Estevão Júnior

Sou um carioca de hábitos simples: gosto de beber cerveja, assistir futebol e ler livros sobre materialismo dialético.

George Orwell: Um Espírito Livre

Num dos seus brilhantes ensaios, o escritor britânico registra “Se a liberdade significa alguma coisa, será, sobretudo, o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir”.


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Em 1903, na Índia Britânica, nascia um dos maiores escritores do século XX: George Orwell. Referência tanto na maneira concisa de escrever quanto na postura crítica de observar (e lidar com) os fatos. Não era do tipo que tergiversava em relação às suas convicções nem tentava, ao contrário de Bernard Shaw e Sartre, justificar o mal para dar consistência a seus ideais. Por esse motivo, ganhou tanto admiradores quanto adversários.

Sua obra mais conhecida, "1984", é um libelo anti-totalitarista. Leitura indispensável para quem se interessa pelas estruturas de poder e política de um modo geral. O livro narra as desventuras de Winston Smith e sua parceira Júlia numa sociedade na qual todos são vigiados pelo Estado, representado pelo Partido e seu líder, o Big Brother (Grande Irmão), este que simboliza o poder absoluto e cuja própria existência é questionada em certo momento da narrativa. Para terem um controle total sobre os indivíduos, os burocratas criaram este ser onipotente (personificação do Partido) que vigia tudo e todos ao mesmo tempo. Neste caso, a maior façanha deles foi convencer as pessoas de que o diabo existia.

No romance, há uma sessão de cinema diária chamada “Dois Minutos de Ódio”, na qual as pessoas assistem imagens de Emanuel Goldstein, um personagem subversivo, e durante a qual são tomadas por um ódio irracional. Associa-se o personagem a todos os males do mundo. Podemos traçar um paralelo entre canais extremistas, que semeiam ódio, e aquela exibição. Dizem: "abaixo isto ou aquilo", "morte a este ou aquele", e o povo, como se estivesse em transe (a exemplo de 1984), a repeti-los, sem qualquer julgamento crítico.

Já em Revolução dos Bichos (Animal Farm), que ele teve a ideia de escrever depois de assistir uma cena de exploração de animais, Orwell nos oferece um quadro do que foi o regime soviético. Parece a versão estalinista de Baby O Porquinho. Brincadeiras à parte, o livro é uma sátira aos acontecimentos que sucederam a Revolução Russa (1917). Os personagens fazem alusão a ícones daquele período ou que os influenciaram, como é o caso de: Major (representando Karl Marx), Napoleão (Stálin) e Bola de Neve (Trótski);os capitalistas são representados pelos seres humanos.

É deste livro a máxima “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros", em referência aos privilégios aos quais os porcos (aludindo à burocracia soviética) tinham direito. Aliás, um dos motivos pelos quais não queriam editar o livro na Inglaterra foi justamente o fato de o autor retratar os dirigentes russos como porcos. E por que isso incomodava os ingleses? Pois na época, ou, para ser mais preciso, durante a Segunda Guerra a Inglaterra e URSS eram "aliadas". Apesar de ser uma fábula satírica, à maneira de Jonathan Swift, o romance ganha contornos melancólicos. Talvez porque ele nos apresente um retrato irônico do século passado, onde os grandes ideais foram subvertidos, dando lugar a novas formas de opressão.

Anarquista ou Conservador?

Há uma certa discussão no que diz respeito a posição onde George Orwell se encontraria no espectro político. Suas principais obras fazem parte da “cartilha liberal”, ao lado das obras de Ayn Rand e Mises. A direita diz que ele era conservador; denominam-no anticomunista. Com efeito, ele era um grande crítico do sistema implementado na ex-URSS. Ao mesmo tempo, Orwell se opôs ao fascismo e nazismo, isto é, movimentos de extrema direita (lá vem a choradeira), e ao imperialismo.

Orwell também foi acusado de ter delatado simpatizantes de esquerda para o serviço secreto inglês. Mas essas denúncias carecem de provas. Salvo engano, desde a Revolução Gloriosa (1688-1689) nunca mais se perseguiu ninguém por manifestar suas crenças políticas na Inglaterra. Não foi em Londres que o Velho Barbudo pôde escrever sua obra "O Capital" tranquilamente? Essa ideia de que Orwell era "entreguista" não passa de teoria da conspiração. É mais fácil crê que Lênin trabalhou como agente alemão durante o governo provisório da Rússia revolucionária, o que justificaria o Tratado de Brest-Litovski. Aliás, quando Orwell disse que a maneira mais rápida de acabar com a guerra é perdê-la, talvez estivesse pensando em Lênin.

A esquerda, por sua vez, diz que Orwell era socialista (trotskista ou anarquista, a depender de quem o analisa). Bem, ele era favor do que se convencionou a chamar de “socialismo democrático” ou "Fabiano", que seria uma espécie de "versão inglesa" (leia-se aristocrática e paternalista) do socialismo. Outro expoente dessa ideologia foi o matemático e filósofo Bertrand Russel, que, assim como Orwell, era cético em relação à revolução proletária. É compreensível. Se os ingleses não consentem nem mesmo com uma alteração no horário do chá, o que dirão de uma revolução política?

À parte suas preferências ideológicas, o escritor britânico tinha motivos de sobra para desconfiar de qualquer movimento que se pretendia reformar o mundo. Viveu o período conturbado que compreende a Primeira (1914-1918) e Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Presenciou o surgimento do fascismo, do nazismo e a degeneração dos princípios socialistas pelo stalinismo. Além de ter participado da Revolução Espanhola (1936-1939), a qual registrou em seu livro Lutando Na Espanha ou Homenagem a Catalunha, e de quase não ter sobrevivido a ela - foi ferido por um tiro na garganta. Como se não bastassem as milícias franquistas, ainda fora perseguido pelos comunistas espanhóis subordinados a URSS. Todos esse eventos ajudam a explicar sua crítica à ortodoxia.

É preciso suportar com paciência a opinião (divergente) do próximo

Num dos seus brilhantes ensaios, o escritor britânico registra “Se a liberdade significa alguma coisa, será, sobretudo, o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir”. Essa frase sintetiza o pensamento orwelliano. Orwell tinha apreço pelo legado liberal principalmente no que tange à tolerância. Nesta época sombria da humanidade, onde cada qual se acha o portador da verdade, há a necessidade de resgatar esses valores, que há muito parecem ter sido esquecidos.

Orwell foi um revolucionário no sentido de que se propôs a contar a verdade sobre os totalitarismos do séc XX - sem exceção- , em vez de se omitir como grande parte dos intelectuais da época. Como diz aquela frase atribuída a ele: "em tempos de embustes universais, dizer a verdade se torna um ato revolucionário". Além disso, atreveu-se a alertar as pessoas sobre o risco dos países tornarem-se estados policiais caso as pessoas - sobretudo as esclarecidas - condescendessem com as arbitrariedades dos regimes despóticos.

Alguns críticos "modernos", muitos dos quais stalinistas, demonizam George Orwell, seja tachando-o, por exemplo, de homofóbico e misógino ou mesmo acusando-o de fazer o jogo da direita. Essas críticas não deixam de ter sua parcela de verdade. Apesar disso, o seu legado permanece inabalável.


Estevão Júnior

Sou um carioca de hábitos simples: gosto de beber cerveja, assistir futebol e ler livros sobre materialismo dialético..
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