devaneios poéticos e outras artes

Deixe-se embriagar pela dose diária de lirismo e desvarios literários.

Ana Karla Farias

Sete minutos depois da meia-noite

O longa anglo-espanhol-estadunidense mescla realidade à fantasia para lançar luz às situações de complexidade humana. Baseado no livro O Chamado do Monstro, de Patrick Ness que ficou incumbido do roteiro, o filme é um drama- fantasia, dirigido por Juan Antonio Bayona.


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Quando um garoto de apenas 13 anos de idade, já não consegue suportar o peso das dores humanas; ele recorre à fantasia como subterfúgio não para fugir da realidade, mas como aprendizado para enfrentar as adversidades da vida. Baseado no livro O Chamado do Monstro, de Patrick Ness que ficou incumbido do roteiro, o longa é um drama- fantasia, dirigido por Juan Antonio Bayona.

O menino Conor O'Malley, interpretado por Lewis MacDougall, vivencia diuturnamente o medo de perder a mãe que tem câncer em estágio avançado e o sofrimento decorrente da ausência do pai que mora em outro continente, com uma nova família. Somado a tais dramas humanos, o garoto ainda é vítima de bullying na escola. Por interiorizar e somatizar tantos problemas de ordem emocional, Conor tem o mesmo pesadelo regularmente: de que ele não consegue salvar sua mãe que cai de um abismo, quando ele poderia segurar a mão dela por mais tempo. O que reflete o dilema vivido pelo menino e o seu sentimento de culpa por estar, deveras, cansado em decorrência do desgaste provocado pela doença da mãe.

Até que uma noite, ele é surpreendido com uma visita incomum. O teixo frondoso, árvore situada em um cemitério, que ele fita da janela do seu quarto, transforma-se em um monstro gigante, passando a procurar o menino para contar-lhe três histórias, sempre sete minutos depois da meia-noite. Em recompensa, o monstro impõe ao garoto que ele conte a quarta história que irá discorrer sobre a verdade guardada e silenciada por Conor. A história tão temida por ele e, da qual, ele costuma se esquivar.

Além do impacto visual e do roteiro, o filme encanta ao público espectador por mesclar poeticamente, elementos da realidade e do imaginário, por meio de histórias que, metaforicamente, lançam luz sobre o entendimento da vida, sobretudo, no que concerne ao medo da morte. Tal qual elucida o sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, comparando a morte ao amor realizado, na obra Amor Líquido, nunca poderemos aprender a morrer, assim como precisamos perceber que ela tem o seu tempo humano. A maior compreensão sobre a morte, e principalmente, a decisão de contar a verdade, mesmo que ela seja dolorosa, talvez tenham sido aprendizados determinantes para o amadurecimento de Conor.

Por fim, Sete minutos depois da meia-noite traz às telonas, a complexidade da vida humana sob o olhar e imaginário de uma criança, que tem a companhia de um monstro-árvore para desbravar o difícil e tempestuoso caminho a si mesmo.

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