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A arte tem o poder divino de resgatar indivíduos.

ADLLA RIJO

Adlla Rijo é escritora, autora de contos como "O dogma feminino" e "Psicanalhismo".

“AUTOAJUDA?” “NÃO, OBRIGADA. ALTA AJUDA”

Diferente da autoajuda, que se propõe a ser um método de aprimoramento pessoal em que o indivíduo pretende buscar, sem ajuda de outrem, soluções para problemas emocionais, superação de dificuldades, etc., a alta ajuda vem do “alto” e, como o próprio nome sugere, promove resultados bem mais elevados.


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A procura de ajuda em momentos de dificuldade já é o primeiro passo na trajetória de superação dos problemas. É o indicativo de que o indivíduo está em busca de sua melhora, quer seja no âmbito espiritual, amoroso, econômico, profissional, etc. Vencer a inércia ocasionada pela descrença no futuro e pelo conformismo, ampliar os horizontes através da obtenção de um recurso que possa auxiliar o sujeito naquilo que lhe falta, é o ponto de partida para uma guinada em direção ao que podemos chamar de crescimento.

É certo que, no íntimo, todos almejamos a nossa melhora e o desenvolvimento de nossas potencialidades. Mesmo aqueles que acabam por meter os pés pelas mãos estão no encalço de seu aperfeiçoamento como ser humano. O que acontece é que, boa parte das vezes, por ocasião de múltiplos fatores, nossa visão permanece embaçada e acabamos nos distanciando de nosso prumo. Não pretendo aqui, com isso, defender à risca a filosofia aristotélica no sentido de que o ser só alcança seu fim quando cumpre a função que lhe é própria, a sua virtude, aquilo que lhe seria, em tese, concedido pela natureza. O homo sapiens tem uma capacidade enorme de se refazer, “uma vocação de fênix capaz de renascer das próprias cinzas”. Logo, penso que uma vida pode abraçar diferentes caminhos, sem que, por isso, venha o indivíduo, necessariamente, a ficar privado da felicidade. Mas uma coisa é certa: as potencialidades existem e precisam ser exploradas. O próprio Novo Testamento faz menção à necessidade de sermos fiéis à nossa vocação, que pode ser entendida como talento (Efésios 4:1). Sua interpretação deve ser feita de forma alegórica, mas sua mensagem é clara. Nessa jornada, muitos se entregam ao discurso sedutor da autoajuda, ainda mais por se constituir no recurso de mais fácil acesso, intelectualmente falando. Longe de desmerecer qualquer esforço no sentido de uma melhora pessoal, desse não sou adepta, pois eficaz mesmo considero a alta ajuda. Do que se trata? Explico.

Diferente da autoajuda, que se propõe a ser um método de aprimoramento pessoal em que o indivíduo pretende buscar, sem ajuda de outrem, soluções para problemas emocionais, superação de dificuldades, etc., a alta ajuda vem do “alto” e, como o próprio nome sugere, promove resultados bem mais elevados. Implica no desenvolvimento do ser através da obtenção de conhecimentos e recursos práticos advindos da filosofia, da história, da literatura, da música e da arte como um todo. Mesmo porque, sabe-se que o homem é um ser biopsicossocial, cuja saúde e bem estar dependem de múltiplos fatores. Reduzir tudo isso a um suposto método de soluções prontas, como num molde único, é uma simplificação grotesca. Não descarto a possibilidade da autoajuda funcionar como um paliativo, uma espécie de unguento de auxílio restrito a determinados “ferimentos”. Mas, caso o que se deseje seja uma modificação profunda, um salto enriquecedor, um belo trajeto em direção ao aprendizado consistente, ela mostra seu lado pífio.

Devemos lembrar que, embora façamos todos parte da espécie humana, cada indivíduo possui a sua singularidade e necessita alcançar meios para explorá-la adequadamente, sob pena de comprometer ou até mesmo aniquilar a sua própria originalidade. A adoção incondicional de fórmulas acabadas, como aquelas que ensinam como se portar numa entrevista de emprego, ou o que fazer em determinadas situações embaraçosas, ou ainda como agir em relação a determinadas pessoas, sempre anulam o que há de mais sublime no ser, sua espontaneidade. E é exatamente isso o que diferencia cada ente humano. Se fôssemos seres isolados da natureza, sem conexão nem dependência para com ela, é que poderíamos aceitar a possibilidade de imprimirmos a nós mesmos, de forma independente de tudo o mais, ações voltadas para nossa melhora.

É claro que podemos aliar a nossa espontaneidade a algo maior, cujo nome que me parece mais adequado agora é “conscenciosidade”, ou consciência cósmica. O grau de conscenciosidade é variável de pessoa a pessoa. Algumas, por razões inacessíveis à compreensão humana, já o possuem em nível elevado, sem necessitar de maior esforço. Não precisam que lhes digam como agir. Sua intuição é aguçada o suficiente para sabê-lo. Mas aqueles que não foram agraciados com tal preciosidade podem se esforçar para alcança-la. Reconhecer isso, significa dizer que alguns já nascem com maior facilidade para a dança, sendo beneficiados com uma maior flexibilidade e desempenho corporal, outros nascem com um ouvido privilegiado para a música e se tornam grandes compositores, mesmo não tendo, aparentemente, recebido estímulos suficientes que justificassem o surgimento do dom, outros têm uma capacidade de resiliência inigualável diante dos problemas da vida, apesar do pouco que receberam na infância.

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Fico pasma quando alguém tenta ajudar uma pessoa em estado depressivo com simples palavras como: “pense positivo!; “esqueça os problemas!”; “coragem!” ;“pense mais em você!”. Toda doença, e nisso a depressão não difere em nada, é a manifestação de um desacordo com a physis, promovido a longo, médio ou curto prazo, a depender do agente desagregador. Logo, não existem soluções mágicas. Pensar positivo não é simplesmente uma causa ou ponto de partida de uma melhora, mas principalmente uma consequência advinda do estado de integração física e mental de determinado ente.

Enfim, não escolhemos aquilo que nos será concedido como dádiva. Contudo, podemos nos esforçar para obter algumas. No nosso caso, o esforço para angariar o bem que desejamos é a busca da integração com o universo. É isso mesmo, não há outro caminho. Trata-se de sentir e admitir a força incontestável da natureza, contemplando-a; de buscar as nossas raízes através da história, conhecendo um pouco melhor o seu próprio funcionamento. Força é ouvir aquilo que as pessoas normalmente não costumam ouvir no seu dia a dia, porque muitas vezes passa despercebido; ver o que está por trás do aparente e do superficial; rejeitar fórmulas prontas; duvidar de todo e qualquer conhecimento estabelecido, como preconizava Descartes; praticar a meditação e a suficiente movimentação corporal; preocupar-se com aquilo que serve de alimento tanto do corpo, como do espírito, transgredir; viver; inventar e, sobretudo, reinventar.

(Imagens: google)


ADLLA RIJO

Adlla Rijo é escritora, autora de contos como "O dogma feminino" e "Psicanalhismo"..
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