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Devaneios sinceros com o Ipê Amarelo

- Por que algumas pessoas simplesmente tomam algo por verdade, julgam, condenam e punem com tanta facilidade? Estou triste e ferido, caro Ipê Amarelo, você pode me ajudar?


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- Por que algumas pessoas simplesmente tomam algo por verdade, julgam, condenam e punem com tanta facilidade? Estou triste e ferido, caro Ipê Amarelo, você pode me ajudar?

Passeando pelos jardins e em meio a caras feias e recusas de contato visual, tendo “bons-dias” repelidos com silencio e desdém, parei para conversar com o vistoso Ipê Amarelo que na minha frente apareceu. Depois de dias de andanças e rejeições, pensei que inquerir aquela sábia árvore poderia me trazer alento em momento tão desesperador e triste.

- Sabe, Ipê Amarelo, na sua sombra eu paro com cuidado para pensar e refletir não só essa tranquilidade, mas atrelo a sua, as sombras das minhas dúvidas... E o Ipê Amarelo manteve o silêncio e me ouviu.

- Aqui dentro do que eu acho que sou, figura algumas imaginações e pensamentos sobre a condução das relações que travo com os demais humanos... Como você pode ver com sua visão privilegiada aí de cima, sou mais um desses que erram demais. Também sou representante do egoísmo e da desfaçatez que compõem minha carne, não nego.

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O Ipê Amarelo, desfrutando da paisagem e do céu azul, pouco balançava depois das minhas palavras.

- Devo ser também uma das mentiras que a vida conta e cobra depois. Não confesso somente para ter sua condescendência e fazer mea culpa. Eu também não sou como as flores que nascem de você que o colibri pode cheirar. Veja que eu sou um pecador praticante e não sei de outro lugar para morar que não o inferno depois que deixar de viver caso a cristandade seja a melhor interpretação desse mundo. Não posso dizer que não presto, porque algumas vezes eu faço coisas boas...Sei que são boas porque não sinto vontade que sejam reconhecidas por ninguém.

Uma flor do Ipê Amarelo caiu no chão e se juntou a outras tantas que caíram antes.

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- Sei tão pouco e das migalhas que sei, continuo me iludindo por outras que não sei ou não atesto certeza ou convicção maior. Talvez das grandes ilusões, o amor, seja a que mais dedico tempo. Como disse um português de sobrenome Saramago, “meu coração não é de ferro e sangra todo dia”...Sendo assim, minha sangria é desatada diariamente: caminho nas poças dele e deixo minhas pegadas por aí.

O Ipê permanecia quieto, mas parecia lúcido frente ao meu depoimento.

- Boa parte dos meus erros se dão nesse universo espetacular e furioso dos amores. Caio constantemente nas contradições que ele provoca e levanto muitas vezes dos escombros do chão que desaba depois da sublime força que as paixões nos toma. Dizem que os gatos têm sete vidas, mas os amantes devem ter mais...Sou prova viva disso, eu acho...Se amar é errar, sigo errando. Não aprendi acertando...

O vento ficou um pouco mais forte e levou mais flores ao chão. Uma delas passou pelo meu ombro esquerdo antes de encontrar o solo.

- Entretanto, isso não me faz um humano melhor ou mais preparado para lidar com suas armadilhas. Sinto muito e sinto demais. Quando pessoas do meu convívio passam a me fazer mal e se dedicam a me desprezar, sinto muita tristeza. Não sei mensurar os motivos de rancores ou mágoas e sou um completo ignorante para compreender como algumas pessoas podem se prontificar ao maltrato e as injúrias. Não sei planejar o mal para as pessoas e bem sei que isso não me defende do que pode ser feito em nome de uma possível justiça. Aos meus olhos a vida segue e não há espaço ou tempo para se vitimar ou alavancar punições aos vários algozes que surgem e surgirão ao nosso redor. O sadismo não está entre meus hábitos.

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O Ipê Amarelo parecia menos brilhante agora com as nuvens que filtravam a estrela da manhã.

- Algumas pessoas não medem o alcance de suas palavras e como más interpretações levam a penas cruéis. Alguns não percebem que a omissão e o silêncio dos “bons” podem desencadear coisas pavorosas e terríveis. Lembra de Auschwitz?Este não é um mundo ávido por “segunda chance”: podemos errar e colocar a vida dos outros à perigo. E assim é que me sinto, Ipê Amarelo.

As nuvens fizeram sua marcha lenta e deixaram o amarelo mais doirado do Ipê.

- Alguns amigos dizem para não ser tão “transparente”, para não “confiar” demais nas pessoas, para não dizer tanto o que sinto e faço...Como se fosse preciso viver todo o tempo do mundo mascarado para que não descubram minha “identidade secreta”. A isso dão o nome de “malícia”: que eu deveria ser mais astuto e preservar melhor o que é de “fórum íntimo”. Nem oito ou oitenta... Os conselhos variam de intensidade e alguns procedem, principalmente num momento como este em que estou machucado. Entretanto, eu procuro seus conselhos, Ipê Amarelo.

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Pelo um caminho de cimento todo bem delineado pela engenharia mais complexa, surge um terceiro que parecia já me observar conversando com o Ipê Amarelo e, de forma abrupta, com o argumento de autoridade, interrompe nossa prosa:

- O senhor está fora de si? O senhor tem noção do absurdo que está cometendo no momento? O senhor tem consciência da sandice deste disparate que está protagonizando?

O Ipê Amarelo gritou “Não!!!” e esticou um de seus galhos e empurrou o terceiro para alguns metros dali. Vendo o terceiro caído ainda atônito, assim o respondi:

- O senhor tem razão. Não devo confiar tanto assim nas pessoas. Contudo, continuarei amando algumas...


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