diários de um gay paulistano

Casos, amores, paixões, putarias, liberdade vivida e exercida.

Luca Vegga

Pobre é o homem cujos prazeres dependem da permissão de outros.

Adriana Calcanhotto para libertinos

Novas possibilidades amorosas e sexuais emergem das músicas de Adriana Calcanhotto, uma auto-declarada 'pansexual monogâmica' que há tempos já nos convidava a comer Caetano.


adriana globo dot com.jpg crédito da imagem: globo.com

Daquelas coincidências que você só percebe depois...

Eu já queria escrever um texto chamado Marina Lima para Libertinos. É um pouco maior e está sendo escrito aos poucos, à medida que visito o vasto (e maravilhoso) repertório dela.

Só que hoje ao acordar, não sei ao certo o porquê, me lembrei de algumas músicas da Adriana Calcanhotto e tive vontade de fazer um texto com o mesmo título.

A wikipedia faz referência ao termo libertino para falar de pensadores e literatos europeus que a partir do século XVIII passaram a negar a moral dominante da época, em especial a sexual, elegendo como objetivo de vida a busca do prazer pessoal.

Ao buscar trechos das canções que eu havia identificado com este caráter, qual não foi minha surpresa ao constatar que as duas primeiras que me vieram à cabeça eram composições de ninguém menos que Marina Lima (e seu eterno parceiro Antonio Cícero).

adriana e marina 1.jpg crédito da imagem: caras.uol.com.br

A 1ª, Maresia, eu realmente não fazia idéia... uma deliciosa surpresa. Até encontrei uma divergência de informação, alguns sites a atribuem a Marina e Cícero, outros a Cícero e Paulo Machado. Já a canção Três eu sabia ser dos dois, Marina e Cícero. De qualquer forma, ambas as canções ficaram mais conhecidas pela voz doce e ao mesmo tempo firme de Adriana, então a identificação pra mim vem a partir dela.

Curiosamente não me lembrei de Vamos comer Caetano. Talvez porque as super bacanais no Teatro Oficina sejam um pouco demais pra mim... neste domingo de inverno, toparia no máximo um a3 entre brothers no sofá.

Minha ideia aqui foi a de simplesmente citar trechos de canções que me falam desse estilo mais livre de viver a vida, as relações, o amor, a paixão e principalmente a sexualidade. Certamente há outras letras de Adriana a explorar, e mesmo outras possíveis interpretações. Mas hoje irei me deter nestas duas. [Comentários e interjeições em colchetes são meus; representam as minhas reações ao ler os trechos das letras].

Maresia começa com uma triste constatação, infelizmente muito comum entre os seres humanos... o autor relata que seu amor lhe deixou e, por causa disso, levou-lhe a identidade... [hein? como assim??? precisa disso tudo mesmo? algo como "meu mundo caiu" de Maysa... ]

Isso lhe deixa perdido, sem saber onde está, sem noção da realidade. Qual a saída encontrada? Pudera ele ter um coração de marinheiro, ligeiro, que se antecipa ao abandono e que, se ferido, facilmente cicatriza com a ajuda da cola de maresia.

O coração de marinheiro ama e desama sem peso e sem culpa, à medida que muda de porto.

sailor.jpg crédito da imagem: pinterest.com

Ah, se eu fosse marinheiro. Era eu quem tinha partido. Mas meu coração ligeiro. Não se teria partido. Ou se partisse colava. Com cola de maresia. Eu amava e desamava. Sem peso e com poesia. Não buscaria conforto. Nem juntaria dinheiro. Um amor em cada porto. Ah, se eu fosse marinheiro.

Já em Três, a canção parece partir do mesmo ponto. O autor fez do amado/a o foco da vida, o seu sol. Só que o resultado disso deixa a desejar, ele constata: apenas tédio e pó. Mas aí algo mudou.

Não consegui captar o que exatamente teria acontecido [o autor mesmo não sabe explicar], mas ele declara que para amar não basta um só amor, um só é sempre demais [ou de menos], especialmente pra seres que se arriscam sem medo da possível [e muitas vezes provável] queda.

Pra seres assim, não cabem lamúrias ou calúnias. O que cabe é se reinventar.[ultimamente essa palavra ´reiventar´ teve o uso tão banalizado, tão surrado, que me dá certa preguiça quando a escuto... mas aqui na canção, caiu bem]

A canção então caminha para o ápice, cuja última estrofe é tão bem sacada, tão bem escrita, que prefiro reproduzi-la na íntegra:

Eu quero tudo que há. O mundo e seu amor. Não quero ter que optar. Quero poder partir. Quero poder ficar. Poder fantasiar. Sem nexo e em qualquer lugar. Com seu sexo junto ao mar.

Vejam as conexões entre as duas canções e a mensagem semelhante de liberdade, possibilidade de escolha e vivências múltiplas.

Interessante é que no caso de Três, parece haver um diálogo entre os/as amantes, uma afirmação de que: Olha, o que temos não me basta, quero algo diferente, menos monótono, não quero ficar preso em apenas um foco, quero ampliar meu olhar, e quero fazer isso sem ter de me justificar, sem ter a faca no pescoço, ir e vir quando bem entender.

Bacana... as músicas são legais, falam de liberdade e de não se sentir sufocado. Faltou só um detalhe: combinar com os russos (no jargão futebolístico).

Aí entra a parte mais difícil. Colocar o desejo de forma honesta com o(s) parceiro(s). Nem acho que você precise escancarar toda sua individualidade (na ideia maluca da tal "fusão" de dois), mas o papo tem de ser honesto.

No caso da 1ª música, mesmo andando de porto em porto, o marinheiro pode ter vários parceiros assim "constituídos". O que quase nunca fica claro é se, no caso de haver mais de um parceiro, esse 'plural' é de conhecimento de todos os envolvidos.

sailor ao tel.jpg Crédito da imagem: pinterest.com

Tem gente que não conta. Tem gente que não quer contar. Tem gente que não consegue contar. Tem gente que prefere não saber. Tem gente que não sabe e vai investigar. Tem gente que deduz e aceita numa boa. Tem gente que não aceita e impõe uma escolha [oh pobre marinheiro...]

Outra possibilidade é que em cada porto não haja parceiros propriamente constituídos, só "casinhos", "peguetes", "paus-amigos", "fodas semi-fixas"... há um universo de nomes e expressões pra denominar tais relações mais fugazes, furtivas e que não necessariamente estabelecem vínculos duradouros (o que, absolutamente, não significa serem menos valorosas ou prazerosas; que fique bem claro).

No caso da 2ª música, o autor parece justamente querer combinar com o parceiro as novas regras do jogo. Coloca uma condicional na negociação: "se você quer amar, não basta um só amor" (o cara chega junto, sem meias palavras, é direto na conversa) - e após, revela seu desejo em toda plenitude. Coloca um desejo, em especial, que muitas vezes é o meu: "não quero ter de optar".

Pra finalizar, faltaria dizer, como MC Ludmila diz: "hoje, eu tenho uma proposta". Mas a música não tem de ser linear como a minha cabeça obsessiva e cartesiana, então prefiro imaginar que o parceiro tenha entendido tudo o que o autor disse e que eles tenham topado buscar outro patamar de relação. Ou mesmo que tenham percebido que era hora de cada um seguir seu caminho, separados, rumo a novas e mais prazerosas experiências.

Fica pra mim a mensagem de que sim, é possível construir outros arranjos amorosos e sexuais se estivermos abertos e formos honestos com nossos desejos, ao mesmo tempo em que respeitamos o desejo do próximo. Desta "dupla honestidade" podem sair coisas bastante interessantes.

Obs 1:Você prefere Adriana com cabelo curto ou comprido? Obs 2: Este texto origina-se de uma primeira publicação no blog original e que após, foi enviado como versão-teste à Obvious.


Luca Vegga

Pobre é o homem cujos prazeres dependem da permissão de outros..
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