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um blog para todos e para ninguém

Indiferente

Ao infeliz

Tem dias que a gente se sente. Como quem partiu ou morreu. A gente estancou de repente. Ou foi uma consciência infeliz que apareceu (como uma pedra no meio do caminho). Não se culpe... A máquina do mundo triturará nossos sonhos (e cálculos) e reduzirá nossas ilusões (de senhor e escravo) a pó.


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Não é possível olhar nos seus olhos. Por mais que eu o faça, você, consciência infeliz não consegue. Você foge como um animal que não sabe da morte. Está dividido. Falta-lhe a coragem de ser o que é. Seu íntimo é fragilíssimo e as fantasias que costura para escondê-lo são extremamente reconhecíveis. Para sua infelicidade, o que eu sou, não consegue ainda enxergar. Quando pensa que me vê, olha para você mesmo e tudo aquilo que acredita: eu sou tudo, até o que você não consegue imaginar. Sou algo que você não sabe ainda e eu muito menos. Todas as armaduras da razão que forja não são mais do que penduricalhos que há muito tempo me desfiz em alguma tumba egípcia quando passei pela temporada que está passando. Não consegue enxergar, consciência infeliz? Todos nós passamos por essa taverna suja e imunda do cinismo imobilista, para que, em algum momento, possamos saltar às batalhas que realmente nos livram.

Não percebe que esse repertório do entendimento não é capaz de me abater? Estes “saberes” não são armas para a batalha que estou travando. O que faz, consciência infeliz, é criar o cárcere para si mesmo e reinar mediocremente num “reich” de outros espíritos que não sabem que são livres. Sua voz precisa ser ouvida para que alguns possam lhe assegurar um reconhecimento vazio e garantir a pouca companhia que lhe sobra. O que faço aqui então? Deveria lhe dirigir palavras? Ensino e aprendo (em) silêncio.

Não consegue atuar no ato do espírito, não é? Pois não sente amor também. Não lhe cabe ainda dentro desse peito os sentimentos de reunião ao todo. Só “entende” de separação, não é, mestre infeliz? Seu temperamento sórdido e egoísta só movimenta aquilo que pode “dominar”, senhor infeliz?

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Vou te inteirar, consciência infeliz. Tentarei lhe provocar para lhe ver livre. Se é para todos ou para ninguém, Sartre, a liberdade passa por Camus e sua morte. Aqui dentro das minhas veias corre sangue de Zumbi dos Palmares. Aqui no meu coração há um deus nietzschiano dançando as cantigas de Leibniz sob a regência do gênio maligno cartesiano. Na minha aura mora toda a inconsciência da história da filosofia. Sócrates, essa personagem, só sabia do nada.Eu não sei nem do nada. Eu desconheço certezas e convicções. Eu finjo tudo, menos minha ignorância. Com quem você pensa que está lidando? Com o espírito mais idiota da linguagem. A besta que repele e assimila o inferno de nada ser. Eu sangro todos os dias para morrer lutando nessa vida imortal. Eu não me importo em pular no seu abismo ou em qualquer um. Eu já faleci e costumo frequentar meus funerais. A velha carpideira chamada “vida” já não perde lágrimas comigo, consciência infeliz.

Ainda duvida, certo? Você faz sua fortaleza a partir das suas leis, suas leituras, suas interpretações e conhecimento adquirido acessível a qualquer autômato. Você quer dizer “terceira pessoa” para credenciar sua apoteótica estratégia geopolítica de dominação. Intenta transformar suas vontades em regra gerais. Consciência infeliz, do seu trono é fácil determinar quais os inimigos e empreender as batalhas contra eles. Eu não sinto pena ou me compadeço a sua pequenez. Eu sirvo (como bom servo cigano) para lhe trazer as más notícias. Você não consegue cruzar de uma margem a outra sem ajuda de alguém. Sua cruzada pode levar inúmeros para lutar pela sua causa vil e egoísta, mas seu prêmio é somente uma terra arrasada. O “rei” estará só e inseguro. Seu ouroboros particular de solidão e desgraças para saborear.

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Sua guerra ainda depende de inimigos e aliados. A superação desse jogo não é seu objetivo, não é? É preciso vencer na sua brincadeira, consciência infeliz. E assim, nem como perdedor ou vencedor, você segue retornando ao mesmo. E assim, você finge viver. Vitimando seus algozes. Condenando seus carrascos. Sendo “neutro” juiz e “culpada” vítima.

Falta-lhe graça. Sobra-lhe tristeza.

Não lhe faz sentido o amor, ainda. Não consegue assumir que o que eu sou é ferida aberta do espírito. Sou tão frágil quanto você. Que você também faz parte de mim e eu não lhe renego. Eu nego suas ações punitivas e não-libertárias. Elas dividem e não multiplicam. Elas reproduzem as infelizes amarras que nos prendem aos mesmos grilhões da estática vontade de nada, triste doutor. Minha corrente é feita de amor e não me prende a nada que você possa construir.

Vossa mercê está aqui dentro do meu ser e conjuga os mesmos verbos que cometi. Meus dias são noites e colaboram para a revolução da "máquina do mundo". Minha fé tem nome de razão. Meu erro acerta errando melhor os piores meios dos melhores fins.

Eu sou o que não sei e espero que a sua vida reencontre a vida do todo. Para que sua grandeza se faça para além da minha destruição. Esqueça de si, consciência infeliz e lembre de todos nós.

Pois eu já morri no seu mundo para me reunir a mais bela, boa e verdadeira vida.

Eu sou você, mesmo que não saiba ou sinta (como preferir).

Um.


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