diferente

um blog para todos e para ninguém

Indiferente

Às pessoas amadas

Somente uma oração pelas pessoas que amamos além do tempo e do espaço (e de mais alguma coisa).


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Dizem por aí que o diabo mora nos detalhes. Se verdade for, eu o visito constantemente quando oro no teu altar, pessoa amada. De modo algum faço-te de “deusa”. De um plano geral, deuses antigos eram adorados e curiosamente oferecíamos à essas divindades presentes. Não minto. Guardo para ti minhas orações, guardo. Transcrevo aqui uma delas, pessoa amada.

No momento em que ascendo a sua memória, lembro-me de respirar. Pois poucas vezes dizemos ao cérebro que precisamos desta função pois ele o faz automaticamente. Entretanto, você me traz para o chão bruto da vida. Eu preciso respirar para viver o que sinto por você. Exagero romântico. Talvez. Você é vida, também.

Quanto tempo o meu tempo existiu sem você? Talvez eu o meça com as batidas de um coração atordoado por outros tempos necessários. Este presente se faz presente pelo presente que é você. O tempo se faz cruel na medida em que não estamos juntos. Também sei qual é a hora pelo período em que não estamos próximos. Todavia, tento não me ater aos minutos de um tempo perdido quase sem querer de uma fábrica de solidão qualquer. Parece que conjugo o verbo “amar” em todas as pessoas e tempos possíveis quando dedico-me ao amor que provavelmente transcende os egos. Então meu tempo repousa no seu colo. Indeterminado. E eu me demoro em você.

Por isso não basta o silêncio sempre. Às vezes é preciso dizer sobre como eu amo você, pessoa amada. Se importa dizer, também se faz necessário ouvir. E se me entrego aos sons das harmonias que crias, apreendo no mesmo instante as essências que compõem a sinfonia da existência. Pois não basta caminhar por aí sem arte criar. É se detalhar meus sentidos, perceberá que eu não vi à essa terra somente para passear sem você. Todo lugar é partilha compartilhada contigo. Mesmo nas solidões que nos fazem tão belos, haverá sempre espaço para estar contigo. Em qualquer lugar.

Mesmo que acreditemos em amor além da vida, vamos todos morrer aqui mesmo sem contar com a promessa de um paraíso. Tão bem sei que temporadas no inferno promovem um paladar único para saborear a lealdade de um sereno amor, posso garantir.

Para cada pessoa amada eu olho para o céu e para a infinidade de coisas que não sei. Eu me ajoelho frente ao universo das impossibilidades e do reino do desconhecido. Porque sinto que o amor não é infinito, como dizem. Ele precisa ser compartilhado com cuidado para que não falte para ninguém. Economizo “te amo”, pessoa amada. Pois é preciso deixar raro o que de fato é. Não podemos cair na tentação de gastar amor ou entesourar demais. Corremos sérios riscos de desperdício e talvez precisemos buscar novos mundos fora daqui em busca de amor. Não podemos esgotar essa preciosa energia. Para ti, pessoa amada, nem muito e nem pouco. Somente o amor que o seu (e o meu) coração precisa.

E não vamos nos ater somente na perfeição de um amor idealizado qualquer. O sangue que nos cerca é a tinta para nossos trabalhos. Todo esmero que nos envolve preza por obras de bem e mal. Não nos afastemos das infelicidades e sofrimentos, pessoa amada. Não somos somente o que queremos. Haverá um tempo que não amarás e eu também não. Porém, nos bastidores, a direção ainda será de um amor maduro. Um que não rege somente as ilusões numa peça romanesca daquelas que perdem cor ao serem copiadas por tantos. Os desamores escreverão nossas linhas também. Nos darão vírgulas, travessões, parênteses e muitas reticências.... Talvez um ponto final.

Dizem os ancestrais que o amor maduro carrega consigo já seu fim, posto que amar é perder. Que ao embarcar em um novo amor, devemos já levar conosco o colete inflável para um eventual naufrágio. E se assim for, assim será. Pois se tento decifrar esse enigma proposto, caio num outro: parece que a esperança vence a experiência constantemente. Não deixamos de cair no mar novamente em busca das Maldivas ou de um afogamento. Estaremos vivos para um novo amor, pessoa amada.

E caso não destine cartas de amor para mim, pessoa amada, não se preocupe em corresponder. Se for assim, amo sua existência. Amo sem querer sua posse. Pois se aprimoramos o ato de amar, sabemos que ele tem relação intima com a liberdade. Não podemos ser carcereiros de corações, pois estes podem se rebelar e deixar de lado a síndrome de Estocolmo a qualquer instante. Seja livre, pessoa amada, principalmente longe de mim.

(E não duvide: a pessoa amada pode ir embora. E se ela for embora, aprenda a fazer festa após funeral. E se ela ficar, festeje como se fosse o dia antes do funeral.)

Todo dia é dia para o fim do amor, pessoa amada. Todo dia é dia para o começo do amor, pessoa amada.

Por isso eu oro. Pelos fins e inícios.

Por todos os meios de amar vocês.

Que assim seja.


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