diários de um gay paulistano

Casos, amores, paixões, putarias, liberdade vivida e exercida.

Luca Vegga

Pobre é o homem cujos prazeres dependem da permissão de outros.

Marina Lima para libertinos

Marina Lima é um dos ícones da geração rock Brasil anos 80. Com 40 anos de carreira, tem cadeira cativa no panteão das [email protected] da MPB. Esse texto faz uma leitura pessoal e íntima de algumas de suas canções a partir da ótica da liberdade sexual e afetiva. Eis o libelo libertino de Marina Lima. O veredicto? Deliciosamente culpada!


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Meus olhos se escondem onde explodem paixões (Não sei dançar)

Num domingo em que corria pelo Parque do Ibirapuera, havia selecionado uma set list matadora com músicas de Marina Lima. Só consigo correr se estiver tocando música e é incrível como aquele fone maior te faz se isolar um pouco do restante do mundo. Você curte a música, canta um pouco, aprecia a paisagem e até troca alguns olhares mal intencionados com algum outro descamisado que passe por você.

Quem se aproxima (ou já passou) dos quarenta certamente tem Marina em sua memória afetiva por À Francesa, tema da novela Top Model, sucesso absoluto entre a garotada nos idos de 1989-90. Quem já chegou ao cinquenta também sabe da importância da artista na constituição do que viria a ser a geração rock Brasil anos 80, lembrando inclusive que Marina foi uma das únicas compositoras mulheres dessa geração. Difícil escolher uma canção que represente este período, mas arriscaria Fullgas (do disco homônimo lançado em 1984), empatada com Uma noite e meia (que traduz muito concretamente pra mim o clima do verão carioca anos 80).

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É muito emblemático também recordar que Marina abordou seu lado bissexual ainda nos anos 80 - algo de certa forma inédito, por mais que veladamente se soubesse que grande parte das cantoras da MPB também eram bissexuais ou lésbicas. Se hoje causa espanto, desconfoto e certa antipatia ao cidadão médio careta chatérrimo quando alguém se assume como sendo de um gênero diferente (por exemplo a cartunista Laerte), naquela época arrisco a dizer que se passava o mesmo quando alguém se assumia com orientação sexual distinta da maioria. Revendo algumas das entrevistas da cantora, ela sem dúvida foi uma porta-voz desse desejo de uma vida sexual com menos amarras, menos culpa, menos caretice e muito mais prazer.

Mas voltando ao repertório, enquanto corria e ouvia uma das músicas, começei a me dar conta: nossa, como essa letra se parece comigo, como ela parece falar tão bem do meu jeito de ser. Essa música era Difícil.

Ela fala de alguém que se considera 'difícil no amor' e que tenta se justificar dizendo ser assim por culpa de alguém do passado: Alguém lá no início me aplicou. E me fez louca, me fez pouca, me fez o que sou: Difícil. E por ter esse vício, talvez a única saída encontrada seja se abrir pro sexo com quem se estiver a fim, num eterno jogo de sedução e prazer.

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Afinal, sexo é bom! Paixão e gozo, você sabe, isso vicia!

Eu já havia sentido essa mesma identificação quando me dei conta da letra da misteriosa Charme do Mundo. Esta canção fala de alguém quente, intenso, que está perdidamente encantado pelos mistérios e prazeres mundanos. O mundo intriga, seduz, fascina, traz coisas novas e loucas pra alguém que é febre e amor! E eu quero mais!

Só que o exercício da liberdade (e por que não dizer, da libertinagem) pode trazer consequências não muito desejáveis. E vai ser preciso saber lidar com alguns, digamos, efeitos colaterais. Estamos preparados pra isso? Para além dos bônus, temos ciência também dos ônus?

Essas consequências se revelam em um lado mais sombrio deste alter-ego libertino de Marina, sintetizadas em outras duas canções incríveis.

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Não sei dançar fala de alguém preso no universo das paixões e que questiona até mesmo se mereçe o amor do outro. Aos possíveis candidatos a parceiro só há uma coisa a oferecer: solidão com vista pro mar. Ele até pode tentar, mas já sabe que não consegue dançar tão devagar ao ritmo de um amor tranquilo desejado.

Essa mesma incapacidade e medo de amar aparece em Pessoa (do maravilhoso Dalto): o meu medo é uma coisa assim que corre por fora, entra, vai e volta, sem sair. O medo de se envolver e machucar alguém, em especial quando esse alguém é sensacional, incrível. Coisa de gente que não anda bem da cabeça, é a conclusão.

Eu diria que libertinos são craques na 'arte' de separar amor de sexo e usufruir deste sem depender daquele. O problema é que depois pode ficar díficil juntá-los, caso surja alguém que desperte essa vontade.

Será que existe um meio termo possível? Dá pra amar e ser livre? É [e sempre será] a minha eterna pergunta! E para perguntas como essa, acho que não há resposta única ou definitiva. Vamos vivendo a vida e nos deparando com diferentes respostas ao longo do caminho.

Se você gostar mais de Pra começar, talvez não haja solução conciliadora. O que você tem de fazer é descobrir de verdade o que ama, independente do que o velho mundo possa dizer. Descobrir o que se ama é o primeiro passo para que um dia isso possa ser seu.

Talvez o destino dos libertinos seja transitar eternamente no mar das paixões, como caravelas frondosas e destemidas que sentem um baita tédio ao se aproximarem da terra firme e estacionarem em um porto seguro. Se ficarem lá, ficarão apenas por um curto período de tempo e com aquela sensação de que quando anoitece, é festa em outro apartamento.

Para as minhas ambições, Corações a mil! Nem todo Brasil vai dar! (essa letra só poderia ter saído da cabeça psicodélica de Gil...)

Eu já vivi o bastante pra dizer que as paixões libertinas são deliciosas, ainda que com os efeitos colaterais. Parte do 'ofício' da vida adulta é justamente ter ciência destes efeitos e aceitá-los, como condição para viver as experiências que se deseja.

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Mas se você é daqueles que preferem Nosso Estranho Amor, talvez haja uma luz ao fim do túnel: um amor que sabe dominar o ciúme e que não quer se colocar como sufocante. Deixa o ciúme chegar, deixa o ciúme passar e sigamos juntos, ele diz. Um amor que que não se importa muito com contrato de exclusividade, apenas pede respeito e a devida atenção enquanto estiverem juntos. Fora isso, não importa com quem você se deite ou se deleite.

Eu ainda não vivi o bastante pra dizer se funciona pra mim. Então minha colega, logicamente também não posso dizer se funcionaria pra você. Aliás, esse é o tipo de coisa que só cada um é que pode dizer. Nunca deixe que digam por você. Se está na dúvida, por que não tenta e confere?

Eis o meu quebra-cabeça de canções. Leitura e interpretação. Enviesadas. Pessoais.

Não deixa de ser incrível como canções podem falar tanto aos nossos corações. Canções bem feitas, claro, como as de Marina.

Este texto finaliza a trilogia 'Música para Libertinos', escrita por um gay paulistano: Adriana Calcanhotto, Karina Buhr e Marina Lima.


Luca Vegga

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