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Thiago Borges

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Sigur Rós, Islândia, Nikola Tesla e o que (não) significa criar algo sem significado

O breve artigo trata de um álbum específico da banda islandesa Sigur Rós que não possui nome e é cantado num idioma inventado pelos músicos. Esta despretensão de significados pode revelar ecos do passado quando um cientista chamado Nikola Tesla inventou um sistema de transmissão de energia elétrica sem fio. A síntese descontinuada destes pontos parece revelar uma experiência única de música, signos e significados. Sem contar a Bjork.


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Em 2002 alguns músicos da Islândia decidiram pela criação de um álbum inusitado: trariam ao público oito canções sem títulos e vociferadas em uma língua inventada. O disco ficou conhecido por dois parênteses “()” e seu encarte contava com páginas em branco que convidavam os ouvintes a livre-interpretação artística. Sigur Rós é um fenômeno musical no sentido inverso da comum celebração da indústria fonográfica. O reconhecimento internacional pode ser compreendido pelo avanço da internet e o compartilhamento de arquivos, mas deve-se, também, a sua indisposição as formas do cenário artístico atual.

Não se trata de enxerga-la apenas desviante do mercado: a banda possui contrato com gravadora, realiza espetáculos e saí em turnê por festivais mundo a fora. Entretanto, para além de sua fidelidade ao movimento do capital, urge do Sigur Rós uma saída faustiana: pode-se vender a alma, mas não se faz necessário entrega-la. Talvez o delivrar de sua música pelas vibrações planeta a fora seja a extrusão desta indivisível alma, não como pagamento, mas como presente. Um similar movimento ocorreu ao engenhoso Nikola Tesla no começo do século XX. Uma de suas invenções foi a possibilidade de transferir energia elétrica sem fios a partir do que convencionou-se “bobina de tesla”. O empreendimento de Tesla para a época não coadunava com os negócios e patentes de Thomas Edison e foi, para a tristeza do croata, tomado pelo governo estadunidense.

Tesla

A reminiscência da prodigiosa criação de Tesla parece ter ressonância na música dos islandeses: o que seria do planeta dispondo de grandes antenas espalhando energia elétrica limpa para todos habitantes sem controle ou necessidade de lucro. Dito de outra forma: e se a música pudesse ser livre e sem necessidade de significado para si ou para outros. Parece quem nem ao céu e nem ao inferno, mas sabemos que outra invenção também atribuída (com algumas divergências) à Tesla alcançou um devir destas duas dimensões: as ondas de rádio. Sabemos que estas estão viajando pelo espaço sideral ao infinito. Significa dizer que as faixas do álbum inominado do Sigur Rós que foram transmitidas por algum programa de rádio islandês em frequência modulada (FM) estão viajando pela “matéria bariônica”, ou melhor, por 4% de tudo que a humanidade conhece até hoje sobre o “universo”. Esta porcentagem inclui nós, os islandeses, os planetas, os satélites, as constelações, as galáxias e os buracos negros. E a maior parte deste percentual? Mistério ainda não decifrado pela ciência chamado de “energia escura”.

Voltando ao pedaço de terra chamado Islândia que desvia a construção de estradas para não destruir cidades milenares de elfos. Sigur Rós possui significado: rosa da vitória. Rosa é nome da irmã do vocalista – que também tem nome: Jonsi - que sobreviveu a enfermidades e foi o mote de batismo do grupo musical. O disco sem nome do Sigur Rós pode até ter “nome” e os fiéis ouvintes acabaram por aderir aos apelidos criados pela própria banda às oito canções. Ou seja, a possibilidade de não pertencimento a um campo semântico ou gramática física não se realiza plenamente. Revela-se também como promessa. E podemos nos perguntar: não seria este já um empecilho para a realização do sonho de Tesla? Residiria na linguagem os problemas da humanidade? Seria tudo uma questão de interpretação como Nietzsche bem (ou mal) nos alertou? Regressemos a terra do gelo. Após a crise de 2008 a Islândia foi a primeira economia afetada pelo colapso financeiro a soerguer novas bases de recuperação e superação. “Bom para os duendes e seus potes”, diria algum utilitarista confundindo a terra do U2 com a de Bjork. E mais: somemos a surpreendente prisão de alguns banqueiros que foram responsabilizados pelo eufemismo “inovações financeiras” e a decorrente “bolha” que afetou a população e sua economia. Enfim, o que há de errado com essa ilha e seus moradores? Há alguns anos refizeram a própria constituição do país a partir de consulta popular pelas redes sociais. Soube-se até que fizeram uma revolução: pelo consumo de cerveja. O que significa, afinal, Islândia?

Islândia

Retornemos ao Sigur Rós e seu disco sem nome e significado. O videoclipe da primeira música do disco – desconhecida também por Vaka – possui fotografia já batida do imaginário popular distópico: céus vermelhos, contaminação, escombros, crianças com máscaras de gás e um final surpreendente e também aberto a ...significados. O produto para MTV estava ali para divulgar o difícil álbum dos islandeses e gerar os ganhos enquanto mercadoria, mas trazia consigo o espírito de um tempo que ainda não aconteceu, sem referência ou fonte. Não se tratava de profecias apocalípticas sobre uma hecatombe nucelar. Os músicos – que não aparecem no vídeo – nos alertam sobre a possibilidade de respirar sem equipamentos.

Quem sabe o amanhã não é mais do que uma palavra e, infelizmente, recebe apenas um significado terrível para que não acreditemos num futuro diferente daquele que foi gerada pelas ideias brilhantes “eternizadas” pelas lâmpadas de Edison nos desenhos animados? Tudo se passa como se ancorássemos a nossos signos os significados enlatados que nos conformam as realidades inescapáveis e trágicas como as sardinhas em conserva – para fazer uma incursão tarantinesca a outra banda. Pois bem, poderíamos então ser energia – como as de Tesla - e trafegar em ondas vibrantes - como as músicas do Sigur Rós - para dizer a todo universo que não sabemos quase nada sobre ele. O mundo então seria esta coisa que cada um – não só os islandeses – inventaria o significado? Voltemos ao início, um fim. Descobriríamos que no meio do disco sem nome do Sigur Rós há um intervalo de trinta segundos entre as quatro faixas iniciais das últimas. O que os emblemáticos segundos guardam para a humanidade? Nada.


Thiago Borges

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