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A arte tem o poder divino de resgatar indivíduos.

ADLLA RIJO

Adlla Rijo é escritora, autora de contos como "O dogma feminino" e "Psicanalhismo".

COM QUANTAS FOGUEIRAS SE CALA UM DISSIDENTE? (UM TRIBUTO A GIORDANO BRUNO)

Há muito extinguiram-se as tradicionais fogueiras que flamejavam na época da inquisição e que haviam reduzido a cinzas tantas vidas e sonhos, mas permanece atuante a inoxidável lâmina da intolerância em relação àquilo que destoa do convencional. Não é nada incomum presenciar nas redes sociais agressões de todo gênero contra aqueles que ousam sustentar ideias revolucionárias ou apenas contrárias àquelas defendidas por maiorias.


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Desde que o ser humano apoderou-se da linguagem e da capacidade de expor suas ideias, a dissidência tornou-se possível. É óbvio que o número de dissidentes em cada etapa do pensamento humano é bem inferior ao de indivíduos que cultivam a mesma opinião a respeito de determinado tema. Isso não se deve apenas ao fato de que são poucos os que têm a capacidade de ultrapassar intelectualmente o status quo, mas também em face da circunstância de ser raro o percentual daqueles que têm a coragem e ousadia de brandir a autêntica bandeira do “divergente”. Usei propositadamente a palavra “autêntica” com a finalidade de deixar claro o fato de que na contemporaneidade não são poucos os sujeitos que se apresentam como “revoltosos” com o sistema, com a política, com a mídia, etc., mas reproduzem cegamente o ritmo condicionado da manada. Certamente, não é dessa qualidade de indivíduos que trata o presente ensaio.

Venho aqui falar de homens preciosos à humanidade, os quais, em épocas não tão remotas, muitas vezes arriscaram a própria vida, e mais recentemente a sua aceitação perante o grupo, em nome do que acreditavam e do que queriam expor à coletividade. A propósito, se me perguntassem hoje qual a figura histórica que melhor encarnou essa admirável categoria de pessoas, a qual não podemos deixar de reverenciar pela eternidade - para aqueles que acreditam que esta existe!, diria sem pestanejar: Giordano Bruno, cuja vida e obra me fascinam - amor à primeira vista! Desde quando alimento esse fascínio? Desde o momento em que tomei conhecimento de sua passagem incandescente por este universo. Para quem nunca ouviu falar desse incomparável homem, digo-lhes que foi um filósofo e teólogo italiano que viveu de 1548 a 1600. No entanto, Bruno foi muito mais: foi um profundo visionário que permaneceu fiel até a morte a suas ideias e ao seu pensamento inconformista, inquieto, de caráter naturalista, espiritualista e holista. Suas ideias surgem no contexto histórico do final do Renascimento, em que a Terra começa a ser compreendida como mais um dos planetas girando em torno do sol. Em sua obra Do imenso e do infigurável (do universo e dos mundos), ele defende, entre outras coisas, que a Terra não passa de um insignificante ponto perdido nos espaços interestelares, que gira sobre si mesma e em torno do sol - ressuscitando aqui a teoria copernicana; que o Universo não tem limites, é composto de uma infinidade de corpos minúsculos, que abarca uma multidão de mundos - tais como o nosso, separados por gigantescos espaços vazios.

Observa-se que, para além das descobertas já propaladas por Copérnico, numa época em que a hostilidade dos integrantes da igreja implicava nas mais terríveis crueldades que a espécie humana já presenciou e sofreu, Bruno ousa dizer mais: O espaço e o Universo são infinitos. E ainda acrescenta: Existe uma infinidade de mundos análogos ao nosso. Estes mundos inumeráveis são habitados... O universo é uma esfera infinita cujo centro está em toda parte e a circunferência em lugar nenhum.

Esse indescritível homem pagou com a própria vida a liberdade de seu pensamento, que era visto, na época, como uma heresia. Foi queimado vivo numa das incontáveis fogueiras da inquisição, submetido a um processo eivado da mais repugnante injustiça e abandonado por todos. Como bem lembra Hilton Japiassu, em sua obra A face oculta da ciência moderna, “Durante mais de um século, nenhuma voz importante se levantou em seu favor, nem mesmo entre os que eram favoráveis às suas ideias fundamentais. Os sábios do século XVII, bons cristãos, temiam se comprometer com quem havia defendido ideias teológicas tão audaciosas e duvidosas, temerárias e insustentáveis. Nem mesmo o corajoso Galileu (seu compatriota) ousou abrir a boca em sua defesa. Jamais o menciona: ignora-o solenemente. Tampouco o prudente Descartes”. Registram os historiadores que muitos de seus manuscritos só foram publicados pela primeira vez na metade do século XX.

O mesmo autor ressalta que, embora tenha havido alguns predecessores, foi Bruno quem, de fato, aprofundou de maneira geral a ideia de infinitude do Universo, com um rigor e uma acuidade impressionantes. Ideia essa com importantes repercussões no âmbito filosófico e científico. Dentre outras coisas, abriu a possibilidade de se estabelecerem as regras do cálculo infinitesimal, e desde algum tempo já se sabe que a ideia de infinito foi, para os filósofos racionalistas da época, uma das mais promissoras, reunindo em si o conjunto das principais preocupações de ordem metafísica, epistemológica e teológica. Ainda segundo Japiassu “O movimento infinitista atingiu seu ponto culminante no pensamento científico e filosófico do grande Newton. Por mais que suas concepções juntamente com as de Descartes, Espinoza, Leibniz, sejam distintas e pensadas em outro contexto, o fato é que todos passaram a admitir a existência de um Universo infinito bastante distinto da infinitude divina”.

Ademais, quatro séculos depois, temos hoje cientistas de renome que, consubstanciados na física quântica e em outros ramos da ciência, defendem a existência de múltiplos universos, a exemplo de Robert Lanza, um americano especialista em medicina regenerativa, autor da obra traduzida como biocentrismo.

É certo que Bruno não foi o único a ser retaliado por suas ideias inovadoras e visionárias, embora sua pena tenha sido das mais cruéis. Antes dele temos o affaire Sócrates, outro mártir da liberdade de pensamento, cujas ideias incomodavam, deveras, uma extensa gama de seus contemporâneos. Muitos outros estudiosos, filósofos e cientistas também sofreram na pele, em diferentes períodos, algumas marcas da brutalidade gerada pela ignorância e pela superstição. Dentre eles, podemos citar Rosseau, que no século XVIII foi perseguido na França por suas obras, consideradas uma afronta aos costumes morais e religiosos da época. Já no século XIX, temos o próprio Charles Darwin, o qual foi alvo de severas críticas oriundas da igreja católica, que, em face de sua teoria da evolução, o acusava de ateísmo.

Quanto aos nossos dias, extinguiram-se as tradicionais fogueiras, mas a brutalidade permanece. Não é nada incomum presenciar nas redes sociais agressões de todo gênero contra aqueles que ousam sustentar ideias revolucionárias e especialmente contrárias àquelas defendidas por maiorias. Exemplo disso ocorreu com o biólogo evolucionista e escritor Richard Dawkins ao manifestar sua opinião em rede social no sentido de que, em caso de gravidez de um feto com síndrome de Down, considerava mais correto o aborto, porque dever-se-ia optar, segundo ele, por trazer ao mundo um ser saudável. Não foi para a fogueira. Teve que assistir aos piores insultos públicos contra sua pessoa.

A questão aqui não é a de saber quem está com a razão, mas a de ser capaz de aceitar que o outro possa pensar de maneira diferente, sem que isso comprometa os meus próprios valores e a minha qualidade de ser pensante. Ninguém é proprietário da verdade, e cada um deveria ter a liberdade de defender suas ideias, mormente por serem apenas ideias. Todos deveríamos adotar a filosofia inscrita na famosa frase atribuída a Voltaire: “Posso não concordar com o que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo”.

Ensinava Nelson Rodrigues que “Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.”. E bem antes dele o grande Montaigne já preconizava: “A melhor prova da verdade não se encontra no número dos que nela crêem”.

No mais, ficamos com o filósofo Francis Bacon para quem “A verdade é filha do tempo”; e a prole deste, da mesma forma que Giordano Bruno, não se queda diante das fogueiras acesas pelos insensatos. É inexorável.

(Imagem: google)


ADLLA RIJO

Adlla Rijo é escritora, autora de contos como "O dogma feminino" e "Psicanalhismo"..
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