Estevão Júnior

Sou um carioca de hábitos simples: gosto de beber cerveja, assistir futebol e ler livros sobre materialismo dialético.

Memórias Póstumas de Brás Cubas, ou A vida como ela é

Todos os amantes das Letras deveriam se ajoelhar e agradecer ao Senhor, uma vez por semana, por Machado de Assis ter escrito esta obra.


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Memórias Póstumas de Brás Cubas pertence à trilogia realista de Machado de Assis, da qual também fazem parte Quincas Borbas e Dom Casmurro. Mas que dizer deste livro: Um clássico? A obra prima do mestre? Divisor de águas da literatura brasileira? Sim, meus amigos! É tudo isso e muito mais. Certamente este é o seu opus magnum. Nele estão reunidos todos os elementos os quais fazem o autor ser lembrado até hoje: a metalinguagem, o intertexto, a ironia, etc. Antes de escrevê-lo, Machado era apenas um poeta inexpressivo e um romancista razoável, a despeito de ser escritor talentoso (sobretudo de crônicas e contos), ao passo que a partir de “Memórias” passaria a ser considerado um talento raro pelos seus contemporâneos e um gênio pelas gerações posteriores.

De Woody Allen a Paulo Francis, todos aqueles que entendem um pouco de literatura e leram a obra estão de acordo que se trata de uma pérola, na acepção positiva do termo. Uma pérola que não tem correspondente na literatura nacional, em matéria de valor e conceitos estéticos (os que chegam perto são "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto, e "Vidas Secas", de Graciliano Ramos). A reflexão sagaz, a análise psicológica dos personagens bem como a crítica ferina da sociedade fazem com que esta obra se sobreponha às demais. Além de tudo, ela enterrou de vez as quimeras românticas ao introduzir o Realismo no Brasil.

Mas deixemos as bajulações de lado e vamos ao que interessa: a história. Bem, ela tem a peculiaridade de ser narrada por um defunto! Ou melhor, um defunto autor, como o próprio personagem Brás Cubas se autodefiniu. Por meio do relato da própria vida (e morte), o debochado autor nos revela os bastidores da mesquinha, ociosa e soberba elite do Rio de Janeiro do séc XIX. Numa sociedade escravocrata que ainda se amparava no direito de herança. Privilégio fundamental de um sistema excludente.

O livro é recheado de passagens memoráveis, todas as quais marcadas pelo humor negro, como nas tantas cenas de enterro (este livro é fúnebre qual um cemitério), no diálogo delirante com Pandora, no reencontro com Quincas Borbas, ou mesmo nos caprichos de Marcela e Virgília, etc. É impagável o capítulo onde o autor atribui a culpa por ele ter matado uma sinistra borboleta negra à própria vítima: "Também por que diabo não era ela azul?" Ou quando Brás Cubas faz uma analogia entre um louco "que tomou tanto tártaro que ficou rei dos Tártaros" e um ex-escravo que, de tantos castigos físicos que recebera ao longo da vida, passou a transferi-los sem piedade a seu escravo como forma de compensação. Já dizia o bruxo do Cosme Velho: a melhor maneira de apreciar o chicote é ter-lhe o cabo na mão.

O leitor mais espirituoso vai achar graça - ou não - do cinismo e niilismo que dão o tom da obra. Via de regra, a vontade que temos ao lê-la é de rir para não chorar. Tudo ali é posto ao ridículo: família, religião, política - as relações humanas de um modo geral. Nada escapa à crítica de Brás Cubas, de modo que tira sarro até de si mesmo, pois, como ele mesmo explica, está livre do olhar da opinião. Assim, ele pode expor sua mediocridade sem qualquer escrúpulo. Em dado momento, ele chega a zombar da deficiência física de um personagem: “Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?", em referência à Eugênia. Mais uma das reflexões divertidas do autor.

Aliás, as personagens femininas mereceriam um estudo à parte. Poderíamos falar da Marcela e sua cobiça, ou da personagem adúltera Virgília, mas, por ora, vamos nos ater à Dona Plácida, a senhora pobre que trabalhou a vida inteira, muitas vezes até se humilhando, e que no fim da vida foi lograda por um carteiro que, dizendo-se apaixonado, levou-lhe o dinheiro que seria sua Previdência. Triste destino, não? Não segundo o narrador, para quem este seria um “simples" caso no qual vence quem é mais esperto. Ou, fazendo alusão à famosa metáfora do livro, leva o osso o que for mais forte.

O autor da máxima acima é o personagem Quincas Borbas, filósofo criador de uma doutrina a qual batizou de Humanitismo. De acordo com ele, a vida era luta, sem a qual a vida seria “um mar morto no centro do organismo universal". Trata-se de uma sátira às teorias darwinistas - em voga na época - para as quais havia na natureza seres fracos, que nasceram para obedecer, e os fortes, cuja constituição física ou intelecto superior incitava-os a comandar. Para Quincas, este mundo, ainda que assombrado por moléstias de toda sorte, era o melhor dos mundos possíveis. De forma que Pangloss (da obra Cândido) não era tão tolo como o supôs Voltaire.

A leitura desta obra é imprescindível para qualquer pessoa que se interesse pela psique humana, bem como aqueles que desejam se aventurar na escrita. Por apresentar uma linguagem simples, objetiva e racional, o livro é modelo de estilo. Leiam-no; é curto. Tem uma adaptação para cinema de André Klotzel, mas é uma porcaria completa que faria envergonhar até Ed Wood. Passem longe! Enfim, Memórias Póstumas de Brás Cubas é um petardo que deve ser lido, relido e trelido. É isso.

E Deus viu que isso era bom.


Estevão Júnior

Sou um carioca de hábitos simples: gosto de beber cerveja, assistir futebol e ler livros sobre materialismo dialético..
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