diários de um gay paulistano

Casos, amores, paixões, putarias, liberdade vivida e exercida.

Luca Vegga

Pobre é o homem cujos prazeres dependem da permissão de outros.

Sexo a 3: breve guia de referências pop

Para além do simples entretenimento, o pop também tem outras faces: transgressor, sugestivo e incômodo. Pode nos mostrar novas portas que nem sabíamos serem portas, mas que estavam ali, prontas para serem abertas. Entre e descubra as melhores e mais deliciosas inspirações para o sexo a 3.


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aaahhhhh... os trios! Eu acho trios excitantes. Eu acho trios transgressores. Trios me fazem questionar o porquê de, após tanta prática e discussão sobre liberdade sexual, ainda estarmos absolutamente limitados a experiências "do tipo a dois".

Afinal de contas, quem foi que disse que saímos de fábrica só com a habilidade de fazer a dois? O que impediria o exercício da sexualidade e da afetividade direcionadas a mais de uma pessoa? Já parou pra pensar como tomamos esta e tantas outras coisas como algo dado, algo "natural" e sequer pensamos que poderia ser diferente?

Eu tento pensar que SEMPRE pode ser diferente... se a gente quiser.

O pior é que, como a psicanalista e escritora Regina Navarro já diz há tempos a partir de suas pesquisas e reflexões, transar a três é algo que de certa forma faz parte do imaginário das pessoas (sem nem entrar na discussão sobre a visão tradicionalmente machista de um homem "pegando" duas mulheres). Então não deveria ser encarado como algo tão "anti-natural", abjeto.

No tabuleiro das paixões, nós adultos já poderíamos ter andado várias casas a mais.

Eu fico pensando até que ponto as pessoas (e me incluo aqui inclusive) têm medo e/ou preguiça de experimentações e variações no campo sexual. Tenho uma amiga que acha que dou valor demais ao sexo, que na prática as pessoas têm milhares de outras preocupações e interesses e não o colocam no centro da vida delas.

Pode ser mesmo. Mas pra mim a vida fica tão mais sem graça (e olha que eu não deixo de fazer todas as outras coisas que adultos em grandes cidades precisam fazer pra sobreviver). Como já dizia Rita Lee: lá embaixo, o mundo cruel é tão chatinho. Sexo, sem dúvida, ajuda a torná-lo mais suportável e agradável.

Apesar da longa introdução, não é sobre minhas experiências sexuais que quero falar aqui. Quero escrever sobre algumas referências do mundo pop para o sexo a 3 que povoam minha mente e estabelecem deliciosas conexões com minha vida sexual real.

Fico honrado de ter em Madonna minha primeira visão de trios, ainda que na época não fosse algo compreendido como é hoje. Esta lembrança está na icônica coreografia de Like a Virgin no documentário Na Cama com Madonna: sensualizada, lasciva, provocativa. Como muitos adolescentes gays (que ainda não sabiam exatamente que eram gays), ver esse filme trouxe um baita impacto na percepção da minha própria orientação [e identidade] sexual.

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Naquele número musical, Madonna interage com seus dançarinos como se fossem criados sexuais. Talvez ali a dimensão sexual não ficasse tão clara, predominava um aspecto de mando e obediência e essa devia ser mesmo a intenção. Foi a partir daquela turnê que Madonna começou a consolidar de forma gradual e definitiva a posição de Rainha do Pop (não por menos, o nome da turnê era Blond Ambition).

Essa percepção muda um pouco na turnê seguinte, a teatral e burlesca The Girlie Show, onde Fever arrebenta com qualquer visão conservadora sobre sexo. E não poderia ser diferente, depois da entrada triunfal sob a batida tensa de Erótica. Eu fiquei absolutamente fascinado por essa coreografia, também extremamente sensual e lasciva. Aqui apesar de também haver uma condução por Madonna, a dimensão sexual fica bem mais evidente.

fever 5.jpg crédito da imagem: revistaquem.globo.com

Gostava de ver Madonna praticamente "avançando" para cima dos bailarinos e se atracando com eles, como na cena acima, em que ela encaixa suas pernas nos ombros de um deles e rebola.

A persona pública de Madonna é realmente a de uma mulher muito poderosa. Mas poderosa no sentido de exercer seus desejos sem ressalvas. E ao fazer isso, ela nos inspira a fazer o mesmo. "Pobre o homem cujos prazeres dependem da permissão de outros", já dizia ela no clip de Justify my Love.

Na época do lançamento de SEX eu ainda não tinha 18 anos e o mundo ainda não era conectado o bastante para que eu pudesse ter acesso ao livro. É sem dúvida um belíssimo manifesto à liberdade em seu sentido mais hedonista.

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Antes de Fever porém, houve ainda uma 2ª referência importante pra mim na mesma época de Like a Virgin. Prince com suas Diamond & Pearl no clip de Gett off, uma típica dança de acasalamento!

Já escrevi um post sobre essa canção, que fala de experimentações (a little box with a mirror and a tongue inside) e um cara confiante em poder satisfazer uma mulher que não andava lá muito feliz...(There's a rumor goin' all round that you ain’t been gettin' served (...) Lemme show you baby I'm a talented boy).

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Quero um dia ser tão confiante como Prince, seja numa transa a dois, a três ou numa coletiva! E que cara é esse, capaz de 23 positions in a one night stand!

Para além destas três referências iniciais no campo musical, há um filme que marcou muito, mas muito, minha adolescência: Threesome, traduzido no Brasil como Três formas de amar. Josh Charles talvez tenha sido minha primeira paixão platônica adolescente. Eu o achava (e ainda acho, vendo The Good Wife) lindo, sensível, doce. Me identificava com ele e com os dilemas de seu personagem.

filme 2.png crédito da imagem: cahiers-elizabeth.blogspot.com

Assistir este filme me fez sentir de forma mais concreta a vontade de viver um amor e de estar junto a outro homem. Aliada a isso, a dimensão "a três" dava um charme todo especial ao filme. Reparem inclusive na certa abertura do personagem do Baldwin para vivenciar tal história, sem que isso significasse um questionamento da sua identidade heterossexual, bastante demarcada.

Foi pena ter um desfecho tão moralista (absolutamente normal para o padrão puritano norte-americano). De qualquer forma, o filme ousou ao abordar o assunto de forma leve, divertida e factível - colocando um romance a três no mesmo patamar de outras tantas loucuras, traquinagens e experimentações dos anos de faculdade.

Por fim, mas não menos importante... o glorioso trio feminino Ciconne, Aguillera & Spears em outra apresentação memorável do MTV Awards de 2003. Sério que chocou? Pior que sim. A princesinha Britney foi acusada de ter "virado" lésbica. Entra ano, sai ano e Madonna ainda conseque polemizar com os mesmos temas, em diferentes variações. Evidência de que os pobres mortais dessa terra ainda continuam bastante reticentes para muitas questões comportamentais.

mad trio.jpg crédito da imagem: khitschicago.cbslocal.com/

Me lembro da excitação que senti ao ver esse número, desde a entrada triunfal de Madonna sob aplausos efusivos da platéia até seus beijos ousados ao conduzir em dança as duas fedelhas. Sim, trios são mesmo transgressores!

E que tal avançarmos? Sexo grupal... já tentou? [Sim, beijo #a4 na balada e aquelas aglomerações no carnaval contam]. Tem alguma fantasia a respeito?

Em relação a sexo grupal, cabe ainda para mim uma reflexão mais profunda sobre o significado, dimensão, práticas e consequências. A dinâmica do sexo a três nos parece bem mais familiar, mas nos grupais, acho que os antigos romanos ainda continuam à nossa frente.

Ainda assim, o mundo pop também tem sua singela contribuição.

Vamos continuar com Britney para falar de um clip pra lá de ousado: I'm a slave 4U.

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Meu corpo fica em arrepios. A atmosfera do clip é quente demais. Todos suados, sensuais, dançando com seus corpos próximos uns dos outros, suspirando, sussurando... como eu queria estar ali também. A coreografia é primorosa, intensa, vigorosa!

Slave 4U me fez retornar a Madonna e algumas de suas experiências "surubísticas", em especial dois momentos.

O 1º na The Girlie Show, na transição de Deeper and Deeper para Why´s it so hard? De repente todo mundo começa a se tocar, se pegar... você não sabe mais quem é quem, de quem é aquela mão, aquele pé... e por aí vai...

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Outra surubinha bem mais leve e chic se passa nas apresentações de Hung Up durante o lançamento e turnê de Confessions on a dance floor. Madonna um pouco mais comportada, mas tão sexy quanto.

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A breve, porém intensa, retrospectiva deixa em mim um sabor inspirador que o pop pode ter, sendo combustível para experimentações e variações de cada um de nós. E por que não?

Esta, portanto, a minha colcha de retalhos pop para trios e grupais! Uma senhora seleção, modéstia à parte. Melhor acompanhado? Impossível!

No mais, só posso dizer: vida longa à liberdade sexual, abençoada pelas melhores inspirações do autêntico pop!

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OBS1: Uma primeira versão deste texto (um pouquinho mais informal e solta) foi postada originalmente aqui.


Luca Vegga

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