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Notas sobre um arrependimento

Qual arrependimento é possível? Seria humanamente possível se arrepender? Impossível ou inumano, ouso arrepender. Só não arrependo de ter vivido você.


"O remorso é uma impotência, ele voltará a cometer o mesmo pecado. Apenas o arrependimento é uma força que põe termo a tudo." Honoré de Balzac

Júlíana Sveinsdóttir.jpg "Löngunef í Vestmannaeyjum", 1956. Júlíana Sveinsdóttir

Pendo aqui necessariamente ao arrependimento. Refaço nessa tarde o movimento da chuva que não veio e arrependeu-se de cair no árido chão desta seca de pecados. Concedo ao meu espírito este taciturno empreendimento sem almejar nenhuma graça ou concessão. Submeto-me à fria pena sem pestanejar, pois, o feito não florescerá em desfeito diante de qualquer contrição na meia-noite de hoje.

Os ultrajes que cometi, as máscaras que vesti, as chagas que provoquei, os egoísmos meus que feriram tantos...Não há lugar confortável e certeiro como o inferno para me acolher. Predicar qualquer lógica que evidencie um local reservado para mim e meus pecados seria mais uma fuga. Um escapismo que não cometo, pois não busco redenção ou paz neste arrependimento. Deveria seguir uma lista de todos os descaminhos que providenciei na vida das personas com que estive. Deveria. Temo desfazer todos os nós deste emaranhado e sobrar pouco – ou quase nada – para dar conta de todos os arrependimentos. Pois bem certo e muito verdadeiro, é que não sou capaz de apurar todas injúrias que cometi. Quem bate geralmente não lembra. Um desses bravos que na terra pisou disse que “o melhor arrependimento é simplesmente, mudar”. Não reincidir no pecado. Sendo assim, não repetirei este. Dos jardins que destruí, escolhi me arrepender da mais bela flor que magoei. Talvez a dívida com uma flor seja um débito para com o universo. Pois assim faço, dos males que cometi, arrependo-me deste.

Deito-me na terra e, aqui do chão, peço licença ao tempo por existir na sua memória e nela fazer morada. Daqui do solo, reconstituo o nobre sentimento que nos envolveu durante sua permanência. Uma das poucas concessões que o universo nos concede é o “amor”: uma dádiva que ousei desperdiçar e esbanjar. Como se a energia do amor fosse algo infinito...Pois parece mais adequado, tentar desconsiderar o esforço de significar o infinito. Essa tarefa de dar significado ao sem-fim soa pretensiosa. Não tanto quanto colorir o amor sem saber todos os tons da natureza. Sem conhecer as cores desta bela flor, sem considerar aquilo que não sei daquilo que penso saber, sem respeitar os ventos insondáveis do desconhecido, sem a benção invisível do caos, admito que fiz pouco caso das oportunidades que foram a mim ofertadas.

Se pudesse me transmutaria nas orações noturnas das religiosas fiéis de Santa Teresinha do Menino Jesus ou na boa substância de um amor correspondido para transmitir minha vontade às palavras que constroem esse arrependimento. Pois em alguma esfera do universo, há minha consciência de ser autêntica tradutora da minha vontade. E se assim for, no utópico ou distópico, arrependo-me das tristezas dolorosas que minhas ações lhe causaram.

Não me arrependo de arrepender. Não me arrependo de ter pisado no mesmo chão que você.

9cdf89c0c718ef1.jpg "Frá Vestmannaeyjum (Elliðaey)", 1946. Júlíana Sveinsdóttir

Provavelmente este arrependimento chegue tarde. Por belo, bom e verdadeiro que aquele sentimento fosse, errei ao permitir que a minha insatisfação e a vontade de poder (mais) decidissem pelo seu fado. Como se fosse possível trilhar um caminho fora daquele sentimento extraordinário que nos pintou na carta dos amantes do baralho das deusas e deuses. Nada muda a forma e conteúdo de qualquer lágrima sua, bela flor. Se esse fosse o mundo ideal das compensações cármicas, haveria de acreditar que as dores que lhe tomaram, cedo ou tarde, retornariam para mim. E se houvesse isso, ainda seria um mecanismo desproporcional pois jamais saberei a sua dor, flor.

Se meus desejos fossem passíveis de realização, gostaria que do mundo brotasse uma vida amorosa para brilhar dentro de você. Pois vejo que o sol é o mesmo no crepúsculo e na aurora e por isso mesmo ainda me sobra uma esperança no peito que, um dia, o amor dentro de você irá renascer. Posso afirmar que é possível pois se no mundo existe “você”, é porque ainda há esperança. Porque parece que tudo que mastigamos é essa luz que os poetas não sabem dizer, mas dizem. E no meu sonho ela brilhará dentro de você.

Sempre.


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