diva

A arte tem o poder divino de resgatar indivíduos.

ADLLA RIJO

Adlla Rijo é escritora, autora de contos como "O dogma feminino" e "Psicanalhismo".

RELAÇÕES INFLAMATÓRIAS GERAM MECANISMOS DEFENSIVOS

Uma vez instalado o processo inflamatório relacional, os mecanismos de defesa vão adquirindo um determinado contorno, que se torna cada vez mais difícil diferenciá-los do que é genuíno em nós.


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Há algum tempo, deu-se comigo um curioso fenômeno em relação ao qual nunca havia parado para refletir, e menos ainda sobre como tal fato, passível de observação, se aplica às relações intersubjetivas.

Fui acometida de uma tendinite na coxa, após um exercício físico intenso, e por mais de quatro semanas passei a sentir dor nessa região no exato instante em que realizava com tal membro qualquer movimento que exigisse suspendê-lo. Nos primeiros dias, especialmente, a dor nos momentos de levantar a perna era tão intensa que, para entrar num carro ou deitar numa cama, eu tinha que segurá-la com o propósito, também, de evitar forçar ainda mais o tendão combalido. Fiquei transtornada, na época, uma vez que a dor me impedia de dançar num espetáculo já programado para algumas semanas à frente.

Após seis semanas desse adendo na minha rotina, e de seguir todo o tratamento prescrito, fui novamente ao médico e ele me pediu para que eu fizesse alguns movimentos de suspensão da coxa amortecida, quando, após hesitar um pouco, obedeci ao comando. Para minha surpresa, eu não senti dor alguma. Então, indaguei, perplexa: "Por que continuo intencionalmente evitando, a todo custo, fazer movimentos que permitam a suspensão da coxa, doutor!?". Ao que o profissional de jaleco branco respondeu: Muitos pacientes que são acometidos de um processo inflamatório dessa natureza, que resulta em intensificação da dor resultante do movimento, desenvolvem um mecanismo defensivo para manter o membro afetado em repouso.

Traduzindo em miúdos, caros leitores: o fato é que, em poucas semanas, levada por uma espécie de condicionamento em decorrência de uma inflamação no tendão, o meu cérebro estava programado para não suspender a minha perna esquerda, mesmo sarada a lesão que deu causa aos sintomas. O que estou falando, não é algo sutil, pois eu continuava segurando a minha coxa ao entrar num carro ou a subir numa cama sem que houvesse mais necessidade. Até mesmo nos momentos em que eu estava praticamente adormecida, ao me virar de lado, dava-me conta de que evitava fazer movimentos de suspensão do tal membro, ao passo que o outro eu mexia tranquilamente. Levou algum tempo para que o meu cérebro compreendesse que eu já estava curada da lesão. Mas, felizmente, tudo voltou ao normal.

O fato de que os efeitos da dor podem sobreviver à própria existência desta é algo não só observável como incontestável em diferentes fenômenos. Tem-se, como exemplo, o que se vê no transtorno do estresse pós-traumático, um distúrbio de ansiedade caracterizado por um conjunto de sinais e sintomas físicos, psíquicos e emocionais decorrentes de uma situação real e traumática, vivenciada no passado, em que o sujeito foi vítima ou testemunha de atos de violência que ameaçaram sua vida ou a de terceiros. A situação dolorosa e ameaçadora se esvai, mas o indivíduo permanece por ela atormentado.

Em um momento de ócio, ocorreu-me transpor tal situação para o âmbito dos relacionamentos, pois me dei conta de que a lembrança da dor, em termos um tanto diversos do que acabei de lhes relatar aplica-se, igualmente, às relações que costumamos manter com alguns tipos de pessoas. Quem nunca teve um primo, um irmão, um tio, um “amigo” ou mesmo um pai ou uma mãe que funcionasse como um verdadeiro instrumento podador, como uma poderosa dor limitante? Tal pessoa, mesmo às escuras, agia com enorme eficiência no sentido de selecionar os nossos salutares movimentos. Nem estou falando de algo ostensivo. Algumas vezes, simplesmente, o outro é somente aquilo que pode ser, e nós, para não nos sentirmos excluídos, rejeitados, desamados, destoantes, despedaçados, somos obrigados a nos adaptar a um meio que, originalmente, não era o nosso. Desenvolvemos, assim, uma série de mecanismos defensivos para que possamos nos encaixar naquele cenário hostil, porém muitas vezes disfarçado de inofensivo.

Por vezes, o disfarce é de tamanha dimensão que o incorporamos, adotando-o visceralmente. Assim, uma vez instalado o processo inflamatório relacional, os mecanismos de defesa vão adquirindo um determinado contorno, que se torna cada vez mais difícil diferenciá-los do que é genuíno em nós. A partir daí, mesmo afastada a causa geradora do sintoma; ou seja, agora, mesmo a léguas de distância, física e temporal, da pessoa danosa, o condicionamento limitante pode ter se tornado tão resistente quanto uma rocha! Doravante, para que possamos nos libertar, será preciso não apenas tempo, mas o encontro com uma alma boa e disponível o suficiente para nos abrir os olhos, fazendo-nos enxergar as nossas pesadas máscaras. Entretanto, isso não é tudo. Antes é imprescindível uma disposição interna para querer enfrentar a verdade.

É óbvio que o que estou dizendo aqui não é algo original. A psicanálise se ocupou adequadamente deste assunto; e embora tenha minhas reservas em relação a alguns conceitos psicanalíticos, considero ser esta uma das maiores contribuições de Freud para a humanidade. Pode-se dizer que os mecanismos de defesa são processos psíquicos inconscientes que aliviam o ego do estado de tensão psíquica entre o id intrusivo, o super ego ameaçador e as fortes pressões que emanam da realidade externa. Segundo o próprio pai da psicanálise, todos nós desenvolvemos ao longo da vida determinados mecanismos de defesa, o que caracterizaria tal processo como universal. Apenas quando tais mecanismos se tornam exacerbados é que o quadro passaria a ser definido como doentio. Tudo depende, pois, da intensidade da dor.

Entretanto, não precisamos ser psicanalistas para perceber que a natureza humana está sujeita a disposições e funcionamentos oriundos da natureza em geral, que afetam o nosso organismo como um todo. Vale ressaltar que aquela concepção cartesiana dualista, em que corpo e alma são vistos como duas instâncias distintas e apartadas, não encontra lugar num mundo onde o conhecimento se sobrepõe. Dependemos severamente de diversos fatores materiais (mesmo daqueles que existiram antes de nós sonharmos em vir ao mundo!) para que sejamos capazes de manter uma satisfatória relação com as pessoas que nos cercam.

Além disso, no que toca ao tema, é mister recordar que a nocividade de cada pessoa em relação a outra depende de uma série de coordenadas, dentre elas o quantum relativo ao fortalecimento do ego e da autoestima do sujeito. É claro que existem aquelas que são intrinsecamente nocivas e altamente indigestas, sendo que dessas devemos correr léguas.

Por fim, diante de tais reflexões, concluí que a minha dor era minúscula diante de outras dores realmente persistentes, e que a situação em que me encontrava, na época vista por mim como problemática, era de fácil resolução. Bem mais intrincada é a inflamação proveniente das relações doentias. Nesse caso, a dor tem um nome específico, é bem mais doída e limitante, e se chama constrição, estreitamento, angústia.

(Imagem: Google)


ADLLA RIJO

Adlla Rijo é escritora, autora de contos como "O dogma feminino" e "Psicanalhismo"..
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