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A arte tem o poder divino de resgatar indivíduos.

ADLLA RIJO

Adlla Rijo é escritora, autora de contos como "O dogma feminino" e "Psicanalhismo".

QUE ESTÓRIA É ESSA DE QUE DEUS ESTÁ MORTO?


Seria o progresso científico experimentado na contemporaneidade incompatível com a fé num Ser Supremo? Se a resposta fosse positiva, em que medida poderíamos resgatá-la?

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A crença em Deus e em Deuses vem regendo a humanidade durante milênios. A criação do universo e do homem sempre foi atribuída aos poderes divinos, cabendo a cada indivíduo reverenciar seu criador ou criadores através dos rituais religiosos. No que toca ao mundo Ocidental, essa situação sofreu alterações a partir da revolução científica (expressão usada pelo historiador Alexandre Koyré para designar as significativas mudanças que ocorreram na estrutura do pensamento humano entre os séculos XVI e XVIII e tiveram grande influência na evolução das ciências). Em nossa era, a crescente tecnicização proporcionada, especialmente, pelas tecnociências vem afirmando insistentemente a morte de Deus, tal qual ele foi gerado pela mente humana. Referido tema vem sendo constantemente explorado no âmbito filosófico e ganha consideráveis proporções em nossa época. O desenvolvimento científico, particularmente nas áreas das biotecnologias, vem sugerindo ao indivíduo que ele pode mais do que supunha e que sua capacidade geradora poderia atingir até mesmo os patamares antes creditados apenas aos entes divinos.

Os poderes de transformação da natureza alcançados através do conhecimento científico têm indubitáveis aspectos positivos dada a fase da humanidade em que estamos inseridos. Contudo, há também visíveis, ponderáveis e substanciais perigos nessa conquista. Na medida em que consegue sujeitar a natureza não só às suas necessidades, mas também às suas conveniências, transformando o meio ambiente, manipulando geneticamente os seres que aqui habitam, clonando animais, alterando a química dos alimentos - se é que tais produtos, industrialmente fabricados, podem ser chamados de alimentos, o homem expande seu ego. Afirma, para si mesmo, a morte de Deus (esse Deus antopomórfico tão incutido em nós), e por vezes acaba acreditando ser, agora, o todo poderoso. Tal fenômeno, qual seja, o da morte metafórica de Deus, dependendo de seus desdobramentos, pode ser visto como salutar ou deletério, a depender do ângulo de observação.

Se levarmos em consideração que a grande maioria dos homens necessita de um conjunto de regras capazes de pôr um freio em seus instintos destrutivos, com o intuito, inclusive, de não sobrecarregar, ainda mais, o sistema penal, somos obrigados a admitir, assim como o fez o filósofo Espinosa, que o Deus personalizado defendido pelas religiões monoteístas, a exemplo da religião católica, é não só necessário, mas indispensável à humanidade.

Por outro lado, se compreendermos a morte de Deus como sendo a morte de um ente (onisciente, onipresente e onipotente) controlador, punitivo e sempre prestes a julgar e castigar os “pecadores”, a constatação de sua inexistência não seria algo indesejável. Aliás, tais características não se coadunam com a concepção de um Ser Supremo dotado de bondade infinita, revelando a evidente contradição para aqueles que possuam um pouco de bom senso!

Nietzsche já havia matado Deus, angariando a antipatia de muitas pessoas. Mas o que ele fez realmente foi pôr um fim no velho conceito de divindade imposto pelas igrejas e acatado pelos fiéis como dogma. Conforme seus ensinamentos, Deus era um conceito que o homem tinha criado e do qual precisava em face do desencanto do mundo, mas que era necessário abandonar deixando-o morrer. Nesse sentido, não há como negar que Nietzsche teve um papel fundamental no tocante ao progresso do conhecimento humano, haja vista que, quando uma ideia ultrapassada morre, é momento de buscar novos horizontes.

É sabido que nenhum método científico se presta a provar ou descartar a existência de Deus. Da mesma forma, Nietzsche jamais poderia fazê-lo. Seu grande mérito foi o de levar os indivíduos a uma reflexão sobre a crença em um Deus repleto de incoerências, crença essa que favorece a manutenção de uma casta de homens que se intitulam seus representantes e fomenta a subserviência por parte de outros.

Quem assistiu, recentemente, ao filme “14 Estações de Maria”, do diretor e roteirista alemão Dietrich Brüggemann, e compreendeu a sua mensagem pôde assimilar o quanto a religião católica e seus preceitos logram aniquilar a vivacidade de uma pessoa, tornando-a, no mínimo, apática e distanciada de sua verdadeira essência.

Nessa linha de raciocínio, Nietzsche deu a sua inenarrável contribuição ao pensamento filosófico, mas não cogitou que, para além dessa morte anunciada, outro Deus poderia ressurgir. Um Deus mais consentâneo com o universo e seus mistérios, com a natureza e sua necessária harmonia, com o homem e sua constituição. Refiro-me ao Deus revelado por Espinosa, filósofo racionalista que viveu no século XVII e que sofreu influência do pensamento de Descartes. Espinosa, diferentemente deste, defendia a existência de uma Substância Única (Deus), da qual os seres são apenas modos. Segundo ele, os seres humanos, e apenas estes, são dotados de dois atributos divinos, quais sejam: a extensão (corpo) e o pensamento. Dessa forma, para o monismo espinosano, Deus também é matéria na medida em que é imanente ao mundo, confundindo-se com a própria natureza, ao contrário do que ensinam as religiões, que o vêem como um Ser transcendente. O ato pelo qual Deus se produz é o mesmo pelo qual ele produz tudo o que existe. Para Espinosa, a realidade (o mundo) e a concepção são idênticas, ou seja, coincidem a ponto de podermos afirmar que as nossas ideias adequadas correspondem plenamente à realidade.

Essa ideia de que Deus é também pensamento (consciência) não é restrita à filosofia. Cientistas da contemporaneidade e de renome, a exemplo de Robert Lanza, médico americano atuante na área da medicina regenerativa, autor de Biocentrism, de Stuart Hameroff, anestesista e professor da Universidade do Arizona, e do físico, matemático e filósofo inglês Roger Penrose, fundamentados na mecânica quântica, também sustentam a existência de uma consciência universal ou protoconsciência: uma propriedade fundamental do universo. Asseveram que nossas almas são, de fato, construídas a partir do próprio tecido do universo e podem ter existido desde o início dos tempos. Asseguram que nossos cérebros são apenas receptores e amplificadores para a protoconsciência, que é intrínseca ao tecido do espaço-tempo.

Com tais considerações, resta-nos torcer para que a aceitação dessa Substância Única, explicitada por Espinosa, viabilize uma conscientização dos indivíduos no sentido de um alerta para a preservação do ecossistema e da importância acerca da integração do homem com a natureza-Deus. E, oxalá, a partir daí possamos fazer nossas as palavras de Jung. Quando indagado no ano de 1959, em uma entrevista para a BBC, sobre a crença ou não em Deus, ele respondeu: “Não preciso acreditar...eu o conheço”. (Carl Jung: curador ferido de almas - Dunne Claire; tradução de Eliana Rocha. - 1 ed. - São Paulo: Alaúde Editorial, 2012, pg. 230.)

(Imagem: Google)


ADLLA RIJO

Adlla Rijo é escritora, autora de contos como "O dogma feminino" e "Psicanalhismo"..
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