Estevão Júnior

Sou um carioca de hábitos simples: gosto de beber cerveja, assistir futebol e ler livros sobre materialismo dialético.

Desmistificando Quentin Tarantino

Apesar dos méritos do cineasta americano, ele é superestimado.


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Quentin Tarantino (Knoxville, 27 de março de 1963) é considerado um dos grandes diretores do cinema contemporâneo - o que é compreensível tendo em vista a escassez de ideias em Hollywood e, em menor grau, no cinema independente dos EUA, dos anos 90 pra cá. O que é incompreensível é que ninguém se habilite a fazer uma crítica honesta ao seu trabalho. Afinal, se Tarantino vivesse nos anos dourados do cinema, no máximo ele serviria café para o Bergman ou Hitchcock. Mas por que ninguém – ou quase ninguém – o critica? Até hoje não deixa de ser intrigante.

O autor de Pulp Fiction gosta de copiar, ou melhor, de "homenagear" os milhares de filmes que assistiu - e que a maioria ninguém conhece. Mas ainda assim é possível ver em Kill Bill (2004), por exemplo, referências aos clássicos de Kung Fu e aos faroestes "espaguete" italianos (Western Spaghetti), como “Era uma vez no Oeste", de Sérgio Leone. Por ter aquela cara de Frankenstein, Tarantino deve ter passado a maior parte da juventude enfurnado nos cinemas enquanto seus amigos, supondo que ele tivesse alguns, saíam para namorar, beber e essas coisas.

Na contramão do que dizem por aí, não há nada de excepcional na trilha sonora dos filmes de Tarantino, apesar da variedade de ritmos (pop, soul, rock, surf music, country, rhythm and blues, etc.). Há algumas músicas boas, é verdade, mas a maioria são canções obscuras, quando não medíocres, que se só se tornariam, por assim dizer, clássicas após o sucesso dos filmes. Mas seus puxa-sacos se comportam de tal modo que se tocasse Ludmilla nas "obras primas" do Tarantino, todos a achariam genial. O pior de tudo é que, após trabalhar com o cineasta, o grande compositor Ennio Morricone nunca mais compôs nada memorável.

Agora, vamos falar um pouco sobre alguns dos seus principais filmes:

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Cães de Aluguel (1992) tem lá seus destaques, como a impagável cena do início, em que um grupo de criminosos discute em uma lanchonete assuntos triviais, como o real significado de "Like a Virgin" da Madonna. Há também uma cena de tortura que nos deixa à flor da pele. Mas o final em si é terrível. Tem-se a impressão de que Tarantino não sabia como pôr fim àquele festival de "bobagem" e resolveu encerrar de qualquer modo.

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Pulp Fiction (1994) é divertido, o melhor de Tarantino. Daí a considerá-lo "revolucionário" ou, ainda, um clássico absoluto do cinema vai uma longa distância. Talvez até seja, assim como são "clássicos" filmes sem qualquer valor artístico como "Os Caça-Fantasmas" ou "Querida, Encolhi as Crianças". A cena mais festejada do filme é a dancinha ridícula do John Travolta com a Uma Thurman. Tem ainda uns diálogos nonsense e aqueles "papos-cabeça" que tentam transmitir alguma mensagem, mas sabemos que não passam de pura baboseira.

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Jackie Brown (1997) é chatíssimo. Talvez se salvem duas ou três cenas, como a morte do personagem interpretado por Chris Tucker ou a transa de Robert de Niro e Bridget Fonda. Segundo o diretor, Jackie Brown é uma homenagem ao blaxploitation (movimento cinematográfico que tinha negros como protagonistas). Bem, o que vale é a intenção. Parece que Spike Lee ficou nervoso com Quentin por causa do uso excessivo da palavra "nigger" no filme ou por qualquer outro motivo. Mas quem se importa?

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Bastardos Inglórios (2009) se trata de um besteirol com algumas cenas divertidas aqui e ali. Brad Pitt, atuando de forma canastrônica, com aquele bigodinho, remete-nos aos excêntricos personagens de "filmes B". A melhor parte de Bastardos Inglórios é a cena do massacre no cinema na qual os líderes nazistas, entre os quais o Hitler, são fuzilados por americanos judeus. Cena catártica a qual ianques e judeus adoram. Quem não se diverte vendo nazistas sendo massacrados?

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Quanto a Django Livre (2012), é difícil saber se é um épico ou um trash movie. Ou talvez as duas coisas. Ás vezes, tentamos levá-lo a sério, porque afinal o tema da escravidão é deveras um assunto sério, mas somos impedidos por todo aquela tinta vermelha jorrando na nossa cara. A cena do tiroteio, chupada do "Scarface" e "Taxi Driver", seria boa se não fosse tão despropositada. O personagem interpretado pelo Samuel L. Jackson é o destaque da película. Outro ponto positivo é o retrato cruel daquela época (pré-Guerra Civil Americana). Compare-o, por exemplo, ao dramalhão “... E o Vento Levou", cujo início mais parece a idealização do paraíso sulista onde os negros só faltam tocar harpa.

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O seu último filme, Os Oito Odiados (2015), lembra uma mistura de "Enigma do Outro Mundo", "Cães de Aluguel" (Tarantino cansou-se de plagiar outros diretores e resolveu plagiar a si mesmo) e aquele episódio do "Chapolin" da cabana. Peca pela longa duração - a primeira hora é dispensável. Aliás, a maioria dos filmes do diretor tem esse "defeito" (no caso dos filmes dele é um defeito). Mas este, em particular, melhora com o andar da carruagem - literalmente.

O sucesso dos seus filmes se deve ao fato de que o diretor dá aquilo que as pessoas (leia-se nerds, otakus, pseudointelectuais, indies, gente cult e afins ) querem ver: cultura pop, violência gratuita, diálogos politicamente incorretos, humor negro e carinhas conhecidas. Tarantino repete a fórmula ad infinitum. Temas como criminalidade, ressentimento e racismo permeiam suas obras, porém, uma reflexão e/ou crítica social acerca destes assuntos só começaram a aparecer em seus últimos filmes. Mas antes não tivessem aparecido.

Tarantino, é justo dizê-lo, tem seus méritos. Ele se diverte fazendo o que gosta e também quer divertir - e às vezes diverte - a quem o assiste. Parece uma criança, na companhia dos colegas, fazendo rabiscos grosseiros e obscenos em um papel a fim de conseguir a atenção dos adultos. Não está no mesmo nível de um Kubrick ou um Hitchcock, mas, convenhamos, hoje em dia quem está? De qualquer modo, é melhor assisti-lo a ver qualquer "filme pipoca" do Steven Spielberg. Se isso lhes serve de consolo.

That's all folks!


Estevão Júnior

Sou um carioca de hábitos simples: gosto de beber cerveja, assistir futebol e ler livros sobre materialismo dialético..
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