diários de um gay paulistano

Casos, amores, paixões, putarias, liberdade vivida e exercida.

Luca Vegga

Pobre é o homem cujos prazeres dependem da permissão dos outros

Simpático.... mas não tá a fim.

E virou frase típica... repetitiva: 'Fulano é simpático... mas não tá a fim.' Mais do que condenar ou se fechar, melhor é estar ciente quando nos deparamos com um destes e ser capaz de curtir e aproveitar, com o mínimo de sofrimento. O efêmero também pode ser prazeroso. Se acha que consegue jogar esse jogo - sem garantia de imunidade - o texto é pra você.


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Essa espécie "simpático, mas não tá a fim" é conhecida de todos nós, não? [Inclusive porque muitas vezes somos nós quem desempenhamos o papel, vamos ser honestos desde o começo!]

O Simpático, mas não tá a fim é primo em primeiro grau do “Eu não sei... Qualquer coisa eu te ligo mais tarde” - sabe aquelas primos encapetados que aprontam horrores juntos?

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O termo foi cunhado por um amigo ao se referir a um certo tipo de cara que conhecemos na balada. A ficada é ótima, o beijo sensacional, pode até rolar um "after" na nossa cama, mas daí em diante, nada mais...

Você está lá na pista pra negócios, o cara passa por você (ou você passa perto de onde ele está dançando), uma troca rápida de olhares, um toque suave no braço, um sorriso tímido, um breve 'oi, tudo bem? Qual seu nome?' (ou nem isso...) e já se entregam a um beijo forte e explorador.

Na história que deu origem ao termo, meu melhor amigo ficou com um médico super boa pinta, daqueles que você apresenta à família e todos se encantam.

Eu me incomodo um pouco com essa busca do perfil "príncipe", daqueles modelos arianos universitários das propagandas da Abercrombie & Fitch. Acho que isso nos limita e nos tira oportunidades bacanas de conhecer pessoas reais, de carne e osso; mas não nego que quando um desses cruza nossa caminho, ainda que por alguns instantes, causa uma sensação de encanto que nos deixa meio catatônicos.

Retomando a história, eles ficaram a noite toda se curtindo, se beijando, dançando, foram para o apartamento dele e lá ficaram por todo o domingo. Eu não sei ao certo como foi a despedida, mas parece que rolou certa hesitação de ambos em passar contatos (aquela hora clássica onde você não sabe se pede o telefone, se não vai soar invasivo pedir o pacote face&insta&snap&twitter... ou pode ser o caso de você próprio não estar a fim de passar o telefone ou abrir acesso a sua intimidade postada em redes sociais).

O fato é que houve algumas mensagens esporádicas na sequência e um convite para um novo encontro, o qual ficou sem resposta. Aquela coisa de mensagem no whatsapp que demora pra ser visualizada e respondida... e a resposta [quando vem] é lacônica, é dúbia.

Ao me contar o acontecido, relembramos de outros inúmeros casos semelhantes nossos, de amigos e conhecidos. A figura nos causa empolgação, a ficada é excitante, o beijo é intenso. E não sei exatamente porque, mas nós concluímos, por causa disso, que o mais lógico seria que houvesse um continuidade, que porque a 1a vez foi incrível outras tão incríveis quanto se seguirão freneticamente na sequência.

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E essa foi nossa grande conclusão: o sofrimento sempre começa das expectativas mal moduladas (para mais é claro). A expectativa é a mãe do sofrimento!

Balizar expectativas é uma das coisas mais importantes na vida! Regra básica de sobrevivência. É importante saber identificar e perceber quando nos deparamos com um tipo desses, pra podermos curtir e aproveitar, com o mínimo de sofrimento. Não penso que devamos, necessariamente, nos fechar às experiências.

Em especial pessoas que estão numa fase de muita interação e experimentação - é importante ter certa blindagem contra esse encantamento que insiste em aparecer nas ficadas com caras interessantes que cruzam nosso caminho. Sim, você pode e deve correr atrás (se tiver curtido e quiser mais), mas tenha em mente que nada é garantido e que sim, há uma imensidão de onenightstanders à solta por aí que querem ter prazer sem culpa e sem compromissos no dia seguinte.

Parece, de fato, haver um certa indisposição à continuidade dos encontros (provável que isso seja mais forte em grandes cidades como São Paulo, com tanta oferta e tanta saliência na vida gay - e por que não confirmar, na vida hétero também).

Quantas vezes nós priorizamos encontrar alguém bacana? Tudo é tão fácil, tão aparentemente disponível, tão cambiável. Por que focar então? Parece tão difícil você marcar aquele café com o boy da balada do último final de semana, não? De repente as agendas se mostram incompatíveis, tem trabalho, tem academia, tem visita à tia, tem que buscar o sobrinho na escola, levar o cachorro pra tomar banho, o happy hour com os colegas da firma. E eu continuo firme na ideia de que a alegada falta de tempo é consequência direta da falta de prioridade pra determinada questão (ou pessoa). Parece tão evidente, não?

Claro, ninguém é obrigado a priorizar. Saiba disso então, antes de modular suas expectativas à enésima potência.

A outra conclusão importante desse episódio é a percepção de que sim, nós também muitas vezes ocupamos esse papel na vida de outras pessoas. Então, menos vitimização, por favor. Pensar dessa forma até torna as coisas mais factíveis, algo mais corriqueiro que não acontece apenas na nossa vida. Não é só a gente que sofre, que tem expectativas frustradas. Nós também muitas vezes [voluntaria ou involuntariamente] causamos isso em outras pessoas, que terão de lidar com tais sentimentos de alguma forma.

Então não é nada pessoal, são processos que acontecem, a gente se melindra, e aí nosso Superego dá um jeito de nos dar um tapinha na cara e nos lembrar que a gente não tem nada de especial pra supor que isso não pudesse ou não devesse nos acontecer - como se a gente tivesse algum privilégio em relação aos outros 'pobres mortais'.

Aprenda a lidar com isso. E se não souber brincar, pense duas vezes antes de descer ao play.

PS1: a 1a versão deste texto disponível aqui.


Luca Vegga

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