devaneios poéticos e outras artes

Deixe-se embriagar pela dose diária de lirismo e desvarios literários.

Ana Karla Farias

Esta solidão me entendia

É cada vez mais comum, ao frequentarmos restaurantes, hotéis, bares, buscarmos uma rede Wi-Fi. Não nos basta vivenciar o momento presente, temos de exibi-lo aos outros. Quase sempre compartilhamos e mostramos somente aspectos felizes de nossas vidas. A felicidade surge como uma ordem. A felicidade somente! Mas, o que ocorre com todo o resto de nossas experiências diuturnas que não estão expostas no ciberespaço? O todo e o resto de nossas vidas reais, cruas, humanas? Talvez, o espaço virtual para a comunicação disposto pelos meios tecnológicos seja uma forma de nos resguardar ou evitar a solidão de nossas entranhas, das profundezas de nós mesmos. Quiçá ainda nos falte compreensão para lidar com o fato de que estar só é um estado de espírito do qual não podemos fugir, porque uma hora teremos de enfrentá-lo. Se nos versos de Clarice Lispector, ela prenuncia que o adulto é um ser lúgubre e solitário, então, não podemos nos esconder, por muito tempo, de nossa essência, do inevitável.


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É bem verdade que o avanço dos meios de comunicação provocou novas formas de interação e novos tipos de relacionamentos sociais. A comunicação passou a ser dissociada do ambiente físico, possibilitando uma troca que exorbita da convencional interação face a face entre indivíduos. Estes não mais precisam compartilhar o mesmo ambiente espaço-temporal para que a comunicação se torne possível. É nesse contexto em que Thompson, em seus estudos sobre a influência da mídia na sociedade moderna, propõe o limiar de uma estrutura conceitual para a análise das formas de ação e interação criadas pelos meios de comunicação. O sociólogo define três tipos de situação interativa: interação face a face, interação mediada e quase interação mediada.

As novas tecnologias criaram uma ambiência na qual estamos quase sempre conectados, o que nos imprime a sensação ilusória de que estamos acompanhados, de que estamos vigiados, de que não estamos sozinhos. Mas, repito, é só um sentimento fantasioso. Conexão é um laço frágil entre os interlocutores, que facilmente se perde, assim como as relações mediadas por um meio tecnológico estão suscetíveis a serem deletadas em apenas um clique.

É cada vez mais comum, ao frequentarmos restaurantes, hotéis, bares, buscarmos uma rede Wi-Fi. Não nos basta vivenciar o momento presente, temos de exibi-lo aos outros. Quase sempre compartilhamos e mostramos somente aspectos felizes de nossas vidas. A felicidade surge como uma ordem. A felicidade somente! Mas, o que ocorre com todo o resto de nossas experiências diuturnas que não estão expostas no ciberespaço? O todo e o resto de nossas vidas reais, cruas, humanas? Talvez, o espaço virtual para a comunicação disposto pelos meios tecnológicos seja uma forma de nos resguardar ou evitar a solidão de nossas entranhas, das profundezas de nós mesmos. Quiçá ainda nos falte compreensão para lidar com o fato de que estar só é um estado de espírito do qual não podemos fugir, porque uma hora teremos de enfrentá-lo. Se nos versos de Clarice Lispector, ela prenuncia que o adulto é um ser lúgubre e solitário, então, não podemos nos esconder, por muito tempo, de nossa essência, do inevitável.

Se de praxe, já dedicamos pouco tempo a meditações, o encontro de nós com nós mesmos, diante do surgimento das novas tecnologias de comunicação, fica cada vez mais tardio. Encontro esse que para acontecer é preciso que estejamos a sós, é imprescindível que eduquemos o olhar e o sentir para o entendimento de que a ausência necessariamente não significa falta e que a solidão nos enriquece. Para que lapidemos algumas pedras, imperativo se faz que estejamos sozinhos, que lidemos com as madrugadas insones e solitárias que se estendem depois da noite:

“Quero ficar só. Gosto muito das pessoas, mas essa necessidade voraz que às vezes me vem de me libertar de todos. Enriqueço na solidão: fico inteligente, graciosa e não esta feia ressentida que me olha do fundo do espelho. Ouço duzentas e noventa e nove vezes o mesmo disco, lembro poesias, dou piruetas, sonho, invento, abro todos os portões e quando vejo a alegria está instalada em mim”. (Lígia Fagundes Telles).

Não faço aqui apologia de que devamos nos encerrar em nós mesmos feito ostras, feito um objeto imóvel, evitando o lirismo do contato humano. São as experiências boas e más que travamos ao longo de nossas vidas, responsáveis por parte de nosso repertório cultural e humanístico. Tão enriquecedor quanto estar só é o somatório proveniente das relações sociais e humanas. Tenho dedicado longas horas do meu dia, trancafiada no meu quarto, escrevendo, refletindo, desenhando, ouvindo o silêncio, tentando decifrar o que ele me grita. E tudo que sei, por mais paradoxo que pareça, por mais que soe como uma antítese, é que sinto na solidão uma forte e sedutora presença com a qual me enlaço num abraço sedento.


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