diferente

um blog para todos e para ninguém

Thiago Borges

Alguém desesperadamente impossível...Um amante.

O fim das ideias (e do humanismo) e o espírito do tempo das "pós-verdades" que nos devora

Em tempos de "pós-verdades", não nos resta muita vida. É a hora de Trump e dos aniquiladores das ideias. Vamos lamentar a desgraça do presente que nos separa pelo "muro" da desigualdade e da ignorância. Há luta possível?


saturno.jpg Saturno devorando a un hijo, 1819, Francisco de Goya

Do lamento

Urge um tempo em que a vida perde sentido. Em que o que foi chamado de humanidade se desdobra de conceito em conceito sem se dar por achada. Em que a forma das ideias suprime vorazmente os conteúdos. É nesse mesmo momento em que se assume um neologismo temporário para dar conta desse distúrbio da linguagem: pós-verdade. A inexpressão que denota uma verdade que não necessita de fato ou a mentira compartilhada mil vezes, uma flor que independe de semente para ser reconhecida num jardim qualquer. E a metáfora perde seu brilho e nem cabe aqui nesse texto. Muito menos a ironia. E somem os interlocutores providos de sensibilidade e repertório para o debate. E não há repercussão das diferentes ideias de diferentes pessoas. Não interessa aquilo que não possa ser trocado no jogo do mercado. O que não pode ter valor de troca ou ser comercializado pelas pessoas e seus costumes tão entranhados de consumo. Pois nem o proibido é tão interessante no presente. Pois a censura foi naturalizada nesse dia-a-dia. Não há nada aos transeuntes que não possa ser descoberto no mecanismo do entendimento, do conhecimento especializado e na busca pela internet. Porque a memória não mora mais na Tâmara que passa de geração em geração lembrando o velho mote dos ancestrais. Se os gigas dos aparelhos são suficientes para as fotos, são mais do que suficientes para viver. É que pensar é copiar. Fazer é colar. Ser é um processo danoso caso não seja a reprodução do individualismo: único modus operandi que garante a venda e compra. São tempos pervertidos, adoecidos e penosos quando a imaginação não é nada mais que uma ocupação de imagens coerentes com o tal sistema. Não só não se reconhece o “outro” como também não há reflexo possível que não seja o aceito pela vitrine dos vencedores. O suposto prêmio ainda é o dinheiro, um totem sagrado e vivificado em cada uma das relações. Os abençoados, por mérito, os ricos. Vampiros do triste esmero de cada “morto-vivo” que dispõe de sua energia para fazer a roda girar. Rentistas de almas e corações.

Da desigualdade e dos muros

É o mesmo tempo que concede à oito homens o montante de fortuna superior a mais da metade da população mundial. Uma desigualdade que é amenizada pelos grupos midiáticos destes mesmos homens que ensinam o homem contemporâneo no que acreditar. Fábricas de “pós-verdades”, por suposto.

Vislumbramos estribilhos de outras épocas com um grupo que se autoproclama Estados Unidos da América e toma decisões baseadas nas suas próprias visões de mundo. Um governo que foi eleito por uma democracia artificialmente construída pelos veículos midiáticos e que responde cinicamente pela união de todos cidadãos “americanos”. Ungidos por uma suposta maioria, o governo de Donald Trump alça voos perigosos numa política erguida por esquisitices como por exemplo os chamados “fatos alternativos”. Uma coletânea de falsos dados e conhecimentos para justificar um discurso e o desenvolvimento de políticas que atravessam os preceitos dos direitos humanos e a universalidade do humanismo. Não é somente um muro que será construído para separar mexicanos da “américa”, é um separatismo que nos faz alienígenas em nosso próprio planeta. São palavras mais que concretos que nos dividirão. Um pensador contemporâneo das relações internacionais provavelmente terá que revisar seus estudos sobre o uso da mentira por grandes líderes. John J. Mearsheimer escreveu Por que os líderes mentem? Defendendo a tese que poucas vezes a mentira é usada pelos presidentes no século XX. Trump inaugura um novo discurso para o tempo presente. Seria ele a personificação do espírito de nossa época?

Este episódio que se inicia na série da história não está isolado. É um spin off de outros processos que emerge no sistema internacional, eventos que trazem de volta o discurso de ódio que inflamou o planeta há menos de cem anos. São remakes de um massacre que tomou a vida de muito seres humanos em nome de uma superioridade étnica que mal existe para a antropologia e demais ciências que já exauriram as provas contrárias ao discurso racial.

Do Brasil

No presente, enfrenta-se no Brasil entraves ao debate das ideias e conhecimento proveniente da ciência. Acusam os acadêmicos brasileiros de terem sido gerados em berços “marxistas”. Que a universidade brasileira é um complexo do pensamento de esquerda e deve ser combatido. E nesse combate, o pré-juízo já é posto de saída. Os divergentes do debate cientifico se munem de “opinião” (talvez pelo projeto das chamadas “pós-verdades” e “fatos alternativos”) e pela imensa força da repetição oferecida pela mídia de massa brasileira e pelas não-necessidade de falseabilidade cientifica ou qualquer outro método que credencie as teses que são usadas para justificar suas posições. O corpo cientifico brasileiro é pequeno comparado aos seus antagonistas, é fato. Os acadêmicos são tipificados e diminuídos pela opinião pública mediante o jogo maniqueísta. Qualquer um que divirja do pensamento criado pela mídia brasileira é “de esquerda” (ou “esquerdopata”, “esquerda caviar”, “esquerdista”, “comunista”, “petista”, “marxista”, “vermelho”, entre outras). Tudo se passa a esses que para se atingir um pensamento crítico fosse bastante ter leituras apenas da tradição de autores críticos da modernidade até o pensamento contemporâneo. Como se esse academicismo fosse formado somente pelo pensamento contrário ao sistema capitalista vigente. Ora, há a possibilidade que alguns o tenham feito, mas não a maioria. Seria improvável há alguns não ter conhecimento das gêneses da sociedade civil burguesa sem as construções teóricas do pensamento liberal e da economia política. Do direito. Da filosofia. Da ciência como todo.

O pensamento crítico é tributário das teses de outros pensadores. Esse debate de ideias é que geram sínteses para pensar o presente. Não nos esquecemos de Adam Smith, David Ricardo, Hans Kelsen, Augusto Comte, John Stuart Mill, Bertrand Russell, Karl Popper, entre outros. Sem esse debate não faríamos crítica. E não produziríamos contrapontos e divergências. O movimento presente insiste em Ludwig von Mises como se este mesmo não tivesse dado conta do legado desses pensadores. Como se houvesse de fato uma contraposição tão arraigada entre Mises e Marx, como repetem por aí.

Seria impensável não trazer para nosso presente alguém como Martin Heidegger que providenciou pensamentos sobre o ápice do tempo que viveu dentro do partido nazista. Muito menos Carl Schimdt, Hanna Arendt, Simone de Beauvoir ou Jean-Paul Sartre. Muito menos os pensadores da chamada “Escola de Frankfurt”. Muito menos Michel Foucault, Gilles Deleuze e Jacques Lacan.

Sem contar os brasileiros que pesquisaram as especificidades do Brasil. Celso Frutado, Gilberto Freyre, Caio Prado Junior, Florestan Fernandes, Paulo Freire, Sergio Buarque de Holanda, Milton Santos e até Fernando Henrique Cardoso com sua versão da teoria da dependência. Pois assim pensamos nosso presente e suas mazelas. A partir da herança que nos foi deixada a nós por esses pensadores.

Da armadilha

Contudo não é disso que se trata. O movimento “perdedores x vencedores” é o mote que rege as discussões que surgem nas redes sociais. De um lado uma pretensa maioria que se diz politizada pela junção de opiniões desenvolvidas por grupos de interesse que se autoproclamam “liberais” (que travestem suas ignorâncias, traumas, ódios, etc.), que se unem ao discurso conservador amparado pelas religiões neopentecostais – e sua teologia da prosperidade) que são visivelmente amparadas e subsidiadas pela mídia (não só brasileira, pois o movimento é planetário). De outro, o suposto pensamento de “esquerda” que visaria uma utopia criada pelo próprio movimento “liberal-conservador”, um retorno ao comunismo dos países ligados a antiga USRR. Ambos lados convivem na cabeça deste “pensador de facebook” que se sente aliviado por estar “certo”, por ser “cidadão de bem” e lutar contra um inimigo comum. Ora, sabe-se que esse antagonismo só serve ao interesse de alguns grupos que precisavam retomar a fluidez de seus negócios num mundo globalizado. “Dividir para conquistar”, eis o mote deste processo. Não é novidade para ninguém. É ferramenta velha e caduca, mas eficiente quando há um povo não esclarecido sobre história (principalmente da sua biografia) e ciência. A alienação produz este entorpecimento racional, essa mediocridade que dá condições para o pensamento totalitário tomar forma e servir aos interesses de grupos específicos. Diante de um planeta com seus recursos cada vez mais escassos provenientes da própria máquina capitalista, não é de se esperar nada diferente. Recentemente em entrevista, o historiador camaronês Achille Mbembe proveu uma taciturna entrevista colocando justamente estes pontos:

“Outro longo e mortal jogo começou. O principal choque da primeira metade do século XXI não será entre religiões ou civilizações. Será entre a democracia liberal e o capitalismo neoliberal, entre o governo das finanças e o governo do povo, entre o humanismo e o niilismo” (Disponível em português aqui)

Em tom melancólico, Mbembe proclama o eventual fim do que um dia foi o humanismo. Que talvez o niilismo tenha alcançado proporção endêmica. Vivemos um tempo de separações extremas.

Do amargo que faz na boca do silêncio

Retomo o início do texto para lamentar aqueles que amigos que não podem comigo travar um diálogo. Sobre a tristeza de não realizar um projeto de sensibilidade como um dia expos Goethe. Daqueles que não puderam conhecer as tragédias na literatura. Que não ousaram pensar diferente mediante o ônus da solidão. Que foram trocados por moeda no mercado mundial. Que, como eu, é escravo desse tempo. Condenados cegamente no julgamento invisível desse saturno profano que não prevê nada mais que não a saciedade de sua fome insaciável. Que perderam a alma na luta contra a escuridão e acreditaram nas “verdades”. Que serão fuzilados pela ignorância. Que da poesia não sabem sequer sentir. Que da vida não podem sequer viver.


Thiago Borges

Alguém desesperadamente impossível...Um amante. .
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