devaneios poéticos e outras artes

Deixe-se embriagar pela dose diária de lirismo e desvarios literários.

Ana Karla Farias

O essencial cada vez mais invisível aos olhos

O artigo lança luz sobre uma das mais lidas obras do mundo: "O pequeno Príncipe", correlacionando-a às vertentes filosóficas e sociológicas de Muniz Sodré e Manuel Castells. O Clássico literário é conhecido por problematizar a necessidade de enxergarmos o essencial à vida e à condição humana.


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Quando adultos estamos, via de regra, orientados a seguir uma lógica capitalista que nos dita um modo de vida. Diuturnamente, é despejada sobre nós, uma turbulência de imperativos que nos dizem o que comprar, que profissão exercer, a quem e a hora de amar. Devemos mostrar em todos os âmbitos de nossa vida que alcançamos o sucesso, porque do contrário, seremos rotulados de fracassados e nessa lógica voraz de inversão do ser pelo ter, só nos cabe ostentar a posição de vencedores. A corrida desenfreada pelo êxito e felicidade ao alcance de uma prateleira deve ser milimetricamente pensada em função do tempo. Para os ditames do capital, não há tempo a perder ou talvez nem haja tempo.

O capitalismo informacional e as relações humanas

O sociólogo espanhol Manuel Castells, que na década de 70, teve como destaque os estudos orientados para o desenvolvimento da sociologia urbana marxista, passa em meados de 1980, a direcionar suas pesquisas para o campo da tecnologia da informação e comunicação; frisando que o capitalismo entra na era informacional e norteia mudanças sociais e comportamentais. Atreveria-me a preconizar que as relações sociais e pessoais também foram afetadas pela reconfiguração do modelo de produção capitalista presente na era da informação e da geração digital. Se nos dizeres do filósofo da comunicação e da linguagem, Muniz Sodré, na sociedade high tech, estamos cada vez mais conectados, porém, não vinculados; há uma obra que embora escrita na década de 40, continua muito atual em tempos hodiernos. Considerada uma das maiores obras do século XX, O Pequeno Príncipe, escrito pelo francês Saint-Exupéry, tratava há mais de 70 anos, exatamente no diálogo permeado entre o personagem central e a raposa, sobre a carência das pessoas em nutrir relações mais profundas, em dedicar parte de seu precioso (no sentido mais extenso e denotativo da palavra) a ouvir o outro, a cativá-lo.

Na era do capitalismo cognitivo, de relações mediadas pelas novas tecnologias, em que até cumprimentar o vizinho pode se configurar num desperdício de tempo em face da correria e dos dissabores cotidianos, afinal impera a lógica de que tempo é dinheiro e dinheiro é a mola mestra do capital, dá um sentido humano às nossas construções parece algo cada vez mais intangível. Estamos perdendo o hábito de nos comunicar face a face. Nos ambientes públicos, ainda que estejamos rodeados de amigos, não nos desprendemos do smartphone. Na ânsia de estarmos conectados com pessoas dos mais diferentes territórios geográficos, aproximamo-nos de quem longe habita, mas nos distanciamos de quem está próximo, de quem, muitas vezes, tanto aguarda um minuto de nossa escassa e dispersa atenção.

O Pequeno Príncipe e a filosofia das relações

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Quando o autor de O Pequeno Príncipe, escreveu a obra traduzida em mais 253 idiomas e dialetos, talvez nem cogitasse a invenção da internet, na década de 1960, decorrente de pesquisas militares no auge da Guerra Fria, mas já profetizava a dificuldade humana em se doar, em se importar com a alteridade:

“- Eu procuro amigos. Mas, o que significa cativar? -É uma coisa praticamente esquecida por todo mundo- disse a raposa. -Significa criar laços”.

Sobre o autor

Antoine de Saint-Exupéry, que além de escritor, ou seja, voava sem asas, também alçava voos nas asas de um avião, era aviador. Em 31 de julho de 1944, após ter partido de uma base aérea em Córsega, oeste da Itália, aquele que aguçou o imaginário infanto-juvenil, mas que também conquistou o coração e mente de adultos que alcançaram a proeza de enxergar o mundo em sua volta sob o olhar de uma criança; não mais voltou e seu corpo jamais fora encontrado. Talvez tenha regressado para um planeta longínquo, com licença mística, mas sem sombra de dúvida, imortalizou-se em suas obras e continua a fazer com que leitores de todo o mundo, despertem o olhar para a essência humana.

Apesar dos ensinamentos que tanto convidam os leitores da obra, lançada em 1943, a refletirem sobre valores humanizadores de solidariedade, alteridade, amizade, compaixão e desprendimento; como falíveis que intrinsecamente somos; não aprendemos a pensar o outro, a nos propor a compartilhar a dor do outro, a nos colocar na situação do outro, e sobretudo, o outro não é tratado de modo central. Perdoe-nos, Saint-Exúpery, mas não conseguimos ser responsáveis por aquilo que cativamos tampouco estamos nos esforçando por cativar, e de fato, o essencial permanece invisível aos nossos olhos.


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