diários de um gay paulistano

Casos, amores, paixões, putarias, liberdade vivida e exercida.

Luca Vegga

Pobre é o homem cujos prazeres dependem da permissão de outros.

Karina Buhr para libertinos

A poesia de Karina Buhr nos inspira a despadronizar o coração, ganhar asas e querer voar. Palavras e melodias a mostrar gente de carne e osso, protagonistas de histórias reais de amor e paixão.


KB capa correio 24 horas dot com dot br.jpg crédito da imagem: Priscila Buhr

A cada pedaço meu que se vai um pouco do medo sai. (KB)

Esse texto dá sequência à trilogia Música para Libertinos. Adriana, Karina e Marina.

Para os ouvintes de língua portuguesa é simplesmente um privilégio ter acesso ao trabalho de uma artista como Karina Buhr, a começar pelo fato de que grande parte das canções derivam de sua poesia!

Eu a conheci completamente por acaso, ao buscar um presente de aniversário para um melhor amigo. Fucei um pouco em vários cds e decidi levar o de Karina ao ouvir a melodia de Eu menti pra você, o sotaque que parecia o de uma portuguesa ao repetir esta mesma frase e pela atmosfera um tanto quanto anos 70. Mal me dei conta à época da força da letra dessa música e de como ainda iria fazer sentido pra mim.

Alguns anos se passaram até que em 2013, num sábado em que havia trabalhado, caminhava pela Praça da República no momento em que acontecia um festival de música com inspiração feminista.

O som e a melodia me chamaram a atenção, gostei do que ouvia e vi de longe uma mulher com cabelos platinados que se contorcia no palco e gritava com uma voz forte e estridente. Fiquei com aquela melodia na cabeça e consegui memorizar um pedacinho do refrão, algo como "bóia no mar". Não fazia muito sentido mas com essa pequena parte da canção consegui chegar até Karina pelo google e depois youtube.

A música em questão era a primorosa e irônica Ciranda do Incentivo. Ah Karina, você sabe muito mais do que só tocar seu tamborzinho (e estourar plástico bolha)! E eu também não sabia negociar. Mas isso se aprende, pode apostar.

Em meio a coreografias, modelitos de chacrete e interações com o fio do microfone, a fúria odiosa de Karina emerge no palco com toda intensidade! O que era bom no disco, fica ainda melhor ao vivo! Karina é extremamente performática!

karinabuhrdvg penocarnaval.jpg crédito da imagem: penocarnaval.com.br

Eu gosto das músicas de Karina em especial por que vejo nelas um romantismo realista, sem grandes idealizações da pessoa amada. Ali tem gente de carne e osso ocupada com questões mais importantes nessa vida ou mesmo lidando com situações difíceis não planejadas.

Em Vira Pó conhecer alguém pode resultar em algo muito legal mas pode também dar em nada. E tudo bem se for assim. Seu suor pode ficar em cada parte da minha casa...ou virar apenas vento. A todo momento alguém vira pó. Aliás, em todo mundo dá cupim (...) Tanto faz se é bom ou ruim.

Karina coloca por vezes um sofrimento doído de quem perde o amado - e assim como na visão romântica, sua dor também me soa realista, sem sofrimento piegas. Ouça a triste Desperdiço-te-me, aprecie a sagaz brincadeira com os pronomes e identifique-se com aquele período de catatonia pelo qual passamos logo após perder alguém especial.

Ainda assim, depois de uma dor de amor (ou da rejeiçãozinha do seu crush imaturo) sempre vem a redenção (ainda que por vezes acompanhada de um gostinho residual amargo). Após um tempo de dor, o pé já descansa sobre o solo quente, o que passa é nada, a falta é pouca e ruim, o gosto que dói na boca é pouco e não dói em mim (em Solo de Água fervente - e tem gente que se queixa que tá difícil... ah colega, pode ficar pior!).

Gosto das menções à vida e aos dilemas da metrópole (como em Cerca de Prédio), cenário multifacetado no qual suas histórias se passam e sua poesia nasce. Experimente pedalar pelo centro de São Paulo ouvindo Karina e perceba o mesmo (claro, pedale com segurança e atenção!). É a trilha perfeita para um rolê de bike no minhocão, fechado após as 22 horas e durante os fins de semana.

Por fim, Karina imprime um viés político ao seu trabalho que também é digno de nota e amplia a identificação dos fãs. Isso já ficava evidente em músicas como Guitarristas de Copacabana e fica ainda mais em Selvática, seu último disco, um verdadeiro manifesto punk-feminista.

Eu sou um monstro critica mulheres de perfil apático. Gosto dessa letra porque a leio como um chamado à responsabilidade pela condução da nossa própria vida (independente do gênero). Não queira de graça o que você não consegue com seu esforço!

É interessante porque ao mesmo tempo em que denuncia a violência machista tolerada pela sociedade (como em Esôfago), Karina não vitimiza as mulheres, ao contrário, também lhes dá um certo "puxão de orelha" por se calarem frente a pequenas violências cotidianas de que são vítimas (e contra as quais teriam condição de lutar). Talvez a exortação "tua apatia te mata" não seja apenas uma metáfora.

karina o tempo dot com.jpg crédito da imagem: otempo.com.br

Karina mostra alguns "tipos" conhecidos e realistas nas histórias de amor.

O personagem de Eu menti pra você se define como "uma pessoa má". Apesar das decepções causadas, ele ainda oferece seu amor ao amado e pergunta se ele o aceita - seja ele como for.

Já o personagem de Pra ser romântica curte seu amor de forma tranquila, serena, e até a cidade grande fica mais bonita com ele perto. Historinha de sessão da tarde!

Em Vela e Navalha desconfio que ela fala de alguém que parece fingir não se importar muito com os supostos deslizes do parceiro, afinal: quando você escorrega, te peço nada. Te desejo um cento de ouro. Seria um mega desapego? Ou falta de amor próprio? Quem nunca fez vista grossa por medo de perder alguém que atire a primeira pedra.

De todas as suas letras, porém, a que mais me intriga é Não me ame tanto. Ela me faz pensar se eu também "tenho algum problema com amor demais", se eu "jogo tudo no lixo sempre". A canção fala de alguém que tende sempre a estragar as histórias bacanas que lhe surgem. Vestiu a carapuça? Por que será que entramos nesses processos tão bem estruturados de auto-sabotagem?

KB 3 - Priscila Buhr.jpg crédito da imagem: Priscila Buhr

Amor brando fala de alguém que, sem perceber, deixou-se enredar de amor, mas que, ao se perceber assim, pede ao amado que só se aproxime até o ponto em que não sinta sua falta quando não estiverem juntos. Interessante isso de amor brando... talvez um amor controlado, seguro, imune ao sofrimento. Será que existe?

Em Sem fazer Ideia, Karina fala de alguém de quem se lembra exclusivamente por falta de imaginação. Só que depois isso passa, tal lembrança é momentânea e dura pouco. Quando as coisas voltam ao normal a gente cria asas e elas asas querem voar.

Finalizo este texto de maneira apoteótica com a regravação de Tão Fácil, no projeto lado B Literalmente Loucas - Canções de Marina Lima.

Ahhhh... essa luxúria baixo Leblon anos 80... era fácil ser feliz! Nos perdermos, regados a muito gim, nas noites que a gente sempre quis. Paixões que acendem e reacendem num futuro que é mera conjectura.

Diferente do Leblon de Marina, sinto que a São Paulo de Karina não é um deserto para o coração incerto. Ao contrário, é o melhor lugar onde eles poderiam estar. Um lugar em que não é cedo para tanta liberdade!

Libertinos, cuidado com as tentativas de padronizar o coração. Lutem pelo seu próprio direito e jeito de amar. E que nunca nos faltem asas para voar!

Mas tão importante quanto: que nunca nos falte o desejo de querer voar. Sem isso, de nada nos servirá ter asas.

KB 5 azoofa dot com dot br.png crédito da imagem: azoofa.com.br


Luca Vegga

Pobre é o homem cujos prazeres dependem da permissão de outros..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/musica// @obvious, @obvioushp //Luca Vegga