diferente

um blog para todos e para ninguém

Indiferente

Beije a felicidade (pois ela vai embora)

A felicidade foi se embora e a saudade no peito ainda demora, caro amante. Beije-a. Ela não volta.


Francesco_Hayez_008 (2).jpg "O beijo" por Francesco Hayez (1791-1882)

Assim lamentou o amante: O inferno são os outros beijos que eu não mais lhe darei. Deste pecado que cometi não há redenção: foi um beijo roubado, subtraído, inesperado e impensado. Minha pena será a descontinuidade do seu encanto. Serei encarcerado na redoma fria da sua ausência.

A cena não é nova. Dialoga com a tradição. É reconfortante. Exala romantismo, mas é da ordem do dia. Noticio aqui mais um capítulo de tristeza na vida de qualquer espírito que tenha experimentado a torrente cósmica do amor perdido. Será mesmo que Deus está com amante e não com o amado?

Quantas Dulcinéias ainda provocarão os Quixotes soltos aí pelo mundo? Quantas Beatrizes levarão alguns alegóricos dantescos às profundezas do inferno? Quantos pactos jurados a Mefistófeles pela razão de Margaridas serão firmados? Todos enganados na sela fria dessas dores. A tranquilidade do remanso passageiro da felicidade é exceção. Quando nos apaixonamos por ela saibamos de cor que é com a fugacidade que vamos lidar. A pequena ponte que cruzamos rapidamente entre o chão batido da terra cinza do tédio até o pântano da rotina costumeira e mordaz.

Os cantos tristes das paixões que vêm de dentro não cessam e o insatisfeito busca outra dose daquilo que os psicólogos modernos ainda chamam de objeto do desejo. Escolha sua ficção preferida e poste-se a sonhar com as amarguras de um novo amor. Poliamor? Mal vivemos um e ousamos mais. Menos é mais, Caravaggios? Chamam-me de barroco, mas meu coração não é minimalista, Diabo.

Os postes da cidade prometem trazer a pessoa amada como se houvesse um cemitério de animais que ressuscitam os mortos. Cada um com seu cada um, mas não é instigante essa busca incessante pela felicidade de um amor avassalador que possui nossos corpos e transferem nossa alma para qualquer lugar que não o juízo apaziguado das certezas. Quando nos amam, amamos necessariamente de volta? Iludidos os escritores vão escorregando palavras em mais um texto para reclamar seu quinhão de amor rejeitado e não compreendido.

Este fascínio, quase uma necrofilia, reduz nossas opções à teimosia pueril de querer um amor que por infinitas e ínfimas razões não podem decidir por nós. E assim o verme passeia pela lua cheia dos abandonados e solitários... Quem por ventura não decida pelo caminho do meio dos budismos contemporâneos ou o ardor achegado dos lares cristãos, será abençoado pela discórdia do caos dos poetas fugidos do Elêusis? Joguem-me no Lete e vamos esquecer os inesquecíveis amores...

E ainda sobra ao amante a fuga da vendeta para com seus negadores. Pois se bem trágico for esse amor dolorido como os de Vinícius exigirá cólera e revanche: o dilema de viver no paraíso sem amor ou frequentar o inferno dos amores...cabe a cada diabo a maldição da escolha...

Seria prudente a insanidade de abandonar de vez àquele que nos rejeita? Retribuir com solidão e indiferença exige uma maestria tão diabólica quanto a dos rejeitadores. Desfazer dos comandos do senhor das dores. Renunciar aos desígnios do maléfico e repelir o veneno de Julieta. Não morrermos juntos, srta. Capuleto. Romeu Wins!?

Não parece uma solução ao coração enegrecido pela dor do amor tamanha retribuição. O que mais poderá magicamente fazer o combalido amante rejeitado? Contrariar os desígnios do universo conspirador hobbesiano em prol de uma miúda vontadezinha? Que amor é esse que merece tamanho dispêndio de energia vital ou a construção de templos gregos de veneração?

Sua majestade, o amor.

E nessa luta constante, seus servos trabalharão se destruindo aos poucos para conquistar o quase nada que se pode quando o medo não impera. Pois é este o deus que lhe impede de escolher entre o sorvete de pistache ou chocolate. É o cadavérico medo que não viaja para Maldivas e se esconde em Lilliput.

É o fim do começo de tantos outros ou o definitivo término de todas as esperanças (vós que aqui entrais...)?


version 10/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Indiferente