diários de um gay paulistano

Casos, amores, paixões, putarias, liberdade vivida e exercida.

Luca Vegga

Pobre é o homem cujos prazeres dependem da permissão de outros.

Vivências gays pelo streaming

Este texto traz algumas reflexões sobre a vivência gay a partir dos títulos mais recentes disponibilizados no catálogo de filmes LGBT da Netflix. Histórias sobre a afirmação da orientação sexual, construção de relacionamentos, luta e superação de preconceitos. O que desses filmes podemos trazer para a nossa vivência cotidiana de busca por felicidade e completude? O relato também é válido para héteros. Contém [muitos] spoilers.


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Começo esse texto dizendo da minha satisfação em perceber que o catálogo da Netflix com filmes e séries temáticos LGBT tem crescido, inclusive com produções mais antigas que marcaram época, como as temporadas completas de Queer as Folk e The L Word. Comecei também a explorar o catálogo da Amazon Prime (ainda pouco conhecido no Brasil) e me pareceu bastante interessante.

Retratar a diversidade sexual e de gênero é especialmente importante, ainda mais no momento conservador e turbulento em que vivemos.

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Mas pondero também que esse crescimento é maior em outros países e eu continuo achando simplesmente ridícula a idéia de 'acesso diferenciado' entre os países, seja por questões de direitos autorais ou estratégias de marketing. Muitos filmes disponíveis nos catálogos americano e canadense, por exemplo, talvez nunca sejam disponibilizados no Brasil ou chegarão aqui dois ou três anos após. Dia desses tentei alugar um filme pela Amazon Prime e qual não foi minha surpresa ao ver a exigência de cartão de crédito emitido nos Estados Unidos.

Em um mundo conectado pela internet de alta velocidade, a indústria de cinema e TV já deveria ter entendido que esse tipo de restrição é uma furada, um tiro que sai pela culatra (como inclusive já aconteceu com a indústria da música). Mantém-se incentivos para a 'infidelidade' e antipatia por parte dos fãs e consumidores.

Enquanto continuarem com essa tática, a solução é uma pequena dose de desobediência civil na forma de arquivos torrent!

Um primeiro aspecto a se notar é que é possível fazer uma divisão básica entre os filmes.

Parte deles foca nos dilemas de se assumir gay para si e para as pessoas próximas. A outra parte foca nos desafios de se construir e conduzir relacionamentos amorosos para quem já passou dessa fase.

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O australiano Head on (1998) é um filme tenso, pesado e mostra Ali, um jovem gay de uma família de imigrantes gregos que vive na Austrália os dilemas de se sentir estrangeiro dentro de seu país e de não aceitar a herança cultural que lhe é praticamente imposta. A homossexualidade enrustida do personagem o coloca em situações diversas de risco - sexo anônimo com estranhos, dificuldades em se integrar à sociedade e ao mundo do trabalho, uso abusivo de drogas e um gasto de energia para se adequar ao padrão dominante de masculinidade e ao mesmo tempo esconder sua orientação sexual da comunidade (que claro, faz de tudo para lhe arrumar uma noiva e tem a expectativa de que se case).

O personagem até parece gostar da vivência perigosa num submundo de drogas e pequenos crimes, mas nas vezes em que tenta sair disso, não consegue. Ao se deparar com a possibilidade de um relacionamento estável com um outro homem, acaba tendo com ele uma postura violenta, semelhante à que tem nas situações de sexo anônimo e põe tudo a perder. Este episódio do filme mostra um dos aspectos mais cruéis da não-aceitação da própria orientação sexual; o personagem construiu seu mundo distorcido e marginal de proteção e agora não consegue sair dele rumo a uma vida "normal" e a um padrão saudável de relacionamentos. O filme termina dando a entender que, nessa toada, seu futuro não será nada promissor.

O chileno In the Grayscale (2015) conta a história de Bruno, arquiteto bem sucedido e respeitoso pai de família que acaba se envolvendo com um professor de história - Fer com quem desenvolvia um trabalho conjunto. Apesar dessa paixão ser encarada como uma "novidade" para ele, os elementos constitutivos do desejo homo já estavam dados lá atrás na infância e adolescência. Eles foram sufocados, esquecidos, enjaulados, mas eis que houve alguém que teve o condão de despertar esse sentimento e fazê-lo fluir de forma avassaladora, incontrolável (e um tanto quanto confusa).

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Essa confusão se revela no momento em que Bruno tem de se posicionar para a ex-mulher e para Fer, que espera que eles fiquem juntos. Só que Bruno [ainda] não está certo disso e se afasta, dizendo que precisa de um tempo para se encontrar antes de assumir um novo relacionamento. O interessante é que Bruno parece gostar muito de Fer, mas esse sentimento não é suficiente para fazê-lo se mover de forma mais definitiva. Ele quer ter seu próprio espaço, sua zona de conforto, algo que soa estranho e inaceitável para Fer. Para este, as coisas são muito claras: se ambos se gostam, se há um sentimento, é óbvio que devem ficar juntos. Mas nesses casos, o óbvio tende a não predominar.

O sofrimento de Fer é dilacerante: se alegrou por encontrar alguém tão especial de forma tão inusitada, se entregou a essa história, mas pouco tempo depois, se deu conta de que talvez tudo não tenha passado de uma ilusão traiçoeira (quem nunca, não é?). Já para Bruno, a coisa mais importante naquele momento é a manutenção de um espaço só seu no qual possa respirar sem a cobrança de terceiros.

O 1o filme da trilogia The Falls (2012) também fala desse momento avassalador da emergência do sentimento gay. Talvez nem seja mais o caso de se falar em 'descoberta', porque de um jeito ou de outro, os sentimentos estão ali há tempos.

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Nesse caso a história acontece entre dois mórmons que se apaixonam enquanto viviam juntos como colegas de quarto no seminário. O filme mostra como um contexto familiar e religioso mais conservador pode tornar as coisas muito, mas muito mais difíceis, a ponto de você não ser capaz de levar adiante uma decisão que lhe parece óbvia. Infelizmente, mesmo em 2017, isso ainda é muito comum. Esse filme me tocou por mostrar um amor puro e romântico nascendo e se moldando entre os dois jovens. E os atores são lindos, é difícil não se apaixonar por eles e por sua história (claro, eles foram escolhidos justamente para gerar esse efeito em nós, telespectadores carentes e entediados com nossas vidinhas).

Por mais que tenhamos liberdade sexual hoje em dia, eu ainda me pego pensando em como seria legal encontrar 'aquele alguém' com quem você se conectasse de forma intensa e especial; alguém com quem você seguisse pela vida toda. Oscilo entre achar que isso acontece apenas nas telas do cinema e nos livros de ficção ou pensar que uma hora ainda vai acontecer comigo.

Chamo a atenção também para o fato de que filmes como esse nos trazem uma certa sensação de conforto que é ilusória. Explico.

Ficamos felizes por os personagens cruzarem essa "linha" do assumir-se gay, de terem um envolvimento sexual e amoroso. Isso, claro, nos remete à nossa própria trajetória e aos momentos em que também fizemos movimento semelhante. E os filmes terminam com uma certa sensação de "e foram felizes para sempre", depois de tantas dificuldades. Só que as coisas estão apenas começando, e ao longo do caminho, tendem a ficar mais difíceis e menos romantizadas.

Os outros dois filmes tratam desse "após". E a vida não tá fácil pra ninguém, colega!

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Lazy Eye (2016) traz um clássico dilema: o ex que retorna justamente naquele momento em que você está numa relação estável (porém um pouco morna na comparação). E tem ex que adora fazer isso, né? Faz um baita estrago, some sem dar satisfação e, após um tempo, manda uma mensagem como se nada tivesse acontecido.

Dean fica atordoado quando o ex Alex retorna após 15 anos de total sumiço. Fica no dilema entre mandá-lo se danar ou retomar contato. Escolhe a segunda opção e trabalha para que haja um encontro entre eles. Em um final de semana numa casa de veraneio eles se encontram e não precisam de mais de um minuto de palavras para se beijarem e relembrarem as tórridas noites de sexo.

Só que na metade do filme, descobrimos, juntamente com o ex que retorna, que Dean está atualmente casado (o marido está a trabalho na Austrália, e por isso ele está à vontade para se jogar nos braços do ex). O ex, que de certa forma se achava o supra sumo e tinha vindo nessa cruzada de reconquista, se emputece ao saber do fato. A 'DR' rola solta. Acho que no fundo ele se emputece por saber que o outro tocou sua vida e que consegue viver bem longe dele.

Alex é tão auto-centrado que questiona Dean sobre seu casamento, se ele de fato ama o parceiro e se está feliz. Ou seja, faz implicitamente uma comparação com o casamento anterior tentando induzi-lo à conclusão de que vive uma relação morna e que, já que ele voltou, não valeria mais a pena viver assim.

De fato, Dean se engasga para responder às perguntas delicadas mas fato é que não sinaliza que deixaria o atual marido para se juntar ao ex ausente por 15 anos, como se fossem dois adolescentes inconsequentes. Alex se dá conta disso e, novamente, vai embora sem se despedir. Dean termina aquele fim de semana se sentindo livre do fantasma que o assolou por 15 anos e se dando conta de que o melhor é investir na relação que possui com alguém que lhe quer bem (ainda que, talvez, a intensidade não seja a mesma daquele 1º amor de anos atrás). Ele toma uma decisão consciente de investir e de cuidar da relação na qual se encontra (ao invés de pular fora).

Desfecho diferente se dá com o casal de Like you mean it (2015). Aqui precisei de muita paciência pra não socar Mark, o protagonista. Ele e o companheiro Jonah vivem um casamento também morno não apenas pelos anos de convívio, mas também por uma certa incapacidade de Mark em se entregar à relação e de se dedicar um pouquinho ao parceiro. Tadinho do Jonah, com aquela cara de carente, de cachorro pidão, ansioso por ao menos algumas migalhas de carinho e o outro se mostrando absolutamente incapaz de suprir isso, ou sequer de perceber. Coisas pequenas do cotidiano, um beijo de boa noite, um café da manhã na cama, uma mensagem de carinho no celular. A gente gosta disso, a gente faz isso pra quem ama e dói perceber quando não é recíproco.

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Dói no telespectador captar essa dinâmica do casal, e eles tentam várias coisas, mas Mark simplesmente não consegue se entregar. Até que, após várias tentativas e sessões de terapia de casal concluem que "não vai rolar". Mark diz a Jonah não ser capaz de corresponder às expectativas e de dar o que ele precisa e espera. E fica um vazio depois da separação, uma sensação de certa incompetência de amar e ser amado, de não ter dado certo e de ter sido rejeitado por alguém que se amava tanto. Durante um tempo, é quase insuportável de sentir.

É interessante notar que os protagonistas dos filmes tomam caminhos opostos, mas não me parece que seja simplesmente isso. Há entre eles uma diferença de 'capacidade'.

Dean parece ser capaz de investir no relacionamento, ele deseja isso e quer trabalhar pra tal. Já Mark parece incapaz desse mesmo movimento (inclusive porque há um contexto de depressão do personagem no filme - mas que não seja a ser explorado pelo roteiro), então é algo que vai além do simples querer. Por mais que haja recursos terapêuticos disponíveis ao casal, estes parecem não surtir efeito. É caso perdido. Assistimos ao filme todo vendo os personagens se esforçarem e sofrerem até chegarem a essa conclusão.

Por fim, um rápido destaque para dois documentários surpreendentes sobre ser LGBT nos anos 80 (quando ainda nem havia essa denominação).

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We were here (2010) fala sobre a explosão da epidemia de aids na comunidade gay de São Francisco e segue a linha de documentários disponibilizados anteriormente, como How to survive a plague (2012), que estão fazendo um resgate e registro histórico incrível do que foi aquele momento inicial da epidemia. Isso é importante em especial para as novas gerações de jovens gays que não tem a mais vaga ideia de como um vírus praticamente dizimou toda uma geração. Os poucos sobreviventes que ficaram contam suas histórias de maneira emocionante.

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Paris is burning (1990) mostra a cena vogue na cidade de Nova York e os duelos das casas pelas melhores performances nos clubes gays da cidade. Muito interessante ver a estética dos grupos, a forma como as competições rolavam, mas acima de tudo, o documentário é interessante por conseguir mostrar as estratégias de sobrevivência de pessoas extremamente marginalizadas e discriminadas pela sociedade. As 'casas' funcionavam como espécie de fraternidades e eram refúgios daqueles que não encontravam aceitação em suas famílias e grupos sociais. As competições eram momentos em que você podia ser o que quisesse, sem ser discriminado. E a imaginação era o limite!

Espero que empresas como Amazon, Netflix e Google continuem a ampliar seus catálogos de filmes com temática LGBT disponíveis via streaming, bem como apoiem novas produções ou façam suas próprias (como Orange is the new black, por exemplo). E que os filmes possam avançar e retratar aspectos mais amplos e diversos do que somente os momentos de saída do armário. Acho que é uma tendência que vai se consolidar cada vez mais.

No mais, é uma sensação bacana [e de certa forma um recurso terapêutico interessante] quando um filme consegue despertar em você algum tipo de sensação ou sentimento ou te levar a uma reflexão sobre a sua vida e o que você almeja dela.

PS: Peço desculpas às meninas, mas de fato, o texto não fala dos [vários] títulos lésbicos que também estão disponíveis. Fica o convite para que uma de vocês dê sequência a este texto e escreva também!


Luca Vegga

Pobre é o homem cujos prazeres dependem da permissão de outros..
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