devaneios poéticos e outras artes

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Ana Karla Farias

Por que ''Safadão" não é cultura popular

É preciso esclarecer que os modismos musicais produzidos e reproduzidos pela grande mídia não podem ser classificados como cultura popular.


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Gosto musical é peculiar a cada pessoa, esta imbuída de suas subjetividades, individualidades e seu repertório cultural, e numa sociedade plural e democrática, a preferência de cada um por um determinado gênero musical deve ser respeitada. Contudo, é necessário que se proceda a um esclarecimento sobre a diferença entre cultura de massa e cultura popular. Tal explanação é crucial para que se evite, a título de exemplo, conceituar “Safadão” e “Marília Mendonça” no mesmo patamar que cultura popular.

Cultura de massa está imbrincada ao modismo, ao que está em alta na mídia, enquanto cultura popular atrela-se à essência de um povo. Para ser mais específica, a cultura de massa refere-se a um produto que é difundido para as grandes massas através dos meios de comunicação. Ela é instrumentalizada pela indústria cultural com o intuito de obter lucros. Já a cultura popular é relativa às diferentes manifestações que são populares e com origem em diferentes regiões, estando relacionada à tradição e sendo transmitida de geração em geração.

Indústria Cultural e a Escola de Frankfurt

Feita a diferenciação entre as duas terminologias, vamos ao conhecimento do termo Indústria Cultural, desenvolvido pelos cientistas sociais alemães, pertencentes à Escola de Frankfurt, Adorno e Horkheimer. O conceito de Indústria Cultural tornou-se central para os estudos culturais e análise da mídia. Em texto publicado em 1947, Adorno e Horkheimer definiram indústria cultural como sendo um sistema político e econômico cujo objetivo é produzir bens de cultura - filmes, livros, música popular, programas de TV etc. - como mercadorias e como estratégia de controle social. Trocando em miúdos, seria a conversão da cultura em mercadoria, orientada pela racionalidade do capitalismo. Os pensadores frankfurtianos criticam, portanto, o fato de que, em vez da cultura de massa contribuir para formar cidadãos críticos, manteria um público receptor alienado da realidade. É preciso ponderar, no entanto, que o receptor da mensagem não é um público passivo, estando apto a discernir o que pretende consumir ou não, dada sua capacidade de exercer o senso crítico. Mas, o cerne da teoria da indústria cultural é o fato de que a cultura de massa é apropriada pela indústria a fim de que uma ideologia seja imposta à sociedade, ao público receptor.

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Ainda que tenhamos gostos musicais díspares e ecléticos, que se prefira um ritmo a outro, conforme nosso estado de espírito ou nosso contexto cultural, é fundamental não abandonar a reflexão crítica e não incorrer no equívoco de rotular alguns modismos e sucessos forjados pela grande mídia com o intuito de manter um sistema econômico e continuar lucrando, como sendo uma representação da cultura popular de uma dada região, de uma sociedade.

Os pensadores da Escola de Frankfurt lançam uma crítica à cultura de massa não em razão de sua característica mais popular, não se trata de discriminação e intolerância às manifestações culturais advindas das classes populares, é exatamente o oposto. A intenção é separar o joio do trigo e resguardar o conceito de cultura popular. A cultura de massa, de praxe, está alicerçada nas marcas da subordinação e exploração a que o povo foi condicionado desde a origem da história.

“A linguagem rebaixada, o menosprezo da inteligência e a promoção de nossos piores instintos, senão da brutalidade e da estupidez, que encontramos em tantas expressões da mídia (...)”. (Francisco Rüdiger).


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