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Thiago Borges

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Um ensaio sobre Wilhelm Meister: ou é o começo do fim ou é o fim

Um ensaio sobre a obra de Goethe, "Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister". Um dia, uma vida morre diariamente.


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Wilhelm Meister levanta-se à meia-noite. Sua alma desperta para uma longa caminhada. Seu destino é incerto. No peito, o coração desperto e sensível. Faz do teatro seu modus-operandi. Encena. Representa. Certo de si. As coisas para ele são o que as palavras dizem ser. A vida tem sentido na arte, sua ética possível.

Wilhelm, para quem cantas? Para a musa. O mote de uma existência. A absoluta certeza às 02 da madrugada. E por ela que se encanta. No canto da sereia dorme seus sonhos românticos, todo ouvidos. Uma peça por ela, a poesia do sim.

Má sombra de dúvida. Gênios malignos enganam seus sentidos. Ele pode estar errado, afinal. É difícil esquecer dela, Wilhelm. Cabe uma viagem aos meandros da razão. Calcula. Cobra. Nega. Viaja para fugir de si mesmo. Parte (se) às 04h para não perder tempo, seu precioso vale.

Na floresta, Dionísio o convida para dançar ao alvorecer. Embriaga-se do mais puro elixir das ninfas. O mundo é o que é, disse Wilhelm. Ele ri da dor. Beija a boca da história que se repete. Chora. Amanhece dentro dele a negação de si e do pensar. A arte urge para mais uma sublime esperança. Revivem as três graças no inferno de ser.

Pergunta-se sobre o infinito das 08 da manhã. Seria a noite a mais bela atriz ou a lua que tanto lhe encanta. Desilusão. Arranca do peito a solidão. Vê nos olhos da morte uma redenção. Crê. Confessa. Não se vê remorso. Ela o abandonou, Wilhelm. A poesia cede à prosa velha no mundo novo.

Às 10 horas do seu dia, foge como bom fugitivo. É de si mesmo que ainda corre. Tanto faz palco ou plateia. Afaste-se de mim, Wilhelm. Ao cair das cortinas, a máscara cai e, no escuro, toda consciência se faz infeliz. Pois as memórias o assombram e tudo que estava escondido, emerge. Quem tem olhos que veja.

E se bem lembro, no jardim do meio dia, Wilhelm reconhece o fado. Que não se pode deixar de ser marcado pela infalibilidade da contingência. Os acidentes e as despedidas. O inferno de quem fica e o sadismo de quem vai. É o limiar de decisão: ou se está disposto a morrer como herói ou ser o cínico imobilizado sem vontade de caminhar.

E que bons ventos o trazem após um salto mortal? As promessas de um porvir risonho de uma divina comédia. O contentamento com a mediocridade é prata da casa. A sina do simples. Trabalhe, Wilhelm. E às 14 badaladas, toma seu chá ao lado da querida. É o momento das desculpas e conformidade. A vida é assim. Tudo tem seu preço. Inclusive esse silêncio, cedo ou agora, serão cobrados pela inércia de um vazio que gritará até a surdez ser realidade efetiva.

Quem são elas, Wilhelm? São as ideias perigosas de um homem que se acha livre às 16 horas de um feriado. Que tragédia não foi encenada em seu coração, essa máquina de gerar abismos? Ela não dizia o que sentia. Guardava para si seus tesouros. Aí de mim ser tua, liberdade. Requer coragem. Eu não sou capaz de nada. Nas matas me conhecem como uma bela alma. Eu confesso...

E na hora que o sol se esconde de vergonha do dia que não aconteceu, surge um nada de si que fala sobre o centro que está em tudo e a circunferência em lugar nenhum. As razões perdem a razão. Tenha fé, Wilhelm. Abandonai toda a esperança vós que aqui entrais. E a coruja de minerva aponta às 18 horas. O ocidente é o drama que o oriente sonhou. Já não podes fugir mais agora que sabes o destino: aceite que tudo acontece sem razão e se desdobra vida a dentro sem sentido.

E para quem escreve estas cartas, Wilhelm? Para a filha, disse ele. Não lhe resta mais nada do que fazer história. A imaginação não atua mais no teatro das desilusões. Não há sessão às 20 horas e Wilhelm não sabe mais o que é poesia. É indiferente às vontades de um rapaz que morreu dentro dele como um fetus in fetus. Eu, irmão gêmeo do medo.

Apaixonado? Tarde demais. Às 22 horas, o real já se separou da fantasia ao final. Surge uma pedra que não bate, mata aos poucos o que sobrou de todas as verdades que mentiu para sobreviver. É capaz de criar uma sinfonia, mas não consegue ir até ti e beijar-te. E assim diz Fausto: essas feridas da vida, amarga vida, essas feridas da vida, Margarida. Para você gostar de mim.

E o bom filho à casa torna. Meia noite do bem e do mal. Descobre-se. O destino era a saída. Não se é o que era, mas conserva-se o que foi e, torna-se um (que são vários). Fale por nós, Wilhelm. Diz para ela que tudo que foi buscar já estava dentro de si. Arco-íris perdeu a cor. Agora não tem mais nada. Wilhelm Meister ensinou aos seus anos de aprendizado, existirem. Na parte e no todo. Poesia era prosa, o tempo todo.


Thiago Borges

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