Estevão Júnior

Sou um carioca de hábitos simples: gosto de beber cerveja, assistir futebol e ler livros sobre materialismo dialético.

Será que a estupidez de Danilo Gentili tem limite?

Gentili luta pelo direito "legítimo" de poder chamar negros de macacos, os gays de veados, as mulheres de putas, os muçulmanos de terroristas etc, etc. É um pulha!


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Nunca pensei que algum dia escreveria sobre o Danilo Gentili. Afinal, sempre o considerei um péssimo comediante e, por extensão, um ser execrável. Aliás, salvo um ou dois humoristas, nunca vi muita graça nesta nova geração. Poderia ignorá-lo, mas como se aliou ao MBL e ao filósofo Olavo de Carvalho, assumindo, assim, o posto de porta voz das elites conservadores, ele se tornou, por assim dizer, um adversário político. E tendo em vista que ele dispõe de grande espaço nos meios de comunicação, através dos quais ele influencia pessoas imaturas politicamente, deixando-as mais alienadas do que já são, resolvi criticá-lo.

Quanto ao seu trabalho, seu grande mérito — se é que podemos falar dessa maneira — foi copiar a estrutura dos talk shows e stand-up americanos. Os brasileiros sempre foram paga paus dos gringos, não é? O senhor Danilo Gentili é terrível tanto artisticamente quanto politicamente. Suas piadas carecem de uma reflexão interessante e quase sempre apelam aos baixos instintos de uma fração da classe média não só preconceituosa como também rancorosa por seus representantes terem sido destituídos do poder (mas agora elas assumiram as rédeas de novo).

Contudo, não estou aqui para acusá-lo de ser politicamente incorreto, tal como muitos dos seus detratores fazem, pois creio que muitas vezes a graça está, de fato, naquilo que não pode ou não deveria ser dito, mas que inevitavelmente passa pela cabeça da gente. A ideia de que possa existir um ser humano livre de preconceitos é tão ingênua quanto ridícula. O comediante, e falo de um modo geral, sempre se serviu (e sempre se servirá) dos estereótipos bem como das ideias preconcebidas para fazer humor. Mas isso não quer dizer que ele tenha carta branca para dizer tudo que pensa em qualquer situação. Ninguém tem esse direito.

Acho que falta ao senhor Gentili não apenas bom senso — os comediantes não costumam tê-lo —, como inteligência para o humor. Além disso, há uma diferença entre uma piada provocativa e a baixaria. Querem um exemplo? Vejam uma polêmica recente na qual ele se envolveu. Ele rasgou uma intimação judicial da Maria do Rosário (PT-RS), esfregou os pedaços nas partes intimas e depois os enviou pelo correio para deputada. Não satisfeito de tanta babaquice, ainda debochou: "Eu pago seu salário, então eu decido se calo ou não sua boca, nunca ao contrário". A ideia de que você pode mandar uma pessoa se calar pelo simples fato de lhe pagar um salário é de uma estupidez enorme.

Danilo esqueceu-se de crescer. Ele se comporta tal qual uma criança praticando bullying no colégio. Uma criança para quem a palavra limite não existe. Ainda mais se for em relação aos seus desejos. Seus alvos preferenciais permanecem sendo os mesmos da época da escola, isto é, todos os que se distanciam do padrão de beleza ocidental: os feios, magros, gordos, pretos, amarelos, índios. Mas agora encontrou outros alvos: socialistas, feministas, militantes LGBT etc. Quando os "adultos", isto é, as autoridades lhe chamam a atenção, ele trata logo de lhes dizer que estava brincando. Por que diabos, afinal, deveríamos responsabilizar uma criança de quase 40 anos pelas suas criancices?

Acha-se uma espécie de herói orwelliano que luta contra um fictício estado totalitário. Um guerreiro a favor da liberdade de expressão, direito o qual, segundo ele, estaria sendo ameaçado no Brasil. Isso num País onde se publicam livros como Lula, Minha Anta e Honoráveis Bandidos — Um retrato do Brasil na era Sarney. Mas não vamos cortar o barato do Gentili. Deixemo-lo cultivar seu delírio quixotesco.

Gentili luta pelo direito "legítimo" de poder chamar negros de macacos, os gays de veados, as mulheres de putas, os muçulmanos de terroristas etc, etc. É um pulha! Vejam bem, eu sou a favor da liberdade de expressão e já me utilizei de vários desses termos e — até piores — em certas ocasiões (quem nunca?). Mas tinha um contexto. Acho que as palavras por si mesmas não são ofensivas; são ofensivas a depender de quem e de como as utiliza. Por exemplo, se uma pessoa branca chamar uma pessoa negra de macaco é bem capaz de ser processada; mas já vi dois sujeitos negros se chamando assim com uma naturalidade que assombrava. Da mesma forma que vi gays se chamando de bichas, as mulheres se chamando de piranhas e os homens de putos; todos eles com um sorriso no rosto. Creio que havendo consentimento, OK. Não acho que seja o caso do Gentili, cujo único objetivo é agredir minorias, com as quais ele não tem nenhuma empatia, e, com isso, conseguir aplausos fáceis dos reacionários de última hora.

Essa questão de identificação também é fundamental. Por exemplo, nunca vi ninguém fazer mais piadas racistas sobre negros do que o afro-americano Chris Rock. Isso para uma plateia em sua maioria de negros, todos os quais alegres e felizes. Agora se fosse o Bill Burr contando as mesmas piadas creio que eles se sentiriam no mínimo desconfortáveis. Já reparam também, senhoras e senhores, que nós brasileiros vivemos esculhambando o Brasil, mas quando os gringos dizem que o Brasil é uma bosta, nós partimos logo pro ataque? Não é questão de hipocrisia, e sim em saber onde você tá pisando e com quem tá mexendo. Do contrário, pode-se acabar igual aos jornalistas do Charlie Hebdo.

Repito: tudo depende do contexto. Gilbert Gottfried, comediante americano, aprendeu essa lição na prática ao ser vaiado após fazer piada com o 11 de Setembro, uma semana depois do fatídico atentado. O sarcástico Voltaire — e era o Voltaire! — em reprimenda a D'Lambert (matemático que exortara o filósofo francês a escarnecer das perseguições religiosas, as quais ocasionaram a morte de dois protestantes, Jean Calas e La Barre) disse seriamente: "o espírito não rima bem com massacre". E enojado com toda situação foi além "Durante esse tempo não me escapou um sorriso que não me parecesse um crime". Está claro que há um limite para o humor, embora esse limite não esteja bem definido.

Mas voltando ao Gentili, se o nosso Bill Maher de direita ficasse só com as piadas ruins, não haveria tanto problema. Afinal, cada um faz a merda que achar melhor. Mas ele resolveu iniciar um discurso raivoso contra os políticos, o que também não seria ruim, não fosse pelo fato de ele ter escolhido um lado. Se ele quer ser o iconoclasta, deveria criticar todo os políticos sem distinção, não importa se é de direita ou esquerda. Aí eu poderia até quem sabe apreciá-lo, mesmo ele sendo um pulha. Como se não bastasse tudo isso, ainda é um grande hipócrita. Ele, que apoiou, ao lado de outros comediantes, o impeachment da Dilma, agora se cala ante o governo corrupto de Michel Temer. Indignação seletiva não dá, né?

Quanto à pergunta que dá título ao texto "Será que a estupidez de Danilo Gentili tem limite?", creio que a resposta seja não. Digo isso porque estou de acordo com a célebre frase de Einstein: — "Somente duas coisas são infinitas: o Universo e a estupidez humana. E não estou seguro quanto à primeira".


Estevão Júnior

Sou um carioca de hábitos simples: gosto de beber cerveja, assistir futebol e ler livros sobre materialismo dialético..
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