diferente

um blog para todos e para ninguém

Thiago Borges

Alguém desesperadamente impossível...Um amante.

Enquanto eu estava no Facebook

Muito se diz sobre "a" crise e seus culpados. Pouco se diz de si e de sua parcela na tal crise. Pois o "modus operandi" demanda mais culpados. Pois o "inferno são os outros" como já dizia o Facebook.


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Veja só você, leitor. Um costume ruim e danoso é ingerir a terceira pessoa do plural para enfatizar meus próprios argumentos. Dar volume a uma tese ou várias ao insinuar que falo por um coletivo. Dessa vez, falo por mim mesmo. E se lerão terceiros, é outro caso.

Do meu descaso, cuido eu. Assumo meu próprio cinismo. As minhas falácias. Em busca da promessa do reconhecimento, posso ter assumido muitos discursos que só diziam respeito às minhas feridas de narciso. Uma vaidade de autor mequetrefe que busca acolá um “curtir”. Também pudera, é assim que a rede me coloca para dentro do jogo. É assim que sou visto e aceito. E nesse brinquedo de entreter gente, eu caí. Eu cliquei em “eu aceito”.

Pois foi assim que perdi minha esperança: enquanto eu estava no Facebook.

Veja mal. Eu sou o inimigo da nação, o número um. Fui eu que falhei e me entreguei de bandeja para as tragédias do presente. Deixei de pensar no momento em que egoisticamente me coloquei para compartilhar meu tempo com a falsa realidade desse virtual. Meus protestos e críticas foram misturados na mesma latrina de um ou outro monstro similar. Minhas palavras não diferiram em nada daquelas dos mortos-vivos ressuscitados presos à velha corrente do fascismo de outras épocas.

No momento em que o país foi dividido em torcidas organizadas, lá estava eu engordando os dados da internet para fazer a roda viva do Brasil girar. Uma “pessoa do bem” e um “bom cidadão” fazendo o “dever de casa” se sentindo livre na ilusão da “liberdade de expressão”, nadando nas águas poderosas da “democracia”. Eu, parte essencial da engrenagem do sistema.

Pois mal, não há muito o que fazer agora. Meu esbravejo é mais um erro nesse mar de lama. Não fará diferença. Esse outro inferno que condenava era somente eu mesmo em outras palavras. Continuo o mesmo covarde lamentando minhas próprias falhas.

Sou eu esse ser medíocre, vendido e desgraçado. Aquele “lobo do homem”, sou eu também. O apontador intelectualizado, o acima do bem e do mal, o verdadeiro agente da razão e da prática científica... E da corrupção, sou filho legítimo. Cúmplice de voto e de fé dessa máquina de moer gente. Fui eu que decidi por lucrar com a desigualdade nesse Estado das coisas. Não fui eu que decidi agir bravamente por justiça e liberdade. Participei ativamente das causas ilegítimas e da desonra dessa terra de brasileiros. Dei meu falso testemunho durante os julgamentos e facilitei a minha condenação e de outros. Coloquei meu corpo à serviço da vontade dos senhores e de suas querências.

Assisti essa derrocada do estado brasileiro de camarote. Destruí qualquer chance de um futuro menos terrível para os próximos que aqui nascerão. Permiti o banho de sangue em cada presídio e participei de cada chacina me escondendo no signo de “facção criminosa”. Meu dedo de pressionar “confirma” está na mesma mão que assinou os contratos de venda e uso das riquezas dessa terra e das camadas do pré-sal. Fui eu que compartilhei a mentira mil vezes até se tornar uma “pós-verdade”. Foram minhas pernas que caminharam na passeata para aumentar as estatísticas da rede de televisão. Eu dei o dízimo para ajudar o pastor dessa igreja do mal.

Porque eu fui me transformando.

Também fui eu que cavou esse buraco "para gente morar". Empurrei cada miserável para lá. “Fiz que não vi” cada criança sofrer todo tipo de abuso e maltrato. Desviei de cada indigente na rua e forneci crack para cada “nóia” usar, pois “bandido bom é bandido morto”. Porque direitos humanos é para “humanos direitos”, não é? Eu fiz o meu trabalho bem feito, porque não fui vagabundo-de-bolsa-família e fiz por merecer cada uma das minhas propinas. Eu queimei o mendigo porque ele não se esforçou o suficiente. Quem mandou ele não reagir? E o sem-terra e o sem-teto? Uma corja querendo mamar nas tetas do governo e dos meus impostos. Eu trabalhei para conseguir o que tenho e foi Deus quem me deu.

Porque eu “mitei” e fui “opressor”. Eu esculachei e disse “chora mais” na internet. Eu ataquei pelas costas porque o mundo é dos espertos e dos mais fortes. Porque família é “homem e mulher”. Porque ganância é bom. Porque não é hora de perdedores (porque eu sou campeão). Porque eu sou “top”. Porque feminismo pode e machismo, não? Porque eu posso tudo naquele que me fortalece. Porque minha liberdade termina onde eu quiser. Porque as escolas estão cheias de ideologia. Para que filosofia? Para ensinar as crianças a serem comunistas e afeminados? Eu não preciso estudar para ter meu dinheiro. Afinal, se tenho mais dinheiro significa que eu estou certo. O sistema premia os justos e honestos. É lógico. Tá na Bíblia. Eu batalhei para chegar onde estou e não vai ser intelectualzinho de merda que vai estudar com bolsa paga por mim pra estudar índio preguiçoso. Porque tem que aprender a matar e não ser morto de graça. Porque passou no jornal. Porque é cientificamente comprovado, eu sei.

E sabe de uma coisa? Dane-se. Não me arrependo de nada. Tudo é relativo. Cada um tem sua opinião. Eu não tenho preconceito, mas cada um com seu cada um. Tá com dó? Leva pra casa! Quem não faria a mesma coisa no meu lugar? Não sou diferente de ninguém. Direitos iguais. E se esse país chegou onde chegou não é minha culpa. Eu sou produto do meio, não tenho responsabilidade.

A culpa é sua.


Thiago Borges

Alguém desesperadamente impossível...Um amante. .
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