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A arte tem o poder divino de resgatar indivíduos.

ADLLA RIJO

Adlla Rijo é escritora, autora de contos como "O dogma feminino" e "Psicanalhismo".

PSICANALHISMO (conto)

Sátira sobre uma tendência de analisar tudo pelo viés da psicanálise.


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Não havia fita métrica capaz de dimensionar a alegria de Venância, uma moça vinda do interior de Alagoas, ao ter nas mãos o seu certificado de conclusão do Curso de Formação em Psicanálise. Era mais um degrau alcançando na infindável torre de seus audaciosos sonhos. Já durante o curso de psicologia, ela não tinha dúvida de que sua meta era ser discípula incansável de Sigmund Freud, e tornar-se uma renomada psicanalista - embora tal ofício ainda não seja nos dias de hoje sequer regulamentado no Brasil, mesmo passados mais de setenta anos da morte de seu fundador. Essa última parte do plano ia depender, como é óbvio, do seu empenho. Pois bem, diploma e certificado na mão, Venância estabeleceu-se, definitivamente, na cidade de Maceió, o paraíso das águas, palco das luminosas praias de Ponta Verde e Pajuçara.

Os anos se passaram. Venância tornou-se professora de psicologia no ensino superior. Posteriormente, fazendo uso das economias que arrecadara através de uma postura que podia enquadrá-la como uma autêntica sovina, adquiriu uma saleta de dois cômodos que transformara em consultório de psicanálise. A partir de então, começou com uma pequena clientela cujos indivíduos, aderindo e abandonando a terapêutica, comprometiam a regularidade do tratamento. Essas iniciações e abandonos deixavam a nossa personagem numa crise quase existencial, mormente por ser a psicanálise um processo, sabidamente a longo, ou melhor, a longuíííííssimo prazo.

Por mais que se esforçasse, não conseguia manter uma freguesia à altura de seus conhecimentos adquiridos a custa de tanto esforço. Não existia um dia sequer que Venância não se debruçasse em prol dos livros, cuja temática era, invariavelmente, a psicanálise e seus conceitos. Modéstia à parte, e levando em conta que a perfeição não é deste mundo, considerava-se senão a melhor, um dos três melhores profissionais de psicanálise daquela região.

O poder aquisitivo de sua clientela também dificultava o propósito de fazer dela o seu laboratório, com a mais alta determinação de desenvolver a teoria de Freud. Inúmeras vezes teve que fazer significativas concessões financeiras para que seu analisando ou analisanda pudesse permanecer, ainda que por mais um período, aos seus cuidados.

Noutras ocasiões, a própria transferência e contratransferência eram o empecilho. Certa feita, apaixonou-se desesperadamente por um jovem analisando casado que tinha, senão a metade, um terço da sua idade. Não é preciso dizer que isso dificultava sobremaneira a adoção de uma postura isenta de sua parte. Numa determinada sessão, ao invés de se referir ao rapazola como Nestor, que era a sua graça, chamou-o de “amor”! Este ato falho custou-lhe mais um cliente, pois Nestor referiu o fato à esposa, que não mais admitiu a permanência dele na análise.

Em outra oportunidade foi Dorinha, sua analisanda mais antiga, o problema. Esta há muito se encantara amorosamente por Venância, declarando-se, insistentemente, a cada sessão. Mas a questão é que a intensidade da paixão de Dorinha não lhe permitia ficar só nisso. Desejava ardentemente concretizar este sentimento que, para ela, era dos mais genuínos. Foi assim que, num certo dia, no meio de uma sessão, Dorinha despiu-se inteiramente, jogando-se, em pelo, nos braços de sua analista, ao mesmo tempo em que sussurrava: “Minha adorada!”. Esta, num ímpeto, começou a gritar e a dizer que ali não era um bordel. Pois bem, mais uma cliente perdida. Sim, pois com relação a essa paciente, fora a nossa psicanalista quem não quisera dar continuidade ao tratamento.

E, nesse ritmo, Venância foi percebendo a sua clientela esvair-se como vinho tinto da melhor safra escorrendo pelo ralo, restando apenas meia dúzia de gatos-pingados.

Venância, todavia, era tão fiel ao seu laborioso objetivo de aplicar os seus conhecimentos teóricos, que não deixava escapar ao seu microscópio freudiano nem mesmo as mazelas inconscientes dos parentes mais próximos, quem dirá dos colegas.

Foi com esse particular comportamento que ela chegou a se indispor com os mais arredios, “pobres ingratos” na sua visão. Seu primo Dinaldo, que residia no Ceará, mas que visitava, com uma certa periodicidade, o nosso Estado, já não suportava mais ser alvo de suas observações científicas.

"Olha Dinaldo, você tem um superego muito rígido! Devia trabalhar melhor essa sua rigidez na análise. Além disso, faz uso em excesso dos mecanismos de negação e projeção, tão bem abordados por Freud."

"Não quero saber de análise, nem de Freud! Aliás, jamais me submeteria a esse tipo de tratamento. Para mim tudo isso não passa de vigarice."

"Não seja ignorante! Como pode desmerecer assim uma ciência tão sublime! Procure conhecê-la antes de descreditá-la. Sabe de uma coisa? Isso é pura formação reativa. A verdade é que você queria ter os meus conhecimentos."

"Toda ciência submete, previamente, as suas premissas a provas. E qual o modo de provar essa teorias psicanalíticas? Nenhum. Acho que a ignorante aqui é você. Ignorante e perturbada. Não fala em outra coisa!".

"Ora, que audácia! Grosso! Estúpido!".

Desnecessário dizer que essa relação parental estava absolutamente comprometida; no entanto, numa coisa qualquer pessoa, mesmo que leiga, havia de concordar: seu primo Dinaldo era acometido de um distúrbio psíquico não raro em homens, a síndrome do cavalo batizado. “Não valia mesmo a pena manter relações amigáveis com esse patife”, pensou ela.

Com relação à Maristela, sua colega na turma de inglês, a contenda também podia ser evitada, se Venância tivesse sido menos incisiva. É que, ao comentar um texto de redação trazido e lido por Maristela na aula de inglês daquele dia, ela utilizou-se, mais uma vez, dos princípios psicanalíticos para desvendar o real conteúdo do que ali estava escrito. E, sem pestanejar, redarguiu:

"Se Freud tivesse lido esse seu texto diria, no ato, que ele é a expressão de algo mal resolvido na sua sexualidade… Devia pensar seriamente em se submeter a um processo psicanalítico."

"A senhora nunca ouviu falar que conselho e água benta só se dá a quem se pede? Guarde essas suas teorias para tratar a senhora mesma."

Note-se que o texto era apenas uma simplória narrativa sobre uma barata. Ninguém mais, além de Freud e seus discípulos, seria capaz de apreender e atestar o elo entre esse ínfimo e desprezível ser e uma sexualidade mal resolvida. Mas, os olhos e ouvidos apurados de Venância, que não eram os da maioria, deviam enxergar mais longe.

E assim sendo, de grão em grão, de palha em palha, o saco atingiu a saturação. Não bastasse o fato de sua clientela ter minguado, Venância tornou-se, pouco a pouco, uma pessoa evitada no meio em que convivia. O que teria provocado tal efeito? A sua persistência em querer ajudar o outro? O mecanismo de negação de tais pessoas? A falta de habilidade de Venância em manifestar as suas “valiosas” interpretações?

Apesar dos dissabores da profissão, nossa psicanalista não se enxergava como uma derrotada. Esmorecer? Muito pelo contrário. Sozinha, diante de seu imponente espelho veneziano de moldura dourada, fitando seu rosto já bastante sulcado pela charrua do tempo, com os olhos semiabertos e flamejantes, como se fossem duas lâmpadas vienenses, e uma expressão napoleônica, pensava: “De que me importa se não tenho a clientela de Freud? A humanidade pode ser decifrada, e eu possuo a chave”.

(Imagem: Google)


ADLLA RIJO

Adlla Rijo é escritora, autora de contos como "O dogma feminino" e "Psicanalhismo"..
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