devaneios poéticos e outras artes

Deixe-se embriagar pela dose diária de lirismo e desvarios literários.

Ana Karla Farias

As relações humanas em As invasões Bárbaras

As invasões Bárbaras é uma obra atual porque retrata aspectos do subjetivismo humano e das relações sociais, tão em voga no cenário em que vivemos, no qual o amor ao dinheiro, muitas vezes, suplanta o que temos de mais humano e se torna o propósito maior de nossos esforços e existência.


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As Invasões bárbaras trata-se de um filme canadense, de 2003, e dirigido pelo cineasta Denys Arcand, que possui em seu currículo filmográfico obras importantes como O declínio do Império Americano, 1986, O Jesus de Montreal, 1989, Amor e Restos Humanos, 1993, A Era da Inocência, 2007, entre outros.

O drama, que se passa no Canadá, refere-se aos últimos dias de vida de um professor universitário chamado Rémy, que enfrenta uma doença terminal e resolve aderir à eutanásia como modo de abreviar seu sofrimento. Além da temática da eutanásia, o filme aborda questões polêmicas como o uso de drogas para amenizar as dores decorrentes de um câncer já em estágio avançado e sem qualquer perspectiva de cura.

O cerne do filme reside no propósito de mostrar o quão as relações humanas podem estar desgastadas e subjugadas pelo pragmatismo do cotidiano, pela ditadura do ter, pela preocupação em angariar dinheiro, em ter sucesso profissional. O que resulta, muitas vezes, no ato de relegar as relações de criatura para criatura, a último plano.

A narrativa

O esquecimento da essência do ser é evidenciado quando se percebe que Rémy possui relações familiares decompostas. Seu casamento chegara ao fim, pelo fato do personagem central já pouco se importar com a relação de companheirismo, entrega e respeito, que devem compor os deveres conjugais. A ex esposa de Rémy distanciou-se dele em face das várias relações extraconjugais que o mesmo tivera, no decorrer do casamento, e do desgaste emocional que tais traições acarretaram à relação de cumplicidade do casal.

A relação paterno-filial que Rémy mantinha com os filhos também era muito superficial e distanciada. Quanto à sua filha que, por ter espírito aventureiro, vivia dedicada à viagens, ele só sabia notícias, de quando em quando. E só passou, de fato, a estreitar o contato com ela após a descoberta da doença terminal, que o tornara mais sensibilizado e, por mais paradoxo que seja, a doença o deixara mais vivo, mais humano, com um desejo de aproveitar intensamente seus últimos dias, reaproximando-se de sua família. O outro filho, Sébastien, era um trabalhador do mercado de capitais, em Londres. Com seu jeito frio e pragmático, ele era ideologicamente o oposto da geração de seu pai, esta politicamente mais atuante e envolvida com o bem-estar coletivo, enquanto Sébastian só se importava mesmo com questões concernentes à sua vida particular.

Uma passagem do filme que também caracteriza o estranhamento e distanciamento do ser humano em suas relações sociais, é verificada quando Rémy, em seu último dia de aula, comunica à turma que está se afastando de sua atividade profissional em face de estar acometido de uma doença terminal. Os alunos recebem a notícia com um ar de indiferença e o silêncio perturbador que se apodera da sala de aula só é rompido pela indagação de uma aluna, referente à data de um trabalho acadêmico. Decepcionado e melancólico, Rémy percebe o quanto o coração do ser humano, que não se consterna e se surpreende com quase nada, está seco. O quanto as relações humanas, travadas nos âmbitos do trabalho, da amizade e da família, estão corroídas pelo egocentrismo e individualismo. Nos dizeres do nosso poeta itabirano, Carlos Drummond de Andrade, “nada, esperas de teus amigos e as mãos tecem apenas o rude trabalho”.

Apesar de ter construído uma relação pouco afetiva com seu pai, por causa da falta de convívio, Sébastien fica consternado com a situação delicada em que se encontrava Rémy, internado em um hospital público canadense, repleto de problemas como superlotação e falta de equipamentos. Então, resolve, após ouvir os conselhos de sua mãe Louise, ajudar o pai. Já que a cura era inviável, Sébastien dedica-se a oportunizar ao pai um restante de vida mais confortável, amenizando seu padecer. Momento em que telefona para os amigos de Rémy a fim de que eles fossem visitá-lo, chega ao ponto de remunerar alguns de seus alunos para que eles simulassem a situação de que estavam preocupados com o estado de saúde de Rémy.

Sébastien, ademais, suborna os diretores do hospital público para que eles o autorizem a construir uma ala na instituição, devidamente equipada e digna para abrigar o seu pai. A mensagem que o cineasta transmite, em tais passagens do filme, reside no fato de que o dinheiro, muitas vezes, pode ser preponderante na solução de alguns entraves e pode comprar, infelizmente, as pessoas.

Na tentativa ainda de aliviar as dores que consumiam gradativamente o pai e atendendo a um desejo dele, Sébastian recorre à ajuda de uma amiga, usuária de heroína, que viabiliza a morte daquele por meio de uma overdose induzida. Além de esforçar-se em tornar o dia da morte do pai, um momento a ser lembrado por este, que desfalece junto ao filho e amigos dos tempos da faculdade, cuja amizade fora realmente verdadeira em meio a tantas inverdades e relações construídas, tendo como alicerce a efemeridade da mentira.

As relações humanas não estão à venda

As invasões Bárbaras é uma obra atual porque retrata aspectos do subjetivismo humano e das relações sociais, tão em voga no cenário em que vivemos, no qual o amor ao dinheiro, muitas vezes, suplanta o que temos de mais humano e se torna o propósito maior de nossos esforços e existência. Paradoxalmente, Rémy descobre o valor das relações humanas, construídas no âmbito familiar e da amizade, quando está acometido de uma moléstia grave, que lhe trará como sentença, a privação definitiva da vida, da oportunidade de vivenciar uma relação mais próxima com os seus. E esse é o grande ensinamento que o drama nos transmite, de que o tempo corre célere, impiedoso e que por isso, devemos pautar nossos dias na construção de uma relação mais profunda com aqueles que nos cerca, e que, muitas das vezes, nem damos conta de que eles sempre estiveram lá.

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Não por acaso, a trilha sonora que embala o desfecho do filme é L’Amitie, interpretada por Françoise Herdy, em 1965, em Paris. A canção enaltece a importância da amizade, capaz de reabilitar-nos de nossas chagas. “Muitos de meus amigos vieram das nuvens, fizeram a estação da amizade sincera, a mais bela das quatro estações. Como não sabemos o que a vida nos dá, se me resta um amigo que realmente me compreenda, me esquecerei das lágrimas e das penas”.


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