diferente

um blog para todos e para ninguém

Thiago Borges

Alguém desesperadamente impossível...Um amante.

Carta ao amigo distante

Apenas uma carta para brilhar nas horas terríveis do coração de um amigo.


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Repete-se um antigo ditado por aí: tarda, mas não falha. Tardo e falho na minha carta ao amigo distante. Poucos são os amigos... Parece que quando atribuímos esta qualidade a uma pessoa decidimos por um compromisso infalível. Alguns amigos tornam-se colegas e perdem seu posto. Eles se vão e não fazem tanta falta. Nada mal. Os amigos permanecem amigos.

Cada amigo merece uma obra de arte feita por nós mesmos. Cada amigo merece que o sagrado se revele a ele. Cada amigo merece que pensemos nele. Todos os amigos merecem o bom, o belo e o verdadeiro. Por vezes falhamos com os amigos. Deixamos que a ditadura do cotidiano nos censure na condução da gratidão e esquecemos de dizer: meu amigo. Egoísmos? Os costumeiros. Entrelaçamos nossas memórias e fazemos pouco caso deste nobre tecido de companheirismo que cobre cada amizade. Distraímos e caímos nas armadilhas da rotina. O relógio escraviza nossa alma e nos faz trabalhar a mercê das alegrias do ócio: demoramos para responder ao cultivo da amizade. Destruímos a comunicação fluída em nome dos hinos da “correria”.

Algumas pessoas dirão: os amigos compreendem nossa ausência. Eles são seres angelicais que nos entendem em todas as circunstancias. Perdoam. São para todas as horas, principalmente as horrorosas. Eu discordo, meu amigo. Ao escrever uma carta ao amigo distante eu assumo o dolo da ausência. Não se trata de desculpa, pois. Não faço uma carta buscando desculpa. Escolho aqui as palavras para significarem no seu coração o meu. Como se pudesse reunir o impossível com o infinito para dizer: estamos juntos, assim como todos os separados.

Quem deixa a flor da amizade murchar? Nós. Quem se esquece? Nós. Quem desata os nós? O amigo. A boa ideia de que “uma alma em dois corpos” sobreviverá até após a morte parece fazer sentido. Se meu amigo soubesse que eu morreria sem e por ele, traria sua vontade de viver novas vidas novamente mais umas vezes ou algumas? Meu amigo precisa saber disso. Ele deve saber disso. Provavelmente já sabe. Estou ao seu lado, amigo.

Os infortúnios e as amarguras dos anos que nos formam e deformam não serão suficientes para nos esquecermos de um amigo. As músicas já foram felizes em celebrar as amizades, assim como bons livros e muitas orações. Um sujeito de adjetivos predica a amizade atemporalmente. O meu amigo chora distante. Ele se perturba na solidão. Ele desiste. Ele esqueceu das flores do jardim que unem toda lógica da natureza do espírito? Esta carta é uma mensagem secreta em termos. Ela esconde o real intento de um abraço. Ela pode ser traduzida na leal língua dos amigos. Ela pode ser somente um subterfúgio para dizer o que se diz quando nos encontramos: vivo? Os amigos comungam do mesmo dia. Anoitecem juntos. São frutos de uma mesma memória que se lembra sem saber muita coisa. Sou só eu, amigo.

Está aqui a mão posta para que você se erga no inferno da lonjura. Os sinais que as galáxias nos enviam e que acabamos por nos trair por ausências: chamamos de silêncio. Somos piadas prontas dos nossos pequenos universos. Esta carta é uma estrela para brilhar (e apagar quando quiser). Quem mais nessa vida para iluminar nosso fosco ser que não o amigo?

Meu amigo que liberta a liberdade, meu Amigo.


Thiago Borges

Alguém desesperadamente impossível...Um amante. .
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