Estevão Júnior

Sou um carioca de hábitos simples: gosto de beber cerveja, assistir futebol e ler livros sobre materialismo dialético.

Tom Jobim, o maestro soberano

"Parece que eu tentei harmonizar o mundo. O que é evidentemente uma utopia" - Tom Jobim


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Antônio Carlos Jobim (1927-1994) nasceu no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro, e é um dos grandes compositores do século XX. Junto a João Gilberto, Vinícius de Moraes e Johnny Alf, ele criou uma das maiores expressões da música contemporânea: a Bossa Nova - espécie de samba incorporado ao jazz com alguns toques de música clássica, sobretudo, a impressionista. Por meio de sua obra, atemporal e universal, Tom Jobim tornou-se um divulgador da cultura brasileira pelo mundo afora, cantando as belezas de nossas terras, em especial as do Rio.

As composições jobinianas soam modernas até hoje, não só pelo fato de o maestro ter adicionado novos elementos ao samba tradicional, como também pelo bom gosto no que diz respeito à escolha de notas, o que o diferencia dos compositores modernos (incluindo aí os eruditos) os quais, ao que tudo indica, estão empenhados numa árdua missão: destruir a música. O segredo de Tom é este: por um lado, melodias simples e belas, por outro, uma riqueza harmônica só comparada aos maiores compositores de todos os tempos. Sem falar na famosa batida sincopada que só poderia ter sido desenvolvida cá no Brasil.

Sua carreira teve origem nos bares e boates de Copacabana, nos chamados "inferninhos", onde ele tocava piano. Nesta época, mal conseguia pagar o apartamento. A sorte de Tom começaria a mudar ao ser contratado para fazer alguns arranjos pela gravadora Continental, em 1952, e, depois, pela Odeon, onde assumiu o posto de diretor artístico. A partir do seu encontro com o poeta Vinicius de Moraes, com quem compôs, entre outros clássicos, "Chega de Saudade", marco inaugural da Bossa Nova, sua carreira deslancharia.

Entretanto, a Bossa Nova, enquanto movimento artístico, não sobreviveu ao tempo. O que é compreensível. Afinal, a Bossa, tal qual a concebemos, era Vinicius com uma caneta, Tom Jobim ao piano e João Gilberto ao violão (deste último o lema deveria ser: um violão na mão, uma ideia na cabeça e seja o que Deus quiser). Os que sucederam a essa geração de 50 não tinham nem metade do talento desses artistas.

Polêmicas

Tom não esteve livre de críticas. A maior delas foi feita pelo Tinhorão, que o acusava de plagiador. De acordo com o pesquisador, por quem tenho profundo respeito, Jobim sequer era compositor, e sim arranjador. Exageros à parte, pode-se, sim, verificar certa semelhança entre clássicos do compositor carioca com algumas obras clássicas ("Insensatez" e "Prelúdio em Mi Menor [opus 28 n°4]" de Chopin; "Chovendo na Roseira" e "Reverie" de Debussy). Mas isso diminui o mérito do nosso maestro? De maneira alguma. O artista, durante o processo criativo, está de tal modo absorvido por sua arte que às vezes toma construções (melódicas, harmônicas e rítmicas no caso de um músico) de outrem como suas. Ás vezes, é bem verdade, o faz de maneira consciente, mas quase sempre com um propósito estético o qual passa bem longe de um simples plágio. Na verdade, o que se pretende, em muitos casos, é estabelecer relações entre uma obra e outra.

Além disso, alguns dizem que a música de Tom sofreu um processo de "americanização" durante o tempo em viveu nos EUA, o que fez com que o compositor regravasse suas próprias músicas em inglês. Ora, mas isso se explica pelo fato de que sua música teve enorme aceitação na terra do Tio Sam, coisa que aparentemente não ocorreu no Brasil. Basta lembrar da vaia histórica que ele e o Chico Buarque sofreram após "Sabiá" ter vencido o Festival Internacional da Canção, em 68. Depois, em sua música já havia toques de música americana, sobretudo do Jazz, um dos gêneros musicais mais revolucionário do séc. XX.

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A capacidade de sintetizar o melhor dos dois mundos (Brasil, Estados Unidos) em suas canções é uma das façanhas de Jobim. Quando boa, a arte é sempre universal. Vejam o caso de Beethoven; ele não fazia essencialmente música alemã ou austríaca ou relativa à qualquer outra nacionalidade, e sim musica pura, a qual ele tornava palatável a todos os povos. O mesmo ocorre com Tom, seu talento ultrapassa as fronteiras. Que o digam os japoneses que gostam mais da Bossa Nova do que os próprios brasileiros. Um jornalista, cujo nome me escapa à memória, chegou a dizer que até mesmo na ex-URSS se ouvia as músicas do autor de "Desafinado".

No Brasil, em contrapartida, o seu nome só é lembrado por um grupo seleto de pessoas, em geral, da classe média. Aliás, eu achava que era a única pessoa a apreciá-lo aqui no subúrbio do Rio até ver e ouvir um sujeito na rua, que, a julgar pelas vestes, devia ser um mendigo, tocando "Corcovado" do Tom. Quase o convidei para criarmos um blog. É até compreensível esse desinteresse dos brasileiros pela MPB, dado o poder que a indústria cultural exerceu sobre o gosto das pessoas durante todos esses anos. É bem verdade que hoje elas tem mais facilidade para ouvir musica - graças à democratização cultural provocada pelo surgimento da internet -, mas foram tão condicionadas ao produto enlatado que, ao ouvirem uma harmonia mais sofisticada, sentem até um certo estranhamento. Em função disso, muitos especialistas em música e educação defendem o ensino obrigatório de música nas escolas, com o que estou de acordo. O povo brasileiro é tão ignorante que precisamos ensiná-lo a apreciar sua própria música.

Voltando ao Tom, dizem também que, como cantor, ele era um excelente compositor. Who cares? Quem compõe algo como "Águas de Março" ou "Wave" precisa saber cantar?

Saravá maestro!


Estevão Júnior

Sou um carioca de hábitos simples: gosto de beber cerveja, assistir futebol e ler livros sobre materialismo dialético..
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