Estevão Júnior

Sou um carioca de hábitos simples: gosto de beber cerveja, assistir futebol e ler livros sobre materialismo dialético.

Anti-Capitu

Uma análise da fabulosa - e indefensável - Capitu, personagem do clássico Dom Casmurro.


capitu.jpg atriz Letícia Persiles da minissérie Capitu, de Luiz Fernando Carvalho

Além de pegar histórias aparentemente banais e transformá-las em obras de arte, o grande mérito de Machado de Assis foi criar personagens memoráveis (Brás Cubas, Quincas Borbas, Sofia, Simão Bacamarte, entre outros), através dos quais fez um exame ímpar da condição humana. Capitu não foge à regra. A partir dos anos 60, ela se tornaria, para o bem e para o mal, um símbolo de resistência contra a opressão masculina, de modo que o debate sobre o romance adquiriu contornos ideológicos, isto é, apaixonados, o que muitas vezes impediu as pessoas de terem um raciocínio claro e objetivo acerca das questões do livro. Afinal, como poderíamos fazer uma análise imparcial se já estamos condicionados a realizar um prejulgamento dos personagens, ao sabor de nossas convicções?

Em Dom Casmurro (1889), há uma reflexão sobre as inevitáveis amarguras da nossa existência, tais como as desilusões amorosas. O livro narra as desventuras de um sujeito neurótico que, por conta de ciúmes e despeito, arruína o seu casamento. O aprendizado que temos ao fim da obra, se nos é dado falar desse modo, é que é necessário deixar de lado as vãs quimeras da mocidade e seguir em frente, caso não quisermos desperdiçar a vida - ou o que restou dela. Resignar-se é preciso. Lição fundamental a qual Bentinho não aprendeu, pois, apesar do seu esforço em demonstrar indiferença em relação àqueles eventos, apegou-se a eles de tal modo que ficou taciturno e um tanto desequilibrado.

Como não temos intenção aqui de escrever um texto de autoajuda, vamos dar prosseguimento ao assunto polêmico. Antes, um rápido perfil sobre o casal:

Maria Capitolina Pádua era uma garota espirituosa e perspicaz de classe média baixa; o acaso de ser vizinho de uma família nobre se devia ao fato de o pai, João Pádua, ter ganhado algum dinheiro na loteria. Entretanto, viviam com meios parcos. Bento de Albuquerque Santiago, por sua vez, era inseguro, mimado, possessivo, em suma, um almofadinha. Ele tinha acesso aos bens materiais e culturais e vivia como um fidalgo. Essa discrepância entre os dois é a chave para entendermos a obra.

Vejam o capítulo da inscrição, no qual a Capitu é pega de surpresa por Bentinho quando rabiscava no muro os nomes: “Bento Capitolina”. Ele, com sua inteligência mediana, interpretou isso como uma declaração de amor, quando na verdade se tratava de uma expressão da vaidade e astúcia da “cigana de olhos oblíquos”. A vontade de - por meio de uma união conjugal - fazer brilhar pelo mundo o seu nome, que, de outra maneira, não irradiaria luz sequer a uma pequena viela.

Ao que parece, Capitu era uma interesseira; se amou Bentinho, foi daquele "amor" frouxo, mero capricho da infância. Ela queria ascender socialmente. Eis tudo. O autor já nos indica algo nesse sentido ao narrar que, apesar da idade, ela tinha “ideias atrevidas”. A razão de ficar triste com a ideia de Bentinho entrar no seminário e, consequentemente, tornar-se padre, é porque lhe dificultava - quando não se extinguia - o sonho de vir a ser uma aristocrata. Não surpreende. Alpinistas sociais há aos montes na Literatura, a exemplo da Cathy, do "Morro dos Ventos Uivantes", que deixou de lado o seu grande amor em busca de conforto e estabilidade financeira. Mas sejamos razoáveis, às vezes a vida nos coloca em situações tais que somos obrigados a fazer concessões dessa natureza.

O capítulo no qual Pádua vai se despedir de Bentinho, que estava de partida para o seminário, reforça o que já foi exposto aqui, porque sugere que Pádua tinha interesse em ceder a filha ao nosso Casmurro. Neste, o narrador revela que a tristeza do velho era tal qual a de um sujeito que deposita fé numa aposta mal sucedida (fazendo alusão ao bilhete de loteria). Reparem: a união dos pombinhos era articulada não só pela pequena como também pelo pai, de modo que sua dissolução vinha de encontro aos seus desejos de ascensão, já antes malogrados (vide o Capítulo XVI, O Administrador Interino). Vê-se que tanto o pai quanto a filha padeciam do amor à glória.

capitusds.jpg cena da minissérie Capitu

A prova de que Capitu não lhe tinha amor sincero é que, quando adulta, esqueceu-se da toada do vendedor de doces: “Chora menina, chora porque não tem vintém". Os dois haviam prometido que não a esqueceriam. Mas Bentinho não faltou com a sua palavra também? Sim. Aí é que reside o encanto do livro, porque mostra como as juras de amor do casal não passavam de palavras ao vento. Bentinho, ao menos, teve o cuidado de registrar a partitura posteriormente, a fim de manter as aparências. No caso de Capitu, o esquecimento se deu pelo fato de que a toada lhe remetia a um tempo de privações, de maneira que não havia motivos para preservá-la. Foi uma espécie de obliteração consciente. Fenômeno semelhante ocorre em “Memórias Póstumas”, quando o pai de Brás Cubas “esquece” a origem humilde da família, tentando fazer crer ao filho e à sociedade que eles descendiam de pessoas influentes, por assim dizer, desde sempre. Ora, o mesmo se passou com Capitu que, embora não tentasse alterar o passado de pobreza, também não dava oportunidade ao resgate dessas reminiscências.

Agora, se traiu ou não é algo subjetivo, porque o autor nos dá tantos motivos positivos quanto negativos para crer no adultério. Mas há elementos críveis para aceitarmos a versão do narrador, como, por exemplo, o exílio de Capitu na Europa. Ela não foi para lá preocupada com a educação do filho, mas sim para escondê-lo (com a anuência do próprio marido). Não queriam que os outros chegassem à trágica conclusão. Daí a razão pela qual José Dias não havia recebido nenhum retrato do rapaz, apesar da insistência do agregado. A semelhança de Ezequiel com o finado Escobar não é um delírio do narrador, senhores; mas uma evidência concreta.

Além disso, Capitu tinha uma queda por homens audaciosos e carentes de escrúpulos que sempre conquistam o que almejam. Admirava de sobremaneira Júlio César, aquele que, de acordo com ela, "podia fazer tudo". Bentinho não era um César. No máximo, um Catão. Afinal, o sujeito "descobre" que foi traído e o que ele faz? Resolve acabar com a própria vida. Parece até - com todo respeito aos camaradas lusitanos - aquela piada de português: "Não rias, Maria, a próxima a levar um tiro será você"

Goste-se ou não, há provas robustas contra Capitu. Depois, basta lembrar que até mesmo o Bentinho se apaixonou de certo modo por Escobar, então, por que diabos ela não se apaixonaria também?


Estevão Júnior

Sou um carioca de hábitos simples: gosto de beber cerveja, assistir futebol e ler livros sobre materialismo dialético..
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