Estevão Júnior

Sou um carioca de hábitos simples: gosto de beber cerveja, assistir futebol e ler livros sobre materialismo dialético.

Os novos caminhos da música brasileira. Ou: Uma crítica à Nova MPB

Mas afinal que diabos houve com a nossa música?


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Antes de falar sobre os rumos da música "popular" brasileira atual, há que se falar na velha MPB. Mas o que quer dizer exatamente MPB? Discorrer sobre o assunto é difícil porque a própria definição do gênero, que teve origem nos anos 60, é imprecisa. Se fôssemos levar os termos ao pé da letra (Música Popular Brasileira), artistas como Anitta, Wesley Safadão e Marília Mendonça é que deveriam ser enquadrado neste estilo, o que, como sabemos, não ocorre. O que se convencionou a chamar de MPB é, na verdade, uma música composta por artistas de classe média e cuja base está assentada na música dita de raiz (seja o samba, jongo, baião etc.), porém, com um certo refinamento no que diz respeito às letras, harmonia, melodia.

O conceito de MPB não é apenas estético, mas também ideológico. Veja o caso do samba, muita gente de sangue azul torcia o nariz para o gênero, até que Tom Jobim e cia aplicaram um verniz nele, criando, assim, a Bossa Nova, e o que antes era associado ao populacho passou a ser sinônimo de bom gosto. Mas por que isso ocorre? Ora, as classes mais altas não podem apreciar uma criação autêntica das classes pobres — pelo menos não sem sentimento de culpa — sem que antes ela passe por uma espécie de edição, isso devido a um senso de superioridade que se manifesta entre os mais ricos (a bem da verdade, em todos nós). Daí se pode concluir porque estilos como forró, pagode, funk, sertanejo universitário e axé serem tão mal vistos pela elite. Podem até ouvi-los no You Tube, porém, com fones de ouvido, e até dançarem em festas, sob o pretexto de estarem bêbados.

De qualquer modo, o resultado dessa reestruturação das manifestações culturais populares por determinada classe social trouxe-nos muita coisa boa: Chico Buarque, Tom Jobim, Gilberto Gil, João Bosco, Elis Regina, Caetano Veloso, etc. Esses artistas valorizavam as raízes populares de modo que o próprio povo (refiro-me ao povão) os aceitou. E a prova cabal disso que muitos desses artistas ainda são, em maior ou menor grau, apreciados e muito tocados nos botecos pés de chinelo, nas rodas de samba e noutras festas populares. Só não entendo por que nós, brasileiros, que tínhamos à disposição um cardápio tão variado e rico, com tanta gente boa para ouvir, temos que nos contentar, hoje, com a Banda mais Bonita da Cidade, Thiago Iork, Clarice Falcão, Silva, Cinco a Seco e afins.

Mas de onde surgiu essa gente? O surgimento desses artistas 'indies" está relacionado com o enfraquecimento das gravadoras nas últimas décadas e com os avanços tecnológicos que permitiram às pessoas gravarem seus próprios discos caseiros, além do surgimento do You Tube, Facebook, blogs e outros canais de comunicação através dos quais muitos pobres diabos (do ponto de vista artístico, é claro) saíram do anonimato, seja em virtude da divulgação de um disco, um clipe que viralizou, uma ideia compartilhada ou por qualquer outro motivo.

Apesar desses artistas "moderninhos" terem suas particularidades, todos eles apresentam elementos em comum uns com os outros, de modo que podemos dividi-los em dois grupos: 1) os "vanguardistas", que se destacam pelo caráter experimental (explorando dissonâncias, ruídos e flertando com a música eletrônica) e, em alguns casos, pela forma de cantar à la Camelo/Amarante, ou seja, como se estivessem embriagados ou sob efeito de medicamento. 2) os "tchubaruba", que abdicam de uma harmonia mais desenvolvida para dar vez aos acordes simples no violão (aqueles que aprendemos com algumas semanas de aula) e que fazem uma música mais solar, com muito açúcar e afeto. A Nova MPB é, pois, um tanto bipolar esteticamente falando; quer dizer, ou as músicas são marchas fúnebres pós-modernas ou são verdadeiras cantigas de roda.

Bem, exponho agora minha modesta opinião (é sempre bom frisar isso) a respeito de alguns desses artistas.

Cícero

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Cícero trabalha com um conceito minimalista, cuja premissa é menos é mais; Isso pode se verdade para um Erik Satie, mas no caso do Cícero, menos é menos mesmo. A forma como ele "canta" em Canções de Apartamento (2011) lembra um paciente em estado terminal. No que se refere ao som, ele criou uma espécie de música ambiente na qual tudo foi reduzido ao mínimo para que pudesse recitar suas "poesias". Não sei se me explico. Bem, é uma versão piorada do Radiohead. Claro, com algum apelo à "brasilidade", condição sine qua non para entrar no seleto clube da MPB. Seu segundo álbum, Sábado (2013), é ainda pior. Neste, tudo soa falso, pedante, irritante. Algumas letras como "Capim-limão" e "Asa Delta" são tão subjetivas que só fazem sentido na cabeça do autor, embora os seus fãs encontrem milhares de significados nelas. Cícero é o que as más línguas costumam chamar de "poeteiro".

5 a Seco

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Quanto ao 5 Seco, eles fazem um trabalho com alguma qualidade, talvez por beberem na fonte de artistas como Lenine e serem músicos extremamente técnicos. Se alguns momentos se aproximam da MPB tradicional, em outros se mostram mais próximos do Jazz e Rock. O problema da banda que não criou nada memorável. Não consigo lembrar o nome de uma música sequer deles, a não ser "Gargalhadas", pois foi a reação que tive após ouvi-la. A impressão que se tem é que eles saíram do conservatório e querem mostrar tudo o que aprenderam, então fica um trabalho mecânico e sem sal. Grupos iguais e até melhores (ou menos ruins) do que 5 a seco existem aos montes. Não sei se é implicância, mas a razão pela qual eles se destacaram da turba escapa à minha compreensão. Talvez tenham as costas quentes.

Clarice Falcão

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A Clarice Falcão pode ser boa atriz, bonita e tal, mas em matéria de música é uma negação. Não sabe cantar, nem tocar violão nem escrever uma letra. Nada. Nem sei nem se isso que ela faz (canções de três acordes, melodias pueris e letras ginasiais) é música, seja ela brasileira ou de qualquer outra nacionalidade. A despeito da falta de talento, a moça insiste em gravar seus desabafos, os quais só devem fazer sentido para garotas (leia-se adolescentes, patricinhas e pseudofeministas). Acho difícil um homem entrar no bar, pedir uma cerveja e colocar bobagens como "Monomania" e "Eu Esqueci Você" na máquina jukebox (até porque nem deve ter). Enfim, para Clarice a melhor saída é a porta dos fundos.

Marcelo Jeneci

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Marcelo Jeneci é, às vezes, bom compositor. Como assim? Digamos que ele tenha seus lampejos de criatividade. "Pra Sonhar", "Felicidade", e "Dar-Te-Ei", por exemplo, são legais (apesar do título ridículo da última). Se no primeiro álbum, Feito pra Acabar (2010), há algumas faixas que nos despertam alguma atenção, já não podemos dizer o mesmo do segundo, De Graça (2013), que é uma sequência de músicas Pop — com o perdão do trocadilho! — bastante sem graça. O maior defeito de Jeneci é que suas obras são de uma ingenuidade que não tem par na história da MPB. Em meio à crise política/econômica no Brasil, à iminente guerra nuclear entre EUA e Coreia do Norte, ao terrorismo islâmico, o Marcelo fica versando sobre estrelas, arco íris, unicórnios etc. Todavia, ele me surpreendeu num show, na Praça Mauá, durante o qual gritou "Fora Temer" e, em seguida, até ensaiou um som mais agressivo. Mas o que eu acreditava que seria uma música de protesto veio se revelar algo que lembrava a Judy Garland no Mágico de Oz.

A Banda Mais Bonita da Cidade

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A Banda Mais Bonita da Cidade conta com bons músicos e com uma vocalista, Ulyara Torre, que não é das piores. Pode-se dizer que eles são eficientes naquilo que se propõem a fazer, uma espécie de MPB-neo-indie. Mas apesar desses atributos serem condições necessárias para se fazer boa música, não são suficientes. Além de cometerem alguns plágios como na música "Canção pra não mais voltar" — que conta com o dedilhado de "Let Down" do Radiohead e um refrão cujas notas me remetem à “Dia de Chuva" do grupo de pagode Alô Som —, a Banda sofre do mesmo mal do Jeneci, qual seja, ser muito "gay"; não no sentido de ser homossexual (não sou tão preconceituoso assim), mas de ser alegre, mas alegre do tipo: "Os Ursinhos Carinhosos". Faz falta à MPB algo parecido com pérolas (sarcásticas/irônicas) como "Rock das Aranhas" ou "Deus lhe Pague". Não dá pra esperar isso da Banda Mais Gay da Cidade.

Mallu Magalhães

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Arthur Rimbaud, poeta francês, dizia que ninguém é sério aos 17 anos; já a Mallu Magalhães não é seria com qualquer idade. Não dá pra negar que a Mallu seja uma garota muito "criativa", dado o seu interesse precoce em compor. Só que as músicas dela são muito chatas. Mais: Ela tem uma voz irritante, qual a de uma criança. Acho que já fiz uma piada em relação a isso, não? Mallu se saia melhor quando cantava seus folk rock infantojuvenis, gênero com o qual se identificava; agora, por influência do Marcelo Camelo, ela tenta tocar samba, bossa nova e derivados. Um desastre. É interessante notar que o New York Times e a Rolling Stones chegaram a elogiá-la, creio que por ocasião do primeiro disco. Que posso dizer? Eles estão errados, eu estou certo.

Sei que tem muitos artistas dessa nova geração sobre os quais não falei (Vanguart, Céu, Thiago Iork, Tulipa), mas aí teria que ouvi-los atentamente...o que seria um suplício desnecessário.

Encerro

A minha critica a essa gente não se deve tanto ao som em si, pois todo artista deve ser livre para fazer o que bem entender. Até mesmo música ruim. O que não concordo é com essa postura individualista, indiferente e alienada destes "indies" que se julgam os representantes da música popular moderna ao mesmo tempo que acham cool estarem longe das massas. Aliás, é execrável essa pretensão deles acharem que fazem MPB, quando fazem uma música extremamente antipopular. Eu até gostaria de convidá-los a fazer uma visita aos botecos da Lapa e percorrer as ruas de Madureira e outros bairros cariocas pra que conhecessem a música popular de verdade. Mas aí eles teriam que deixar o conforto dos apartamentos.

Quem diria? Brasil outrora tão rico em matéria de música passa por uma das suas piores fases. É uma pena. A nossa música já foi tão bonita.


Estevão Júnior

Sou um carioca de hábitos simples: gosto de beber cerveja, assistir futebol e ler livros sobre materialismo dialético..
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