devaneios poéticos e outras artes

Deixe-se embriagar pela dose diária de lirismo e desvarios literários.

Ana Karla Farias

Nosso problema não é falta de pênis

O artigo discorre sobre a necessidade de encarar o Dia Internacional da Mulher não apenas como uma data comemorativa a ser festejada, conforme o estereótipo de que a mulher exerce um importante papel social por ser "a rainha do lar", por ser "linda" e "frágil". Muito pelo contrário, é um momento para maturar a ideia de que há muitas somas de direitos a serem garantidas, e que apesar dos avanços, a mulher continua ocupando a posição de um sexo inferior. Fato corporificado nos índices de violência doméstica contra mulher, de feminicídios e da tradicional delimitação de espaços entre feminino e masculino.


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É preciso esbravejar aos quatro cantos que o dia oito de março, alusivo à mulher, não deve se restringir a uma data “bonitinha” na qual o mundo se torna cor-de-rosa e as mulheres são presenteadas com flores em homenagem ao seu papel social tradicional, alicerçado no patriarcado, que cristaliza o modelo de mulher ideal e essencial como sendo a mulher cuidadora, que reproduz um paradigma feminino voltado para a subjetividade, maternidade e o mundo circunscrito à domesticidade, ao privado.

É imperativo volver os olhos para o futuro sem relegar o passado, sem deixar de rememorar o contexto histórico no qual o Dia Internacional da Mulher emergiu. Celebra-se o oito de março como Dia da Mulher, não porque fomos agraciadas pela natureza, porque somos “fofinhas”, “delicadas”, “doces” ou “lindas”, mas em alusão a um cenário de luta feminina pela conquista de dignidade humana. Num contexto em que, no início do século XX, mulheres reivindicavam melhores condições de vida, de trabalho e direito ao voto, num cenário em que a população feminina era tratada como verdadeira escória da sociedade.

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A importância de não deixar o oito de março passar em branco, reside no fato de que a mulher ainda é oprimida diuturnamente, nas relações, calcadas na hierarquização de poder do homem sobre a mulher, na delimitação de espaços entre o feminino e o masculino onde se usa a biologia como base para a legitimação da opressão feminina.

No dia em que formos, de fato, tratadas de forma igualitária, aí sim, poderemos transformar a data em uma comemoração. Mas, por ora, a luta precisa ser contínua. Os desafios para angariarmos uma situação de igualdade na relação de gêneros ainda são muitos, já que nossa cultura está arraigada no patriarcado. Tanto que apesar das mulheres terem ingressado no mercado de trabalho, não se desvincularam do papel social convencional, baseado no tripé-mãe, dona de casa e esposa. As tarefas domésticas, a título de exemplo, via de regra, não são divididas entre os gêneros, como se nossa condição feminina nos fizesse subservientes ao sexo oposto para que tenhamos o encargo de servir, incondicionalmente.

Continuamos a ser tratadas como um sexo, reduzidas a uma vagina. Sim, porque ainda que sejamos mentes pensantes, tenhamos diplomas e pós-graduações, se não exibirmos um corpo esculturado na academia, não seremos mulheres sedutoras e desejadas, não seremos amadas.

Se nos revoltamos com as condições limitantes que nos são impostas “goela” abaixo, somos tachadas de histéricas, de loucas, porque somos as rainhas da “fofoca”, dos burburinhos, mas quando ousamos a lançar nosso grito no espaço público, tratam logo de silenciá-lo. Somos as feministas mal comidas, as incapazes de agarrar um homem, as feias indesejadas.

No fundo, querem nos persuadir de que a razão de todos os nossos martírios é “falta de rôla”. Se somos bem-sucedidas profissionalmente, mas saímos às ruas sozinhas, sem ostentar um marido, namorado, companheiro, ficante, imputam-nos o sentimento de incompletas, de solitárias, de mulheres infelizes, pois não encontramos ainda o amor, a alma gêmea, não fomos agraciadas. Logo, não seremos uma mulher realizada, pois não teremos uma família a quem cuidar, não exerceremos a maternidade. Seremos uma árvore seca, desprovida de frutos. Com os anos, vai sobrevir a velhice. Os sinais do tempo impiedoso serão notados e aí estaremos fadadas ao completo fracasso. Sim, porque ao homem é garantido o direito de envelhecer. Ora, é charmoso usar o cabelo grisalho, as rugas na testa, então, só evidenciam experiência, dão um traço mais viril. Mas, à mulher é um sinal de desleixo, quase um pecado, motivo de condenação moral e de chacota, deixar aparecer um único fio de cabelo prateado.

À mulher são predeterminados os destinos psicológicos, fisiológicos, sentimentais e econômicos. Logo, para ser uma mulher virtuosa e respeitável, ela precisa casar, (de preferência que seja antes dos 30 anos, uma vez que depois, fica mais difícil arranjar marido), ter filhos antes dos 30 porque depois vai ficar complicado, e continuar casada com o mesmo cônjuge, o pai dos seus filhos, em nome da sagrada instituição da família. Ainda que ele descumpra os deveres da sociedade conjugal. Se ele pular a cerca, a culpa será sempre dela que não lhe deu a devida atenção e ele foi condicionado a procurar lá fora, o que não desfrutava dentro de casa. Ele estava carente de afeto. Ela, de certa, estava muito atarefada com os afazeres da maternidade, com a profissão e da casa. Ou seja, falhou, foi relapsa.

A mulher não pode escolher amar e desamar quando bem entender. Se por acaso, ela cogitar romper o casamento de anos de dedicação e “companheirismo”, será rotulada como separada. Cuidado, mulheres! Segurem seus homens que a separada, devoradora de machos, está solta! Se já tiver filhos e separar, então, será a mãe solteira. Vejam, ele deu causa ao rompimento da relação, eximiu-se de ficar com a tutela dos filhos, mas ela quem será apontada na rua e será alvo de olhares tortos, desdenhosos, porque, afinal, ela é a mãe solteira.

No Dia Internacional da Mulher, auferimos que existe um longo caminho espinhoso a ser trilhado, na tentativa de desconstruirmos estereótipos tão arraigados na nossa cultura patriarcal que já se tornaram naturalizados, na maioria das vezes, para então, reconstruirmos uma sociedade onde, enfim, se respeite a condição humana da mulher e não a cristalização de um modelo que a reduza a um sexo inferior, ao lugar de um outro do homem.


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