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Indiferente

Qual o sentido da vida?

Simplesmente um relato fidedigno de um caipira de Minas Gerais sobre a origem do universo.


Caipira_picando_fumo.jpg "Caipira picando fumo", José Ferraz de Almeida Júnior

Lá no alto da montanha, numa casinha estranha, toda feita de sapé, parei uma noite à carro pra mór de dois xingo ouvir. Apeei com muito jeito, ouvi um celular Nokia imperfeito e uma voz cheia de torpor: “Chega mais, seu moço...depois vosmicê descansa, jurei de forgá pra morte da minha preguiça.” Pela varanda larga iluminada, ouvi uma moda sertaneja e o cabra tinha na mão um Ipad e pra dentro me convidou.

“O sinhô tem cara de “táseachano”! Arriégua, se apressa!” Disse que era presidente de uma empresa, doutor em economia e, precisava de algo, saber. “...mas o sinhô não se faça de rogado, só chegar! Que quer assuntar? Num sô dotô em nada, mas faço um café como ninguém...”

Perguntei: qual o sentido da vida?

“Ah, mas pudia preguntá coisa mais importante, né? Prá não perde viagem, vou te contar um causo. Tentarei fala na língua toda rebuscada dos sabichões prá te ganhá e me fazê entende, oquei?” Em silêncio, sentei num toco de madeira na frente do caipira e ouvi assim o que transcrevo nas linhas abaixo.

“Póde começá? Mas vosmicê não repará não que euzin tenho a minha versão da coisa...prá mó de otro num vim com lero-lero pra mi ludibriá. Aqui não!”

Respondi com o polegar em riste e assim ele contou:

“Era uma veizada uma terra sem verbo. Sem vergonha mesmo, “sem caô”, como os minino do Rio fala. Da moda que ninguém conhecia palavra. Pois cada uma delas foi criada para fingidura e dissimulação, segundo a interpretação de um doido lá das europa. Antes não havia quem dissesse “algo”. Não tinha conversinha. Só havia luz, parece. “Papo reto”. E de outros arqueires diferentes da Terra chegaram uns seres esquisitos. Eram grandãos cheio de oro e fizeram deste rincão um trucão pra dá risada. De modo que ficavam lá no mirante deis de longe, prantaram um monte de bicho . Pois se bem apurei, o tal “praneta” é só mais um como os otro tanto espaiados e pelo mundão. Vai saber qual é a desse tal “mundo”. Pode não ser grande assim, não...tu vice? Os astrono faiz conta, mas num sabe as medida tudo...pelo menos eis é hurmide, num fica aí inventano as coisa sem cunhecê tudo...

Daí, ocê isqueeeece aquela prosa de “eva, adãos, cobra, paraíso...”. Casca fora disso se não o sinhô não vai acumpanhá o andamento da prosa. Aqui ó... os grandão lá mais uns otro cabeçudo, pusero umas cascavé e tiú bitelo pra suportar o calor daquele zonão de energia, o mardito sór. Depois, jogaram água em tudo e deixaram uns peixes, que, tocado pelos banzeiros do aguaréu, começaram a pular pras margens. Os escamosos criaram perninhas e subiram terra acima. Com o tempo treparam as árvores, cresceram penugens e daí, pra criar asa e avuá, num ensaiaram muito...Aô galinhãos!

Um barbudão fugiu da muié e foi vive numa ilha de lagartões, e iscrivinhô (tá até aqui no meu tablete) que foi daqueles animais que o homi (iguár nóis, tudo fedorento) decidiu começar sua historinha. Mas antes, sô, nóis veio foi do tale de macaco. Daqueles chimpanzés bem graúdo, Tarzã, surgiu homi varão e o bicho bão muié. Foi dos macacão que surgiu o “nóis”. Tem cabidura? Pior que tem. Depois dessa toada, começaram cuma prosinha de “homi de caverna”. Foi desses fios de quenga que virô nóis. As muié levava paulada na cabeça purque elas num era facinha. Hoje num precisa mais batê nelas, ne? Eis era atarazado dimais. Era só fazê carinho no cangote delas e cuidá. Entonces...

E o sinhô me perdoa, mas vou falá no meu jeitão, tá bão?

Vou acendê um pito aqui pra espantá com fumaça os zombeteiro. Pois bem, num tinha essa de sombra fresca e manga caindo na mão, não! Os tal homi tinha que trabaiá, espicharam demais e cutucaram pedra, paia e graveto...queimara o tal do fogo. Aí pronto! Sem bombeiro os dente de comê carne dura afinaram e o tal do homi começou a fazê marmita quente. A xepa cozinhada fez o cabeção pirá dos nossos véi. E aí, dotô...aí começa a baboseira. Uns homi piraram e fofocaram uns pros outros que esse galpãozão (o pranetinha) foi criado por um Papai dos grandi... E, pono medo nessa galera, falaram que nóis morre e se não obedecê as ordi desse painho....todo mundo se estrepa. Vai viver prasempre com fininha braba num lugar quente demais da conta...

Vai vêno...depois, uns mateiros diferentes, começaram a inventar outra historinha de que a terra era bolada, toda redonda, igualzinha as de chutá mermo... Tavm certo os ladinhos, mas quermaram uns monte...Os tár foi perseguido e queimado nas fogueira na frente do populacho... Quem mandô desconversá as ideia do painho? Bão, dispois disso os tár foram sendo aceito por aí e tal...oncotô memo? Ah, alembrei! Tenho uma raiva disgraçenta de quem fala “sempre foi assim...” que me inerva! O mundão ia mal obrigado e nananana... ai os nego começaram a não conseguir carregar as riquezas... que que os homi fizeram? Papelzinho pra fingir que era oro...O sinhô, dá licença? Ocê tem noção? O sujeito homi tinha lá tantas pratas e dai escrevia num disgraçento de papel que era a mesma coisa! Ôôô, os tonto num querditô? Aí virô, como diz da mó do outro, todo povo colocando plaquinha “isso é meu!”... os bobo tudo caiu nessa...ah, toma tento!

Depois, espia só, sá...surgiu as casona pra guardar as fortuna dos cabra! Ai, chegava na vila lá longe e falava assim ó: “dois mil oro”! Levava tudo! Capaz...Mulecada comprava as coisa a rodo e pulava pra dentro. Foi bem assim! Tá acompanhano? E agora começa a tristeza, da até dó...De mentirinha em mentirinha os homi saíram nuns jangadão, pra cabe gente demais... e arregaçaram a pegá as terrinhas além do mar. “Isso aqui é meu, isso aqui é seu, noves fora, td e tale...”, esse prosoê correu solto e no final, tava tudo dominado! Estribaram forte e puseram tracinho no mapa e agora o nome chique era “estado”...tudo arrumado pelas “leis” (coisa de grego, zorba, saca?)...

Aí aqueles rapaiz que não foram quiemados pelos “filhinhos de papai” começaram a inventar as máquina. Fumação de carvão e os caixote saíram rolando nos trio, levantaram umas teia e começaram a açar o ferro e...pronto! Tava todo mundo fazendo puxadão pra criar coisa pra fazer mais coisa...e aí o trem degringolô...

Môço, os estadão virô choupana de fazer arma pra mata contrariado e o pau comeu solto! Osômi saíram nas vias de fato pra quebrá tudo! Aí vinha um mané, falava assim....”ô, vamo pará, isso não dá dinheiro! Vamos fazer as pazes pra vender mais...”. Cê num duvida, né? A turma caiu de novo! E aí vai ino, foi fono, a turma voltou pra porrada e inventaram uma tal de bomba atômica...ocê num tem noção... Aquilo tirou os japoneis do chão! Matô tudo!

Pois é...mas teve uns alemão que sabia voar sem querosene e um outro gringo lá nos estaites que fuxicaram e fizeram energia limpinha pra quem quisé...mas o trem era bão demais pra sê verdade e cabaram com tudo. Depois os cabra foram lá na lua e encontraram uns caboclo diferente e do mesmo jeito que foram, vortaram...e o medão? Aí num contaram não, sô...ficaram na maciota, só de oio, pois era tratá dessas coisa aqui na praça que tudo que é gente ia tê acesso...povo ia dismaiá só de sabê que os gringo num era tão poderoso assim...disconversaram. Aí virô prosa de doidin...disco avoador, etezinho de varginha, tsss... largaram mão e falaram que era filme de róliúde.

E, pra mó do outro, “ficou tudo bem”, né? Que nada, cê é besta...os bixo pularam pra ganhá dinheiro e aí a vaca foi pro brejo de vez. Vendinha pra tudo que é lado! Os inteligente das escola chama a lombrigona de “capitalismo”...Ô negócio de terno e comedô de gente, vorta...! Os gringo inventaram mais pau de fogo e colaram tudo que é gente pra costumá a compra fiado e comprá, comprá, comprá... e os tonto compra tudo e reza. Ah, a turma reza demais pra tudo isso! Só bobagem. Cacareco. Num vence de gastá o tale do dinheiro, cruz credo!

Aí tá nóis aqui, só no bico, carcando o bico na cajibrina e falano mar dos otro... tá vendo como a coisa é? Nego vem aqui falá de coisa e tal...só nhemnhem. O buracão é mais lá pra baixo... E pra mó do Tião, “tá tudo na unha do capeta”! Afinár, cê pescou o meu caso?”

Balancei a cabeça e confirmei.

“Então tá bão! Agora, se vosmicê quisé sabe memo o que importa é terra, água e cochilo. Pranta, cói, dorme muito, fica à toa demais da conta... dexá o mundo pegá fogo, quando o incêndio chegar aqui ocê tará forgado e cum água pra apagá sua sombra...num é?”

E depois?

“Óia, eu cismo que os grandão que fizeram essa joça toda aqui devem estar cascando o bico dessa bosta! Tipo assim, “alá! Alé eis lá! Se lascaro...cagaram em tudo! Se danaram”! Eis deve tá tudo espiando e lá pras tantas vão vir limpar o estrago da festa... Má não vai longe não, sô! Som arto demais atrapaia os vizinho...Daqui a pouco os patrão reclama e os homi chega pra colocar ordi! Que nada, os homi pra vem pra causá, no começo era só bagunça mexxmo... o tal do Caos.”

Olhando para aquele senhor de setenta e poucos carnavais, retruquei: E nós?

“Ué, se vosmicê fechá com o amor, tá limpo...tá livrão! Enche o bucho de amor! O marvado amor pra afogá tudo! Precisa sê passarim azúr sorto! Como tem que sê!”

Levantei-me. Busquei a pá. Cavei um buraco redondo no céu e ali me deitei.

“Tá cedo! Fica mais! Lava os pé e dorme! Só num fica sentido com a vida não, sô!”


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