diários de um gay paulistano

Casos, amores, paixões, putarias, liberdade vivida e exercida.

Luca Vegga

Pobre é o homem cujos prazeres dependem da permissão de outros.

George Michael, para mim

A morte de George Michael me fez relembrar momentos especiais da adolescência e começo da vida adulta nos quais sua música esteve presente e influente. Também me fez pensar sobre os altos e baixos das trajetórias de artistas e de como seus fãs reagem e interpretam tais movimentos.


imaqqge.jpg Sinceramente, eu não esperava ter de escrever outro texto no estilo R.I.P. ainda em 2016, após o do Prince.

Me surpreendeu e entristeceu ler as notícias da morte de George Michael. Para mim representou o ato final melancólico de uma vida que, de vários anos pra cá, parecia se conduzir de forma errante.

George me vem à cabeça em dois momentos específicos da vida. Uma primeira 'descoberta' ao vê-lo no Rock in Rio de 1991, voz firme, impostada, masculina, aquele cabelo raspado, barba bem feita e os pelos no peito revelados nas músicas finais do show. Até rebolando ele se mantinha másculo (sim, homens podem e devem rebolar, sem nenhum pudor).

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Me lembro da tempestade de hormônios que se abateu sobre mim ao vê-lo sem camisa - eu, um adolescente tímido, acanhado e assustado pelas mudanças que a puberdade trazia e que era pego de surpresa com estímulos inesperados gerados por 'personagens' que não eram propriamente esperados para um garoto.

A MTV chegava ao Brasil naquele começo de década e na sequência do Rock in Rio pude apreciar a sofisticação inata do clip de Freedom 90 com [email protected] [email protected] über models e a mensagem de autenticidade, de "seja você mesmo".

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Me lembro de ter entendido à época que o disco Listen without prejudice (pra mim uma das capas mais belas da discografia pop) era uma reação feroz de George à tentativa de construção pela indústria fonográfica de um símbolo sexual masculino e predador sem qualquer lastro com a sua realidade intima. O artista lutava por dignidade e coerência, ainda que reconhecesse ter feito parte da farsa por um tempo - mas agora se redimia e buscava iniciar um novo caminho e uma nova história com seus fãs.

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Pulamos alguns anos à frente e chegamos ao disco Older. Aqui, um George artista mais identificado e à vontade com seu lado gay encontra um jovem já na faculdade, mais ciente da sua condição e que dava seus passos finais rumo à concretização das primeiras experiências reais com outros caras.

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E George me ajudou a elaborar esse momento.

Jesus to a child trazia uma melodia romântica e triste ao mesmo tempo, e apesar da confusão que me causou a menção à figura sagrada do cristo, identifiquei a canção como a trilha sonora de uma relação de amor - possível - entre dois homens.

Fast love falava das buscas frenéticas pela noite e de um certo estilo caçador solitário (com suas dores e delícias). Hoje a vejo como um prenúncio irônico do que viriam a ser os dias de hoje: my friends got their ladies, they're all having babies. And I just want to have some fun

E vejam, Fast love foi escrita em uma época em que a internet engatinhava e sequer tinhamos a ideia conceitual dos aplicativos de paquera e pegaçao como temos hoje.

Em contraposição à leveza descompromissada de Fast love, Spinning the wheel mostrava que uma relação gay também pode ser pesada e cercada de muita desconfiança, brigas e todo tipo de agressão. Me faz pensar em como nós gays muitas vezes perdemos a chance de não repetir modelos heteronormativos opressores e fracassados. E não por menos, quebramos a cara, sofremos e fazemos sofrer.

Older foi o último trabalho de peso de George e muito pouca coisa foi produzida pelo artista desde então. A prisão de George em 1998 por atos obcenos em local público parece ter 'inaugurado' uma fase onde predominavam notícias ruins a seu respeito. E claro, havia a perda de seu namorado brasileiro, um divisor de águas na vida do artista. As pessoas mais próximas dizem que após esse trágico momento, George nunca mais foi o mesmo.

No que se transformou aquele cara que parecia ser tão forte, másculo, sensual e que despertava em mim calafrios eróticos no começo da adolescência? Cadê o cara barbudo e peludo que, transbordando masculinidade, me prometia ser minha 'father figure'?

Não, não podia ser esse George Michael que de tempos em tempos passou a se envolver em confusões com a polícia, uso problemático de drogas, que já não produzia coisas novas, vibrantes e que influenciavam o mundo do pop rock. Nos últimos anos senti sua imagem se transformar de um sex symbol influente a uma figura errática e cambaleante.

Confesso, sem pudores de soar politicamente incorreto, que me me despertava uma sensação de raiva ao ver uma sequência de situações que para mim se traduziam em fraqueza e desídia.

Nós nos acostumamos com a potência e onipresença de nossos ídolos e, muitas vezes de forma até cruel, lhes negamos o direito à decadência artística, ou a simplesmente interromper suas carreiras, independente dos motivos.

Talvez eu, como fã, não tenha dado a George o direito de ser fraco, o direito de não ser tão brilhante como fora outrora, talvez não o tenha perdoado por ter deixado de ser tudo aquilo que um dia representou pra mim. La no fundo, eu desejava que um último arroubo de criatividade e potência o fizesse ressurgir, como uma fênix.

Infelizmente, nao vai acontecer.

Que saibamos, então, 'perdoar' nossos ídolos por tudo aquilo que queríamos que eles tivessem sido, mas nao o foram. E que também saibamos celebrar sua memória por tudo aquilo de bom que fizeram e nos influenciaram.

Este texto é, acima de tudo, sincero.


Luca Vegga

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