadia sou eu, que faço hot dog pra moçada moradora de prédio ocupado, manicure cabeleireira e ladra nas horas vagas sonhando todo dia em atacar o shopping center eu e a máquina de lavar, a pia, o pano de chão os filhos, a solidão e aquele amante pilantra que visito na prisão, momentinho no parlatório, fila para entrada, dez minutos de love e mais nada

eu sou a própria manifestação, a pombagira total boderline, bipolar,  tudo uma farsa que papanicolau que nada e  essa história de cândida ?

pureza? meu lance mesmo é o cigarro e a cachaça”.

 


version 8/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Ana Karla Farias