Estevão Júnior

Sou um carioca de hábitos simples: gosto de beber cerveja, assistir futebol e ler livros sobre materialismo dialético.

O controverso legado musical dos Los Hermanos

"Segunda é um dia tão chato que deveria se chamar Los Hermanos". É um meme divertido, embora exagerado. Afinal, eles não são tão chatos assim. E, para o bem e para o mal, deixaram seus frutos.


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No fim dos anos 90, surgiu a banda carioca Los Hermanos que ficaria conhecida pela mistura de indie rock com MPB. Com eles geralmente é assim: ou você ama ou odeia. Na minha modesta opinião, é uma banda monótona que, não obstante, compôs algumas músicas boas como “O Vento", “De Onde Vem a Calma" entre outras. Todavia, não consigo escutar aquela "choradeira" por muito tempo, ao contrário dos seus fãs esquisitos e depressivos (com os quais, devo admitir, tenho certas afinidades) já calejados de tanto sofrimento.

A meu ver, o vocalista e guitarrista Marcelo Camelo é superestimado em todos os sentidos. Seus fãs já chegaram a compará-lo com Renato Russo, grande poeta do rock nacional, e Chico Buarque, o mestre da MPB. Uma insensatez. Camelo só sabe escrever músicas sobre relacionamentos e frustrações pessoais, ao passo que Chico e Renato compunham tanto canções de amor quanto de protesto, além de serem exímios cronistas; faziam uma musica conectada com sua época, que dizia algo ao povo, sobretudo, à juventude. Esse desinteresse do Camelo pelo mundo ao redor e sua postura blasé indicam que é incapaz de olhar para além do próprio umbigo.

Não nego que ele tenha lá seus méritos. Quais? Por exemplo, o que mais gosto no Marcelo Camelo é que mesmo não sabendo cantar nem tocar violão/guitarra ainda assim é capaz de criar coisas interessantes e arregimentar uma legião de seguidores. Apesar disso - ou por isso mesmo - ele está longe de ser um gênio como querem fazer crer seus fãs.

O multi-instrumentista e também cantor Rodrigo Amarante - outro que vive numa torre de marfim - é o grande compositor dos Los Hermanos. Ele assinou alguns dos maiores clássicos da banda como "Sentimental", "O Vento" e “Último Romance". Acho que a banda acabou justamente por conta do ciúme que Camelo tinha do Amarante. É uma boa hipótese. Não teve uma Yoko Ono na história nem nada disso, afinal, a Mallu Magalhães só entrou na vida de Marcelo em 2008, quando ela tinha quatorze ou quinze anos. Aliás, se por acaso a Mallu deixá-lo, Marcelo poderá encontrar uma substituta no The Voice Kids para, pelo menos, fazer duetos com ele na Banda do Mar. Bem, pensando melhor... creio que seja uma péssima ideia!

Não se pode negar que eles faziam um som único. Algo como o Caetano tocando The Strokes ou o Wezzer fazendo cover de Nara Leão. Em tese, as comparações são absurdas, mas apenas em tese. Essa mistura de rock com samba, marchinhas e outros ritmos latinos é interessante, embora não seja propriamente original, vide Paralamas do Sucessos e Novos Baianos. O maluco do Lobão disse de forma sarcástica que se antes o som deles era um hardcore, tornou-se depois um pastiche de Maria Bethânia. Está certo. No entanto, a mudança foi positiva. Foram da água pro vinho - vá lá, vinho barato.

Do primeiro álbum deles, "Los Hermanos" (1999), a faixa que se destaca é "Anna Júlia". Não entendo o porquê deles terem deixado de tocá-la durante tanto tempo. Ninguém nega que seja uma musica chiclete sem grandes qualidades, mas é a melhor do álbum (até porque ele é horrível). Depois, foi o single que os projetou internacionalmente. Basta recordar que até o ex-beatle, George Harrison, fez uma regravação dela. O produtor deles na época, Rick Bonadio, que, inclusive, chamou os integrantes de "playboys da Barra da Tijuca", não compreende o fato deles cuspirem no prato em que comeram. Não fosse "Anna Júlia" eles estariam tocando até hoje em festas estudantis da PUC-Rio.

Os três álbuns seguintes "Bloco do Eu Sozinho" (2001), "Ventura" (2003) e "4" (2005) são, de certo modo, equivalentes entre si pois trazem consigo um senso de unidade em suas propostas. Ouve-se alguns resquícios de Bossa Nova nas canções, estas com bons arranjos e algumas letras ingênuas, que se não são, por assim dizer, obras primas, não chegam a ser ruins. As músicas desses discos, a maioria das quais marcada pelo tom melancólico, fizeram com que a banda ganhasse o singelo apelido de "Loser Manos". No mais, são álbuns razoáveis, bem produzidos, que ora nos remetem à arte elevada, ora nos remetem ao puro kitsch.

Régis Tadeu, polêmico crítico musical, observa que eles fizeram "um tremendo mal não só ao rock nacional, mas à música brasileira" por inspirarem "uma geração inteira de clones patéticos". Apesar de Régis falar muita merda, ele está certo nesse ponto. Sob a influência do grupo carioca, apareceram Vanguart, Mallu Magalhães, Cícero, só pra citar os mais famosos. Excluindo um ou dois artistas, esta "Nova MPB" é chatíssima. Esses “indies” (filhotes dos barbudos) tocando guitarras acústicas fazem dar razão ao nosso Nelson Rodrigues: "O que se está fazendo aqui é uma música popular brasileira que não é popular, nem brasileira e vou além: - nem música". Então, Marcelo Camelo e cia deveriam fazer um mea-culpa? Não. Uma vez que eles não têm responsabilidade direta por essa onda alternativa. A História os absolveu.

Vejam bem, amigos: não odeio os barbudos. O Los Hermanos - eu reconheço - também contribuiu de forma positiva para a musica brasileira. Tanto quanto o Raça Negra. Creio até que o grupo de pagode tenha contribuído de forma mais significativa - mas isso não vem ao caso. Enfim, o grande legado dos Los Hermanos foi ter criado algo similar à "sofrência sertaneja", mas de forma acessível aos intelectuais (pseudos ou não), universitários e porra loucas. Poder ouvir toda essa breguice e ainda parecer cool. Não devemos menosprezar isso.


Estevão Júnior

Sou um carioca de hábitos simples: gosto de beber cerveja, assistir futebol e ler livros sobre materialismo dialético..
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