distinto olhar

Um olhar distinto sobre as coisas permitiria a percepção de novas possibilidades?

Italliane Martins

Cativada pelas possibilidades do humano e inquieta com a inércia, aprecio o pensar diferente e o poder da critica construtiva!
Apaixonada pela Psicologia, pôr do sol, pontos de interrogação...

Doce Emburrecer

Estímulos que exigem cada vez menos do nosso raciocínio, vulgarização de assuntos sérios, quantidade exacerbada de informações e seu pouco aproveitamento e principalmente, inexistência da crítica para com aquilo que é exposto, imposto, talvez... Como é doce esse processo de emburrecimento.


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Alarmo-me com a vulgarização de uma geração que caminha para o emburrecimento coletivo...

Acontecimentos trágicos, notícias alarmantes, ocorrências que pedem o mínimo de empatia, são menosprezadas ao nível de virarem “memes”. São lançadas ao fundo do poço sem crítica construtiva, de questionamento, de ensinamento moral, e dali brotam “piadas” sem nexo. Alguns exemplos recentes podem contextualizar o assunto, como foi o caso da funcionária “fantasma” da Assembleia Legislativa de Goiás, que foi flagrada indo ao trabalho, marcando o ponto e depois indo embora, a mesma nega tal acontecimento e foge em uma reportagem, a repórter a chama algumas vezes por “senhora”. A seriedade do caso se tratar de desonestidade e infligir leis públicas, é varrida para debaixo do tapete e surge uma piada viral.

Ainda dentro do contexto político, o país encontra-se em condição de crise econômica e tal circunstância parece estar se normalizando na sociedade, assim como se fala em ir ao cinema no final de semana, se fala que “estamos em crise”, não se percebe a inquietação coletiva, o percebido são os famosos “memes”, que tiram a respeitabilidade da questão. Acidentes de trânsito são divulgados em redes sociais como peças de roupas à venda, adultério é disposto como a graça da semana, exposição pessoal é lançada como chacota, ladroagem como condição inerente a sociedade.

Alarmo-me com a ascensão das informações, não pelo fato de serem muitas, mas com o não aproveitamento real de tudo isso que é lançado na rede. O empobrecimento cultural vem sendo descrito há algum tempo por estudiosos, e hoje é percebido com mais clareza se observamos episódios corriqueiros.

No livro The Shallows: What the Internet is Doing to Our Brains (A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros), Nicholas Carr fala sobre a incapacidade presente em fixarmos nossa concentração em um dado assunto, em uma leitura, em um artigo que seja. Segundo ele, o número elevado de informações e comunicação está favorecendo a fofoca e a trivialidade. É como se o conhecimento estivesse então nas mãos de poucos e a massa estivesse com as repetições das informações, informações cada vez mais técnicas e desumanizadas.

A culpa então é do desenvolvimento tecnológico? Não, mediocridade dizer. Atrevo-me a dizer que a matriz da problemática esteja na educação. O modelo educacional contemporâneo é um repetidor de informações, os alunos se contentam com o básico do conteúdo passado, e não são encorajados a leitura, a pesquisas cientificas, ao criar novos conceitos. É ausente o estímulo a crítica e tal poder não é concebido por nossos jovens, estes estão diante de um mundo de informações e dentro desse “mundo” ha outro, cheio de possibilidades, todavia estão sendo “entupidos” sem filtro com tantos informes.

Sobre a crítica, refiro-me a construtiva, ela encanta. Contudo causa angústia, sendo via para sair do cômodo. Paremos então para cogitar sobre o interesse de governadores, da mídia, do sistema capitalista, em ter cada vez mais pessoas “emburrecidas” em sua sociedade, o controle estará com eles, claro. Sim, tal consideração não é nenhum novo insight, é algo diversas vezes falado, estando presente em frases de grandes influentes, como por exemplo, no dito de Paulo Freire:

“Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica.”

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Poderíamos produzir páginas e mais páginas sobre o significado da educação e de sua importância para a sociedade, mas de nada adiantaria, se permanecemos nesse gosto pelo doce emburrecer, se continuamos dando gargalhadas de assuntos sérios, se entramos na onda do que está sendo dito e compramos o pré-conceito daquilo, sem colocá-lo a prova do questionamento. O filtro das informações deverá então ser individual? Talvez seja uma proposta para o momento. A inquietação individual eventualmente poderia gerar novos conceitos. Receber uma informação e desmembrá-la do todo, questioná-la, independente de qual seja o informante, é um ato de estímulo ao conhecimento.

Isso também te alarma de algum modo?


Italliane Martins

Cativada pelas possibilidades do humano e inquieta com a inércia, aprecio o pensar diferente e o poder da critica construtiva! Apaixonada pela Psicologia, pôr do sol, pontos de interrogação....
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