devaneios poéticos e outras artes

Deixe-se embriagar pela dose diária de lirismo e desvarios literários.

Ana Karla Farias

O mundo sob o olhar leve de uma criança

O menino e o Mundo, dirigido por Alê Abreu, vem despertando atenções por onde circula. Apesar dos escassos investimentos, o longa configura um dos cinco indicados ao Oscar de 2016, na modalidade animação, concorrendo com a produção suntuosa de Divertida Mente, produção da Disney Pixar. O filme brasileiro data de 2013, tendo sido a sua produção iniciada em agosto de 2010. O filme retrata sob uma vertente pueril, simples, porém não menos relevante, a realidade social de muitas famílias brasileiras, sobretudo, as que moram no Nordeste do país. Ele cabe muito bem na história de vida dos muitos que vivem em estado de penúria e arriscam a sorte nas cidades grandes, tendo de deixar para trás, muitas vezes, os entes queridos, e carregando nas parcas bagagens, sonhos e esperança de um futuro melhor e mais digno. O personagem central do longa é um menino, como sugere o nome do filme, que deixa o cenário bucólico onde vive para se aventurar em busca do pai. Este partira à procura de emprego e promessa de sol nas fábricas da cidade grande. Na jornada no intuito de encontrar o pai e movido pela vontade de ter reconstituída sua família, conforme o retrato que ele sempre segurava; o menino atravessa muitos percalços, que em grande parte, são convertidos em flores, diante da leveza de quem enxerga o seu redor, com o olhar e alma de uma criança.

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Estava eu na sala de cinema, havia muitas crianças presentes, acompanhadas de seus pais, dado o perfil do filme, destinado a um público mais sensível, por se tratar de uma animação. Espreitei o olhar atônito de um garotinho que contava em torno de uns três anos. Ele estava tão compenetrado a observar o longa que nem chegava a pestanejar. Parecia entregue ao fascínio que a sétima arte e a telona exercem sobre seu variado público receptor. Fiquei a indagar com meus botões, que pensamentos assaltavam o imaginário daquele pequeno, que por ora, contemplava tudo ao seu redor, com os olhos questionadores de quem descobre o mundo, com os olhos de uma criança.

E é, sobretudo, por apresentar uma narrativa sob o prisma do olhar de uma criança, que o filme de animação brasileiro, intitulado O menino e o Mundo, dirigido por Alê Abreu, vem despertando atenções por onde circula. Apesar dos escassos investimentos, o longa configura um dos cinco indicados ao Oscar deste ano, concorrendo com a produção suntuosa de Divertida Mente, produção da Disney Pixar. O filme brasileiro data de 2013, tendo sido a sua produção iniciada em agosto de 2010. Segundo informações do diretor, o longa que já fora vendido para mais de 80 países, é oriundo de um documentário animado que receberia o nome de Canto Latino.

Sinopse

O filme retrata sob uma vertente pueril, simples, porém não menos relevante, a realidade social de muitas famílias brasileiras, sobretudo, as que moram no Nordeste do país. Ele cabe muito bem na história de vida dos muitos que vivem em estado de penúria e arriscam a sorte nas cidades grandes, tendo de deixar para trás, muitas vezes, os entes queridos, e carregando nas parcas bagagens, sonhos e esperança de um futuro melhor e mais digno. O personagem central do longa é um menino, como sugere o nome do filme, que deixa o cenário bucólico onde vive para se aventurar em busca do pai. Este partira à procura de emprego e promessa de sol nas fábricas da cidade grande. Na jornada no intuito de encontrar o pai e movido pela vontade de ter reconstituída sua família, conforme o retrato que ele sempre segurava; o menino atravessa muitos percalços, que em grande parte, são convertidos em flores, diante da leveza de quem enxerga o seu redor, com o olhar e alma de uma criança. Nesta saga, o público é convidado a viajar em companhia do pequeno personagem por mundos surpreendentes, deparando-se com máquinas-bichos e seres estranhos. O pássaro colorido que simbolicamente representa a beleza da visão pueril digladia com o pássaro obscuro que descortina o véu da mistificação e inocência, cedendo lugar à realidade torpe a que os adultos estão submetidos diuturnamente, já a tendo naturalizado, muitas vezes.

Reflexão temática

O longa conduz-nos a refletir sobre a pobreza, a desigualdade social, o desemprego, a poluição ambiental e os imperativos que a sociedade de consumo, presente no ritmo de vida da população urbana, impõe-nos. Somos coagidos a consumir desenfreadamente, como se marcas e produtos fossem suprir nosso vazio espiritual e a felicidade estivesse ao alcance de uma prateleira, à venda. Nesse contexto, O menino e o Mundo difunde a mensagem de que a felicidade plena é interna e reside nas coisas simples do cotidiano. Simples não no sentido vulgar da palavra, mas na perspectiva de que não se deve complicar a felicidade, bastando senti-la. O sentimento de alegria tão buscado por nós, está nas situações singelas da vida, como nos mostra o filme. Está nas relações familiares tão prezadas pelo menino, que na aventura em busca do pai, tantas vezes, tem a impressão de ver a figura do mesmo no rosto de outras pessoas, que recorda-se dos momentos de convívio familiar, como da hora da refeição em que reparte o alimento com o pai e a mãe e das situações lúdicas. Só a pureza de uma criança para nos revelar um mundo que sob a visão turva de adultos não conseguimos espreitar, porque é preciso lograr um determinado estado de espírito para tanto.

O filme que aposta na simplicidade desde o seu formato, uma animação artesanal dotada de poucos recursos tecnológicos e que teve um aporte financeiro contido, deixa-nos a lição do quão o simples é valoroso e de que o essencial não reside nas coisas mais suntuosas, porém, no que é acessível e comum a todos nós, dependendo do ângulo em que se ver.


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