devaneios poéticos e outras artes

Deixe-se embriagar pela dose diária de lirismo e desvarios literários.

Ana Karla Farias

Eles foram felizes para sempre, longe um do outro

Será que não está na hora de subverter a ideia preconcebida do amor romântico, no quesito de que somente se atribuem as responsabilidades de zelar e dignificar o sentimento, às mulheres, que tudo devem suportar em nome do amor, até o “des-amor”? Quando os sinais dão indícios de que o amor se tornou um nó que sufoca e oprime, e não mais um laço que adorna, vale a pena forçar, só para que o conto de fada não acabe?


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Vivemos em uma sociedade marcada pela delimitação de espaços entre os gêneros feminino e masculino. A divisão do que é típico para mulheres e homens, dá-se desde a infância. Tanto que se rotulam, a título de exemplo, quais brincadeiras são adequadas para meninas e meninos. De praxe, para as meninas destinam-se as brincadeiras que despertam e exercitam os sentimentos de subjetividade e sentimentalismo. É o caso de atividades lúdicas voltadas para as tarefas domésticas e maternidade, como brincar de casinha, cozinhar e brincar de boneca. Quase que automaticamente, desprovidos, muitas vezes, de uma reflexão crítica, pais e mães ensinam às suas filhas, ainda pequenas, a serem futuras donas de casa e mães, por meio das brincadeiras que representam e perpetuam a delimitação de papéis sociais tradicionais, entre os gêneros. Já para os meninos são direcionadas atividades lúdicas que enfatizam o raciocínio, a força física e a dominação.

Reforça-se, assim, uma separação de espaços a serem convencionalmente ocupados por mulheres e homens. Aos homens, o mundo externo das ruas, do trabalho, da racionalidade; às mulheres: o mundo da subjetividade, da maternidade, do sentimentalismo romântico, da domesticidade. Continua-se, por meio de uma educação sexista, a reproduzir pretensiosa ou subliminarmente, a mentalidade alicerçada no patriarcado de que: aos homens, tudo se pode. Já às mulheres, não compete extrapolar a redoma de vidro. No fim das contas, como apregoa a filósofa Márcia Tiburi, estamos imersos em uma sociedade onde a democracia é somente formal, já que não é conferida à mulher, nem a liberdade nem a responsabilidade por sua liberdade. Quando doutrinamos mulheres e homens, reproduzindo uma delimitação de espaços e de hierarquização de poder do masculino sobre o feminino, estamos traçando roteiros pré-determinados e dizendo: você pode isso por sua condição naturalmente dominadora e, em contrapartida, você não pode isso em face de sua condição oprimida.

Quando o amor romântico é usado contra as mulheres

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No âmbito amoroso, a separação de territórios também não é diferente da lógica da submissão da mulher ao homem. Desde os contos de fada, perpassando pelo cinema comercial, pela literatura e música, há uma tendência de se cristalizar o amor ideal como sendo o amor romântico, o “amor que rompe fronteiras”, onde quase sempre, a mulher é a responsável exclusiva por sacrificar-se, anular-se enquanto sujeito, em nome do zelo e da sobrevivência desse amor. Como se o homem fosse um ser inimputável pelas falhas provenientes das relações afetivas ou fosse um sujeito incapaz, não podendo ser culpabilizado pelos deveres das relações amorosas.

Somos doutrinadas a acreditar no amor romântico, o amor que resiste às intempéries, o amor que tem de ser eterno. Até aí, acreditar ou não, depende da subjetividade, motivações e crença de cada mulher. Mas, quando a ideia do amor romântico é usada contra nós? Quando o mundo nos força a nos enxergar sempre como metades? Nunca inteiras e completas! Quando somos pressionadas socialmente a prosseguir num amor tóxico, destrutivo, só porque interiorizamos a romantização do amor? Quando tentam nos convencer de que somos as únicas responsáveis por eternizar um amor em uma relação, que pela etimologia da palavra, deve ter, pelo menos, dois agentes?

O patriarcado está arraigado em muitos âmbitos de nossas vidas, seja nas relações sociais, seja nas relações laborais, familiares, e sim, nas relações afetivas. Recentemente, acompanhamos por meio dos veículos de comunicação, a notícia sobre a violência doméstica sofrida pela ex-modelo e atriz brasileira, Luíza Brunet, perpetrada por seu marido, ou seja, a agressão eclodiu no seio familiar, onde se deveria esperar proteção. No âmbito de sua própria casa, onde se deveria estar psíquica e fisicamente resguardada. Em razão do critério de noticiabilidade, envolvendo uma personalidade e pela gravidade do delito, o caso fora deveras repercutido, na imprensa. Com boa parte das brasileiras, mulheres comuns do povo, a realidade no tocante à violência doméstica e familiar, não difere muito. Segundo dados fornecidos pela Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR), em 2015, no país, apesar de ser um crime de grave violação dos direitos humanos, 38,72% das mulheres em situação de violência sofrem agressões diariamente, sendo um total de 33, 2% desses crimes, cometidos por parceiros ou ex-parceiros das mulheres agredidas. Dados alarmantes somente no que tange à violência doméstica perpetrada contra a integridade física das vítimas, sem contabilizar os inúmeros casos de violência psíquica e moral. Por trás de tais estatísticas, há mulheres que sofreram e sofrem em decorrência de um relacionamento abusivo, estruturado na relação de dominação do masculino sobre o feminino e objetificação e desumanização das mulheres.

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Será que não está na hora de subverter a ideia preconcebida do amor romântico, no quesito de que somente se atribuem as responsabilidades de zelar e dignificar o sentimento, às mulheres, que tudo devem suportar em nome do amor, até o “des-amor”? Quando os sinais dão indícios de que o amor se tornou um nó que sufoca e oprime, e não mais um laço que adorna, vale a pena forçar, só para que o conto de fada não acabe? Por que caso acabe, deixa de ter um happy end? Impreterivelmente e, sobretudo, quando o mocinho da trama da vida real, essa que acontece no cotidiano, longe dos holofotes, vira o vilão da estória, cabe somente a nós, enquanto mulheres protagonistas de nossas vidas, determinar qual o melhor desfecho para a narrativa. Pois, é no mínimo contraditório, quando o amor ocupa, contracena e cabe no mesmo espaço que a dor e esse cenário, na verdade, se trata da nossa morada interna. A nossa casa.


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