Estevão Júnior

Sou um carioca de hábitos simples: gosto de beber cerveja, assistir futebol e ler livros sobre materialismo dialético.

Em defesa da Mallu Magalhães

A patrulha politicamente correta ataca novamente


img-768738-mallu-magalhaes-em-cena-do-clipe-da-musica-voce-nao-presta20170519131495212422.jpg Youtube/Reprodução

Não, meus amigos, vocês não leram errado. Eu, crítico ferrenho da Nova MPB, resolvi sair em defesa de quem julgo ser uma das piores artistas do cenário atual: Mallu Magalhães. Mas é uma defesa circunstancial — continuo detestando a obra dela. Só acho que devemos criticá-la pelos motivos adequados, o que não me parece o caso da polêmica atual. Bem, vamos ao que interessa:

Na última sexta feira (19), a cantora paulista foi alvo de críticas por causa do clipe de “Você Não Presta”, no qual ela dança com um grupo de bailarinos negros. Acusaram-na de racismo pela maneira como retratou os negros no vídeo: com seus corpos besuntados em óleo, poucas roupas e, em certo momento, até supostamente enjaulados. Além disso, ela ainda deu a seguinte declaração a respeito do single: “A escolha da música foi uma necessidade de quebrar o vidro (...), colocar pra fora uma energia de atitude, uma onda tão urbana quanto selvagem".

De acordo com setores do movimento negro, ela acabou sendo — para me servir de um eufemismo — "infeliz" por reproduzir (in)conscientemente estereótipos raciais, reforçando, assim, uma imagem caricatural do negro. Será que ela se serviu desses elementos (exposição do corpo, óleo e grades) de propósito para gerar polêmica? É possível. Mas isso de querer chamar atenção por meios heterodoxos não é necessariamente algo ruim.

Agora, quanto à Mallu Magalhães ser racista...Bem, julgando-a apenas pelo videoclipe, posso afirmar categoricamente que não, Mallu não é racista. Em primeiro lugar, pela constatação de que nenhum indivíduo racista se aventuraria num gênero criado por quem ele mais abomina — salvo o Eric Clapton, é claro. Em segundo lugar, pelo próprio convite aos artistas negros para participar do vídeo. Ou vocês acham que ela os chamou para humilhá-los? Creio que ela resolveu prestar uma homenagem sincera à cultura negra com aquele samba e coreografia, mas foi mal interpretada.

Com efeito, a estética do clipe é um tanto confusa. A "branquela da Mallu" em meio àquela "gente de cor", ou melhor, à frente deles (outro motivo da polêmica) naquele prédio abandonado. Esse contraste racial e quiçá social foi mal digerido por muitos que são engajados nessas questões. Acho que essa polêmica toda tem mais a ver com o fato da Mallu ser branca e da classe média alta. Ora, já assistimos tantos clipes com essa suposta "hiperssexualização" dos negros que, no entanto, não provocaram essa polêmica porque os artistas eram negros.

Há uma patrulha por aí que vê racismo em tudo. Não nego que o Brasil seja um país racista, apenas verifico que a esquerda, na sua ânsia — legítima diga-se — por justiça social, acaba recorrendo a métodos típicos de regimes stalinistas. Só que em vez de acusarem as pessoas de práticas "contrarrevolucionárias", acusam-nas de praticarem atos "machistas", "racistas", "homofóbicos"; em vez de fuzilamento, agora temos o linchamento moral. Menos mal, não?

Li um comentário de um sujeito dizendo que uma pessoa branca não poderia entender a razão pela qual muitos negros ficaram ofendidos com o vídeo. Bem, eu, que sou negro, não me senti ofendido e não entendi também por que outras pessoas se sentiram ofendidas. Talvez o clipe me tenha proporcionado um certo estranhamento em função da estética e do próprio som. Mas só fiquei ofendido pra valer assistindo à Mallu tentando dançar algo parecido com kuduro. De resto, tudo normal. Acho até que o clipe foi progressista, porque finalmente nós podemos ver artistas negros brilhando na cena indie nacional. Essa foi péssima.

Também teve uma vlogueira rancorosa que analisou a letra da música, principalmente os versos do refrão: "Eu convido todo mundo para a minha festa/ Só não convido você porque você não presta." Ela se questionou a respeito de quem seria o "você" da letra. Mal comparando, a indagação dela me remete aos censores da ditadura questionando o Chico Buarque sobre a música "Apesar de Você" A brilhante conclusão a qual a vlogueira chegou após relacionar o clipe e a letra foi que o sujeito em questão era o negro. Ou seja, a julgar pelo verso "Só não convido você porque você não presta" podemos concluir que o eu lírico é uma espécie de Maria Joaquina.

Militantes do movimento negro, bem como os do movimento feminista, LGBT e outros precisam deixar de lado essa postura dogmática e, em muitos casos, até intolerante se quiserem alcançar a simpatia das pessoas alheias a essas pautas. Porém, fazem tudo ao contrário, preferem o embate raivoso, chamando as pessoas que discordam de suas opiniões de racista, fascista, nazista etc. Deveriam se ater à máxima nietzschiana segundo a qual “Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não se tornar também um monstro".

Tantos problemas sérios que os negros enfrentam neste País, e aqueles que acreditam representá-los ficam chorando por causa de clipes e turbantes! Lamentável.

Quanto à musica em si, por incrível que pareça, eu gostei. De início, pensei que fosse um cover de “Lamento no Morro", de Tom e Vinícius. Ela tem um balanço maneiro, com arranjos de metais que nos remetem aos anos 60. Nota-se a pegada samba-rock à la Jorge Ben Jor, artista por quem tenho grande admiração, além de outros ritmos afro. E a voz da Mallu está mais encorpada. Pra quem teve que ouvir — assim como eu — os primeiros discos, é até difícil reconhecê-la. Se o novo disco seguir essa linha, será, por assim dizer, "audível".

É isso, pessoal. Por mim, a Mallu já foi absolvida.


Estevão Júnior

Sou um carioca de hábitos simples: gosto de beber cerveja, assistir futebol e ler livros sobre materialismo dialético..
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