diálogos entre o nada e o intraterreno

Tem um atalho-emboscada para acreditar nos motivos mas tanto faz.

Ana Tamy

REDESCOBERTA DA INFÂNCIA

Crianças vaidosas trocam a infância pelo enquadramento social. Um novo tipo de percepção de indivíduo vem formando a mentalidade das existências pueris, com conceitos amplamente impostos pela mídia, de forma por vezes lúdica e através da aceitação familiar, novas preocupações estéticas covardemente disputam espaço com a despreocupação (atualmente retro) infantil e com os laços de amizade resignificados a partir da massificação da internet.


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Filhos da globalização e primos do imediatismo, esta geração parece ter uma aura conectada com a inteligência cibernética por natureza. A falta de paciência, perfeitamente comentada por Zygmunt Bauman nos seus conceitos sobre mundo líquido, é a antecedente de qualquer interação humana em tempos atuais, dentro das casas as famílias não mais apreciam a infância de suas proles. Para não lidar com a tarefa de educar seus filhos os entretem e aleijam sua hiperatividade com tablets e celulares. Certamente este contato com aparelhos tecnológicos pode trazer alguma capacidade cognitiva no raciocínio destes pequenos a curto ou longo prazo, fato é que por outro lado a infância do contato, do palpável e da vivência em conjunto, perde espaço e um desmazelo afetivo ronda a formação psicológica.

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A personalidade social vem sendo multiplicada em moldes fordistas de produção. Pessoas iguais com futuros e anseios iguais, até as transgressões perderam a identidade e o mais rebelde que um jovem atual se permite ser, é mergulhar em uma noitada etílica bancada pelos pais embalados por refrões vazios, despropósito, roupas de marca e um corpo cyborg. Estas são as novas certezas, toda geração tem as suas isso é bem verdade, a dinamicidade deste processo anula as referências e as raízes de suas motivações, um ponto matricial é a exigência pelo corpo arquétipo desde cedo, crianças no apogeu de sua vivacidade substituem as brincadeiras pela academia, pela primeira vez na história tem-se ‘’lactentes” preocupados com seu índice de massa magra. Em tempos passados os espartanos criavam seus filhos para a guerra e os obrigavam a treinamentos exaustivos por toda a vida, milênios depois, o mundo presencia a repetição desta mentalidade (guardadas as suas proporções comparativas).

São menores abandonando o presente para viver de preocupações antes destinadas aos adultos, uma hiperestimulação emocional bombardeando a pouca estrutura destas crianças por todos os lados. As consequências estão por vir e fatalmente em 15 ou 20 anos, a sociedade será o palco de atuação destas vítimas de uma era volátil. Mesmo com a popularização dos direitos humanos, com as oito metas mundiais da ONU, uma onda contrária na degeneração da infância cresce diariamente em todos os lugares e não existe lei que possa prever o maltrato psíquico que a exposição midiática pode trazer, ou as cobranças para entrar no padrão de beleza, no padrão de formação superior que vai garantir sucesso financeiro, na reinterpretação das amizades baseadas em postagens, likes, curtidas e interação virtual.

Eliminando de vez o romantismo pessimista dos que acham que em tempos passados tudo era melhor (provavelmente o pensamento mais alienado de todos os tempos), a vida já esteve muito mais degradante em todos os cantos do mundo. O estranhamento para com esta geração de mentalidades cibernéticas está na previsibilidade do futuro das relações e valores humanos, pela primeira vez na história a tecnologia está nas mãos dos mais jovens, o que por si só já marca a morte de um velho mundo, daqueles que não acompanham as mudanças e tem suas habilidades manuais e conhecimentos antes supervalorizados caindo no abismo do desnecessário. Em toda a história da humanidade, este é o maior consumo de informação e desinformação, uma paráfrase do pensamento de Pinto Balsemão, por isso, o norteamento das crianças pelas suas famílias e responsáveis é imprescindível para separar o relevante do que vai desestruturar a formação de um bom pensamento. A redescoberta da infância é um desafio que corre contra o tempo na formação deste novo mundo clepsidra.

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Fotografias: Robert Doisneau.


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