devaneios poéticos e outras artes

Deixe-se embriagar pela dose diária de lirismo e desvarios literários.

Ana Karla Farias

O novo modelo masculino: o safadão

O forró eletrônico, de fato, conquistou corações e mentes de diversos públicos, espalhados no país. O que pode ser facilmente percebido diante das inúmeras vezes em que as canções provenientes desse ritmo, já consagrado no país, estão presentes nas emissoras de rádio, no carnaval, nas festas juninas e nos shows ao longo do ano. Somos bombardeados de forró eletrônico, em algumas regiões brasileiras, o ano inteiro. O conteúdo das músicas deve ser apreendido como um discurso que exerce, sobremaneira, influência no comportamento social dos receptores, funcionando como um efeito de sentido para os que ouvem o gênero musical.


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A música é um veículo de considerável uso para a disseminação de valores ideológicos e morais entre o público receptor das mensagens, por ela, transmitidas, tendo por elementos determinantes a bagagem cultural e o lugar do discurso dos interlocutores.

Um gênero musical muito em voga hoje no país, sobretudo, na região Nordeste, é o forró eletrônico, também chamado de forró estilizado. Trata-se de um subgênero do forró oriundo da década de 90. Um ritmo que procura mesclar elementos do forró tradicional a outros gêneros musicais como o pop, o sertanejo e o axé music.

O forró eletrônico, de fato, conquistou corações e mentes de diversos públicos, espalhados no país. O que pode ser facilmente percebido diante das inúmeras vezes em que as canções provenientes desse ritmo, já consagrado no país, estão presentes nas emissoras de rádio, no carnaval, nas festas juninas e nos shows ao longo do ano. Somos bombardeados de forró eletrônico, em algumas regiões brasileiras, o ano inteiro. O conteúdo das músicas deve ser apreendido como um discurso que exerce, sobremaneira, influência no comportamento social dos receptores, funcionando como um efeito de sentido para os que ouvem o gênero musical.

“Eu apronto, ela perdoa (…) Ela me conheceu cachorro, se apaixonou por mim assim”. Um dos ícones atuais do forró eletrônico é Wesley Safadão, que em face ao sucesso e exposição nos diversos meios midiáticos, tem conquistado milhares de fãs em todo país, verdadeiros seguidores das letras profanadas pelo artista. O culto ao conteúdo propagado pela música do Safadão não se limita a apenas consumir o gênero musical, mas se tornou um estilo de vida, uma ideologia e um novo padrão moral, sobretudo, no que pertine ao público masculino a quem são maciçamente direcionadas as canções do ídolo em questão.

Ser safadão permeia a um estado de espírito, a um imperativo social, a um novo modelo de homem. Que balela de macho alfa e beta? O paradigma de macho que predomina hoje no Nordeste do Brasil, é o estilo safadão, tamanhas a repercussão e aceitação das letras do artista pelo grande público. O homem viril, o homem com H tem por obrigação moral ouvir Safadão e endeusá-lo como quem deve obediência obstinada a uma autoridade. E não basta ficar na condição passiva de receptor que tão somente escuta, é preciso adotar a ideologia apregoada pelas letras do artista. É urgente que seja discursivado o padrão do macho safadão. Safadão que é safadão não precisa somente comparecer ao show do Safadão, tem que ostentar uma bebida cara. Safadão que é safadão tem que ser pegador, garanhão, não deve ser homem de uma mulher só, tem que ter várias parceiras sexuais. Safadão que é safadão está isento das responsabilidades inerentes à sociedade conjugal e a qualquer outra forma de relação afetiva. Se o homem safadão “pisar na bola”, “escorregar”, “vacilar”, a culpa é sempre da mulher. Ela que agiu em falta. Porque, afinal, a namorada, companheira ou esposa de um macho safadão já o conheceu “cachorro” e o status dele de safadão deixa-o inimputável e o inocenta de qualquer falha, merecendo sempre a anistia. Ele apronta, ela perdoa. Safadão que é safadão deve ser tratado como incapaz no que pertine aos deveres do amor. E se você não tiver compreensão e subserviência suficientes para perdoar as mancadas do macho safadão, você será indubitavelmente a pior mulher do mundo. E por fim, se acaso, você parceira do homem safadão, encontrá-lo com outra algum dia, após tantos anos de companheirismo, releve porque, afinal, você sabia previamente do seu um por cento vagabundo ou do seu lapso de memória. Esta, ele deve ter apagado com cachaça.

Os meios midiáticos, principalmente, na divulgação de determinadas músicas, vêm contribuindo sobremodo para reproduzir o modelo patriarcal do homem que tudo pode e não precisa responder por suas atitudes falíveis. Afinal, são homens com H, as mulheres que lhes perdoem. A discursividade das canções do Safadão criou um novo padrão de homem e as futuras gerações de homens crescerão no meio social em apreço e serão educadas ao estilo de vida do macho safadão. De minha parte, quem apronta e merece o meu perdão em virtude de sua condição de cachorro, é o meu cão de um ano.


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